Combate Rock

Trintões do pop: a importância de 1987 na evolução da música - parte 6

Combate Rock

26/07/2017 17h00

Caio de Mello Martins* – publicado originalmente no site Roque Reverso

Pet Shop Boys – “Actually”

Por volta de 1987, o SynthPop já tinha praticamente morrido. Com a exceção de Depeche Mode e New Order, que ainda tinham alguma relevância para o público em geral, todas as outras bandas estavam agonizando.

O impacto da sonoridade eletrônica e do visual extravagante e andrógino já havia se diluído completamente no caldo pop — o que chegou a motivar até mesmo uma reação contra a artificialidade da música arquitetada 100% por tecnologia de estúdio, com grupos como REM e The Smiths reconduzindo as guitarras para os holofotes e resgatando métodos tradicionais de composição.

Desacreditado, o SynthPop virou sinônimo de frivolidade. Antes uma interessante mistura de kraut rock, electro-disco e das radicais investigações de grandes figuras do experimentalismo setentista como Bowie, Eno, Robert Fripp e Ryuichi Sakamoto, o estilo degenerou para uma abominável apropriação e pasteurização de gêneros da cultura negra (reaggae, soul, funk) na forma de um produto pré-fabricado para ouvidos brancos. Por isso é tão interessante notar que em “Actually”, o segundo álbum do duo de SynthPop Pet Shop Boys, articula-se uma sonora crítica ao thatcherismo em voga na época.

Em vez de cantigas sobre paixonites descartáveis, Neil Tennant entoa canções que abordam questões que marcaram a época, como AIDS (“It Couldn’t Happen Here”), desemprego e guerra (“King’s Cross”), consumismo (“Shopping”), alienação e reificação (“Rent”).

Muito à maneira do Soft Cell e (num parentesco mais remoto) Sparks, o tecladista Chris Lowe é especialista em criar aquelas grudentas melodias pop, embrulhadas em uma roupagem tão grosseiramente bombástica que é impossível não denunciar o truque.

No entanto, o grande talento de Lowe para sucessos de pistas adorna muito bem com a apatia da pequenina voz de Tennant. Sua pose de cronista desiludido da vida britânica confere sobriedade ao Pet Shop Boys; com tom anasalado, sua voz quase entabula uma conversa com o ouvinte (“Sprechsung”, como gostam de conceituar os alemães), chamando-lhe a atenção de que existem mensagens importantes sob os grooves.

“Actually” propõe com sucesso uma nova saída para o eletrônico num contexto pop: imediatista e melodramático na forma, seu conteúdo reflete o materialismo e o individualismo que a desapegada persona de Tennant, resignadamente, reconhece em si mesma.

Steve ‘Silk Hurley’ – “Jack Your Body”

OK, não é um álbum, mas numa coletânea de 1987 não dá para não falar de House Music. “Jack Your Body” foi o primeiro sucesso a alçar o estilo ao topo das paradas britânicas.

Steve ‘Silk’ Hurley, DJ de Chicago, seria o primeiro de vários artistas da House Music a fazer incursões entre os dez primeiros colocados, prenunciando uma nova força na cultura pop inglesa que seria conhecida como o 2º verão do amor — uma referência não só ao Summer Of Love californiano que marcou o auge da cultura hippie em 1967, mas também às primeiras raves que, nos próximos anos, tomariam conta de boates e galpões abandonados pelas maiores cidades inglesas afora — lugares que receberiam às vezes dezenas de milhares de pessoas e quantidades industriais da “droga do amor”, o Ecstasy.

Em um curioso intercâmbio cultural, DJs negros do rusty-belt americano, como o próprio Hurley e outros pioneiros da House/Techno (Frankie Knuckles, Juan Atkins, Derrick May etc), absorveram toda a sonoridade repetitiva e sintética de artistas europeus como Kraftwerk e Giorgio Moroder, misturaram com o funk viajandão do Parliament/Funkadelic e no processo criaram um “pidgin” musical por meio de ferramentas cada vez mais acessíveis de edição sonora, como os sintetizadores e sequenciadores da Roland, que possibilitavam criar faixas de dança ainda mais insistentes e hipnóticas.

“Jack Your Body”, com suas diferentes camadas de ritmos pré-programados, samplers recortados de vocais e sua linha de baixo composta via o analógico Roland TB-303, traz elementos musicais emblemáticos nesse novo passo da fase pós-disco da evolução da música de pista.

A ressonância da House Music como fenômeno cultural em Londres e vários outros pontos da Europa (Ibiza, Ghent, Berlim) fez com que, em um segundo momento apenas, o som de Chicago crescesse em proeminência dentro de seu próprio país de origem, onde em questão de pouco tempo explodiu no epicentro da indústria do entretenimento globalizado — Los Angeles. Não por acaso, a Rainha do Pop se renderia em 1990 às batidas da House Music em seu álbum Vogue.

U2 – “The Joshua Tree”

“The Joshua Tree”, o disco que alçou os irlandeses ao estrelato, já era o quinto do grupo, e o segundo produzido pelo mago dos estúdios Brian Eno. O single “Pride (In The Name Of Love)” foi um indicativo do que estava por vir.

Primeiro sucesso a quebrar a barreira do Top 40 da Billboard, a música já refletia a colaboração da banda com Eno, que aprofundou e expandiu ainda mais a grandiloquência que sempre caracterizou a guitarra de The Edge e o fervor messiânico de Bono.

Essa combinação sinérgica colheria os frutos em 1987, quando a banda emplacou o topo da Billboard duas vezes com “With Or Without You” e “I Still Haven’t Found What I’m Looking For”.

É difícil explicar que o U2 era uma banda “alternativa” em 1987 para quem nasceu depois de 1990. Para estes, a lembrança mais remota da banda já remete às megaturnês do Zooropa, com produções monumentais de projeção e luz instaladas nos maiores estádios do mundo.

À época o U2 era uma das poucas bandas a não integrar elementos eletrônicos no som e a ostentar uma formação instrumental tradicional. Não que a banda fosse roqueira no sentido clássico (ou baby boomer) do termo.

A guitarra de The Edge usava uma gama de pedais de efeitos e a banda raramente aludia à trindade hedonista “sexo, drogas e rock n’ roll”: muito pelo contrário, as letras de Bono, um católico devoto, denunciavam conflitos ideológicos e cisões sociais, clamando por paz e buscando refúgios de pureza na inocência da infância e no amor ungido pelo espírito.

Por mais que a produção de Brian Eno tenha acentuado a mensagem de contemplação platônica do som do U2, o que chama a atenção na música é uma qualidade diametralmente oposta: a interpretação sexual de Bono nos vocais, ofegando, gemendo e vocalizando ao longo do álbum inteiro.

Paradoxalmente, foi com essa performance sedutora que Bono fez nascer a figura do rock star benevolente. Imbuído da “responsabilidade” de “dar o bom exemplo” e apoiar “causas justas”, está sempre em conflito com a vaidade que camufla com gestos e declarações altruístas, que no fim agem a serviço de sua própria vaidade lhe conferindo uma marca registrada. Não por acaso Eddie Vedder é um grande fã de “The Joshua Tree”.

* Caio de Mello Martins é jornalista.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

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