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Combate Rock

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Liberdade, autocensura e os arrepiantes sinais do autoritarismo

Combate Rock

08/08/2019 07h00

Marcelo Moreira

Ouvir rock é um ato subversivo. É um comportamento de risco, que pode levar à prisão ou à conndenação à morte. É um ato libertário, onde é possível saborear a liberdade, especialmente no caso de quem não tem liberdade, ou não vive a liberdade.

Soa absurdo hoje que esse tipo de coisa tenha sido verdade em algum momento da vida humana. Mas era assim que o rock era visto em muitos lugares do mundo a partir dos anos 60, seja por questões políticas, seja por questões religiosas.

No ano passado, o Combate Rock contou um pouco da história de um refugiado húngaro que mora atualmente na Inglaterra, mas que desafiava o regime comunista totalitário de seu país para ouvir e ver rock de frma clandestina. O relato pode ser lido aqui.

Alguém uma vez disse que a liberdade é algo viciante. Privar alguém de sua liberdade é certamente o pior castigo existente, seja em uma prisão, seja no dia a dia, seja mesmo em uma lar modesto, sem alternativas de escolha de alimento por falta de dinheiro.

A clandestinidade em tempos de cólera e ódio foi a saída e a "alternativa" de muitos ao longo da história para saborear momentos esparsos e liberdade, algo que não era comum para a imensa maioria dos seres humanos.

Se a democracia é um conceito que remonta à Grécia Antiga, sua disseminação foi muita lenta ao logo dos milênios. Mesmo no século XX, quando de sua consolidação como força política e ideológica com certa hegemonia, a democracia nunca foi maioria como sistema político entre as nações.

Nem mesmo hoje é hegemônica, por mais que na "quantidade" e nominalmente possamos reconhecer muitos países "democráicos". A Venezuela é uma democracia? A Rússia é uma democracia? A Turquia?

Um dos momentos mais importantes do atual show de Roger Waters em São Paulo, em 2018 (FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE)

A clandestinidade e a transgressão têm seus apelos românticos. Muitos filmes ocidentais revelam como eram heroicos os tempos de resistência ao nazismo erm toda a Europa, com seus mitos reais e outros totalmente improváveis.

Como devia ser saborosa a aventura de participar de clubes de jazz proscritos em Berlim e Munique nos tempos da Alemanha nazista, mesmo que houvesse o risco de prisão e morte em um campo de concentração.

Como descreve o intelectual István Nemeth no texto sugerido acima, como a sensação de perigo ao ouvir rock na Hungria comunista fazia com que a maioria dos transgressores se sentisse vivo. Como era maravilhosa a sensação de liberdade de ler e ouvir aquilo que o seu governo queria banir.

O que não é nem um pouco gostoso e saudável é sentir na pele as consequências paulatinas da perda de liberdade, por mais restrita que fosse.

"Começa assim: alguém não gosta de você e decide que você não pode existir", afirmou o artesão Moshe Solomon, um simpático velhinho morador de Higienópolis, na zona oeste de São Paulo.

"Sozinho, esse idiota é apenas um idiota. Quando ele convence outros idiotas de que você não merece viver, eles não passam de apenas um bando de idiotas. Quando a idiotice passa a ser uma razão de vida e uma meta a ser alcançada, vem o ódio, o racismo e o ressentimento contra quem quer que seja. Para a maioria, eles continuam sendo idiotas reunidos em torno de uma grande idiotice. Só que, quando as pessoas se dão conta do perigo, os idiotas tomaram conta do governo, do parlamento e do destino de sua vida."

Solomon sabia do que estava falando. Passou a maior parte da primeira metade da vida na clandestinidade, fugindo do autoritarismo, do sectarismo e das perseguições políticas.

Judeu natural da Bielorrússia (atualmente Belarus), suportou todo o tipo de privação e perseuição no começo da União Soviética, quando o antissemitismo comunista era implacável nos anos 20 e 30.

Sua família escapou para a vizinha Polônia, um país que tinha recuprado sua independência após a I Guerra Mundial e que tinha uma enorme população judia. O sossego durou muito pouco, já que os nazistas alemães invadiram o país em 1939 e iniciaram a II Guerra Mundial.

Solomon escapou da morte no Holocausto, mas viu a perseguição aos judeus dizimarem quase toda a sua família em campos de concentração na Polônia.

Viveu candestino em florestas e em aldeias destruídas até que foi preso por uma milícia polonesa fascista. Frequentou Sobibor, uma das fábricas a morte dos nazistas e, esquálido, conseguiu o milagre de fugir pela neve ao pular de um trem no momento em que era transferido para outro campo de concentração por conta do avanço das tropas sovièticas.

Ajudado por famílias católicas, conseguiu alimento e refúgio até encontrar uma rota que a resistência polonesa mantinha para ajudar na fuga dos judeus.

