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Combate Rock

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Patrulha x opinião: a intolerância nossa de cada dia

Combate Rock

16/10/2018 06h42

Marcelo Moreira

Músico tem de direito ter opinião, e de dá-la no palco, se assim o que quiser. Também tem o direito de não ter posicionamento algum, enquanto o fã e o espectador têm o direito de cobrar alguma opinião do artista – o fato de cobrar não é garantia de que será "contemplado".

São premissas básicas, de simples entendimento, sem dificuldades adicionais. Pena que a maioria das pessoas, neste ambiente político-social convulsionado, apresenta grave problemas de interpretação de texto e fala.

Já discorremos aqui muitas vezes de que o que mais importa, para os amantes da música, é a música em si, tenha ela ou não conteúdo político ou mensagens engajadas. Quando há divergências políticas, que haja respeito e que a democracia prevaleça.

No entanto, quando a democracia está em risco e vemos que a maioria das pessoas não se importa com isso – por falta de informação ou por simples cretinice/burrice -, é quase que necessário que artistas se posicionem contra o autoritarismo e o totalitarismo, sob pena de serem vítimas futuras dos fascistas.

E quando o artista faz questão de não se posicionar? É perfeitamente legítimo que muitos decidam ficar longe do esgoto que se tornou o cenário eleitoral e as redes sociais. Provavelmente será criticado, mas faz parte do jogo.

Só que a falta de respeito predomina em todos os ambientes, e duas bandas de rock veteranos e importantes foram vítimas de seus posicionamentos políticos, embora em situações distintas e, aparentemente, em polos políticos opostos.

Korzus (FOTO: PATI PATAH/DIVULGAÇÃO)

A banda Korzus tocou no último final de semana em Recife (PE) e teve reações distintas da plateia quando Marcello Pompeu, o vocalista, fez um breve discurso apelando para a união do underground, coisa que sempre foi requisitada e nunca realizada.

Pompeu é um dos maiores batalhadores pelo rock nacional e pela cultura brasileira. Músico competente e excelente produtor musical, é um cidadão extremamente crítico do cenário político e de muitas iniciativas consideradas de esquerda.

Apesar disso, é um ardente defensor da democracia e do direito de as pessoas poderem se manifestar, por mais estúpida que seja a sua ideia e por maior que seja a divergência.

E não é que Pompeu foi vaiado e criticado em Recife por ter pregado a união em favor do rock e da cultura acima de qualquer divergência/posicionamento político?

E não é que teve um retardado que tentou invadir o palco acreditando que Pompeu estava criticando o seu posicionamento político, fosse ele qual fosse (o idiota foi expulso do recinto)?

É outras das maravilhosas exclusividades brasileiras: o patrulhamento de quem não quer se posicionar e só pensa em união para melhorar uma cena degradada, desgarrada e sem futuro.

Do outro lado, eis que causa escândalo uma tentativa de editar uma entrevista dos integrantes da banda Ratos de Porão que seria publicada no site de uma extinta revista de música.

A tentativa de suprimir informações e opiniões contrárias fez com que a empresa parceira da revista rompesse publicamente a colaboração com o site, no caso a Rock Brigade.

O caso virou escândalo porque, segundo a acusação da produtora de conteúdo Hedflow, a tentativa de supressão das críticas ao candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) foi levada a cabo pela direção da revista, que apoia este candidato.

Quando houve o condicionamento da publicação da entrevista à edição do material sem o conteúdo político, a Hedflow imediatamente proibiu a reprodução do material e rompeu com o site. Clique aqui e leia a nota oficial da empresa. 

Já a Rock Brigade tentou se defender, embora sua nota oficial mais tenha confundido do que esclarecido alguma coisaclique para ler. 

A banda Ratos de Porão ainda não se pronunciou, embora o perfil no Facebook tenha compartilhado com certo destaque a nota oficial da Hedflow.

O acirramento das divergências políticas e a completa polarização que esbarra na violência está impedindo as pessoas de conversar e de se entender.

É ingenuidade um artista achar que estará imune ao patrulhamento ideológico, tomando ou não partido de um candidato ou corrente de pensamento. Entretanto, a patrulha que ocorre nos dias de hoje está esvaziada de conteúdo e embala apenas ódio.

Ratos de Porão no lançamento de 'Século SInistro' (FOTO: WANDER WILLIAN/DIVULGAÇÃO)

Korzus e Ratos de Porão são apenas as mais recentes vítimas da intolerância de origem política no mundo do rock.

Depois que o ex-Pink Floyd Roger Waters se tornou alvo de gente ignorante por conta de seus brados contra o fascismo e o autoritarismo, era esperado que a próxima vítima viesse provavelmente do rock pesado.

E não se trata de condenar este ou aquele artista ou fã por apoiar partido de esquerda e direita. Isso sempre ocorreu no Brasil e, ao contrário do que muita gente quer fazer crer, sempre houve roqueiro e artista de direita desde os anos 80, por mais idiossincrático, hipócrita e absurdo que isso possa parecer.

Por incrível que pareça, sempre houve músico no Brasil saudosista da ditadura militar e avesso a qualquer política de justiça social. Até aí, é do jogo democrático.

O que é assustador e preocupante é a quantidade maciça de apreciadores de rock que simplesmente relevam qualquer tipo de argumento contra o fascismo e as tendências autoritárias demonstradas por Bolsonaro.

Democracia tem limite? Esse é um paradoxo que intelectuais e cientistas políticos tentam resolver há muito tempo. Até que ponto devemos tolerar as investidas antidemocráticas e autoritárias, mesmo quando se dão dentro do ambiente democrático? Até que ponto a sociedade democrática deve tolerar a existência de forças que trabalham por sua própria eliminação?

O que é incompreensível é gente inteligente, que gosta de rock e que sempre demonstrou respeito pelas pessoas, ter sido abduzida pelo discurso preconceituoso, disseminador de ódio e que prega a violência, a eliminação física de "inimigos" e a totura. É gente que apoia políticas que certamente se voltarão contra elas próprias caso o capitão execrável seja eleito.

Suicídio político e social? Caminharemos para o abismo de modo cordial e cordato? Todos os que gostam de música e que valorizam a cultura aceitarão passivamente a censura e o estabelecimento de uma política padrão cultural baseada na "moral e nos bons costumes", nos ideais pregados pelas "pessoas de bem"?

É isso que esses roqueiros querem? Que suas vidas, seus comportamentos e seus gostos pessoais sejam estabelecidos e ditados por gente avessa à inteligência e que quer impor conceitos pessoais medievais baseados em todo e qualquer lixo religioso?

O que deveria estar em discussão na sociedade é se queremos as trevas do fascismo e se teremos forças para lutar contra o autoritarismo.

Patrulhamento a um discurso neutro de um cantor e querelas editoriais sobre as opiniões de integrantes de um banda punk deveriam ser assuntos marginais diante da gravidade do momento político nacional e que pode jogar, literalmente, a música e o rock em um porão escuro.

Escolher direita ou esquerda, liberalismo econômico ou medidas de cunho mais socializante faz parte do jogo democrático.

No entanto, a partir do momento em que uma das escolhas atenta frontalmente contra a democracia, os direitos humanos e as liberdades individuais, de imprensa, de expressão e opinião, colocando em risco inclusive a integridade física e a existência de pessoas, o comportamento da sociedade livre tem ser outro.

Roqueiro que apoia candidato que ridiculariza os direitos humanos e que faz do preconceito uma arma e uma diretriz de governo não pode ser levado a sério. Não merece respeito.

Não dá para tolerar a intolerância – infelizmente, é necessário ser intolerante com a intolerância.

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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