Reprodução da capa da edição brasileira do livro "Liberdade de Expressão: Dez Princípios para Um Mundo Interligado", de Timothy Garton Ash

Fugiu para a Suécia no finalzinho de 1944, onde permaneceu abrigado ela Cruz Vermelha até 1947. Entre o Brasil e a Palestina, optou por São Paulo, onde tinha parentes distantes. Foi na cidade que morreu na década de 90, com pouc mais de 80 anos.

A narrativa de Moshe Solomon é só mais uma entre tantas de sobreviventes das nazistas, mas ela é temperada por odes à liberdade que muitos outros perseguidos não tiveram tempo de perceber.

"Desde os anos 30 minha família teve de fugir – bolcheviques, fascistas poloneses, nazistas alemães – e vivi muito termpo na clandestinidadade. Mas muitos de nós se recusavam a se entregar. E aproveitávamos cada tempinho paa ouvir música na rádio de Varsóvia ou BBC. Cada segundo que conseguíamos ler qualquer coisa era uma vitória contra o Mal", afirmou o sobrevivente de Sobibor.

A lição que ele passa é importante: o autoritarismo e o fascismo são insidiosos, avançam devagar no começo e logo tomam conta de tudo antes que percebamos a gravidade da situação.

Diante do perigo crescente do autoritarismo e da erosão dos direitos humanos e da liberdade de expressão que observamos no Brasil, é bom que fiquemos atento a aspectos aparentemente aleatórios que pode escapar do nosso alcance, mas que, encaixadas em raciocínios analíticos e em uma espécie de quebra-cabeças, revelam um quadro sombrio.

É o caso da autocensura, por exemplo, o que é muito grave em uma sociedade que goza de liberdades democráticas que, no entanto, estão sob constantes ataques.

É aquilo que as pessoas deixam de fazer ou de falar por medo de represálias ou da reação das pessoas, coisa que dominou as sociedades vítimas do totalitarismo, como o início do fascismo, do nazismo e do stalinismo soviético.

A jornalista e escritora Eliane Brum detectou de forma precisa esse estado de coisas em sua coluna na versão nacional do jornal El País. No texto "Doente de Brasil", ela esmiúça esse sentimento perigoso da autocensura, que antecede o medo nas sociedades totalitárias e regimes ditatoriais.

"Há milhares, talvez milhões de pequenos gestos de conformação acontecendo neste exato momento no Brasil. Em silêncio. Pequenos movimentos de autocensura, ausências nem sempre percebidas. Uma autora me conta que conseguiu manter seu livro no catálogo da editora sem usar a palavra gênero…. para falar de gênero e sexualidade", escreveu Eliane.

"Uma diretora de teatro me diz que vestiu os corpos de suas atrizes, até então nuas, numa peça de teatro. A professora de uma das mais importantes universidades públicas do país me relata que muitos colegas já deixaram de analisar determinados temas em salas de aula por medo do 'poder de polícia' dos alunos, que têm gravado as aulas e se comportado de forma ainda mais violenta que a polícia formal. Um curador de eventos preferiu não fazer o evento. Mudou de assunto. Outro deixou de convidar uma pensadora que certamente levaria bolsocrentes para a sua porta. Nunca saberemos o que poderia acontecer, porque o acontecimento foi impedido para não sofrer o risco de ser impedido", continuou a jornalista.

E com isso chegamos à tese que os líderes negros norte-americanos que lutaram, pelos direitos civis levantaram várias vezes. Martin Luther King Jr., assassinado em 1968, sempre dizia que era mais preocupante o silêncio dos bons cidadãos do que a violência dos extremistas.

Ou seja, diante do cansaço e do pessimismo, muita gente preferem "não comentar" e ficar de fora de qualquer coisa que possa ser "comprometedora. É assim que o autoritarismo se infiltra, ou é principalmente assim que o autoritarismo se infiltra, como pondera Eliane Brum de forma bastante pertinente.

"E é também assim que se adoece uma população por aquilo que ela já tem medo de fazer, porque antecipa o gesto do opressor e se cala antes de ser calada. E em breve talvez tenha medo também de sussurrar dentro de casa, num mundo em que os aparelhos tecnológicos podem ser usados para a vigilância. Chega o dia em que o próprio pensamento se torna uma doença autoimune. É assim também que o autoritarismo vence antes mesmo de vencer", conclui a jornalista de modo sombrio.

É duro ter de pensar em tudo isso quando se participa de event público e decidimos nos manifestar politicamente. Imaginava-se que tínhamos superado algumas fases sofridas e delicadas de nossa vida institucional em uma democracia que parece estar semrpe em transição.

Há quase quarenta anos era possível falar mal do general João Bastista Figueiredo, o último presidente militar, nas praças de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Nas manifestações que pediam eleições diretas, a partir de 1983, o general presidente que preferia cavalos a seres humanos era achincalhado na Praça da Sé e na Candelária.

Hoje torcedor de fotebol e cantor de rock são detidos e levados para a delegacia por criticar Jair Bolsonaro (PSL), político fake-factoide que foi eleito democraticamente.

Será que teremos de evitar conversar em público sobre política para evitar qualquer tipo de denuncismo e até mesmo a prisão? É assim que estamos dando boas-vindas ao autoritarismo?

 

 

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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