Combate Rock

Malcolm Young já tinha avisado: o rock clássico está perto do fim

Combate Rock

19/11/2017 07h18

Marcelo Moreira

Bill Wyman não se importou com ninguém quando decidiu sair dos Rolling Stones, no final de 1991. Integrante mais velho do quinteto, avisou com antecedência, na turnê europeia daquele ano, que não seguiria mais com o grupo. Aos 56 anos de idade à época, não conseguia mais olhar na cara dos amigos depois de então 30 anos de carreira ininterrupta. E o pânico de voar em aviões só piorava a convivência.

Ninguém entendeu a decisão, nem os companheiros, que demoraram quase seis meses para fazer o anúncio oficial, na esperança que ele reconsiderasse a decisão – o clipe da música “Highwire”, lançado no final de 1991, já não trazia o baixista.

O recado de Wyman a todos foi explícito, mas poucos se deram ao trabalho de perceber: se B.B. King e John Lee Hooker ficaram nos palcos até os 80 anos de idade, foi porque era “highlanders”, imortais e indestrutíveis. Mas no blues, e não no rock.

Os Rolling Stones ainda estão aí, com 55 anos de carreira, e Wyman, com 81 anos de idade, é quase bisavô e um bem-sucedido dono de restaurante em Londres, tocando rockabilly uma vez por ano com sua banda de amigos

A eternidade do rock passa pela admiração e veneração pelos grandes ídolos do classic rock. Não é por outro motivo que causou comoção a declaração de Eric Clapton, em 2015, dizendo que nunca mais tocará no Japão, um prenúncio de sua aposentadoria, ao menos dos palcos.

Pudera, ele tem 72 anos de idade, sendo que 54 deles nos palcos do mundo. Muita gente ficou horrorizada, mas o guitarrista inglês não economizou nas palavras: “Quando ficar de pé se torna um suplício após 40 minutos, é sinal de que é hora de tomar alguma providência. As 25 anos as providências têm menos impacto do que aos 65 ou 70”, disse em uma nota publicada em seu site pessoal.

Bill Wyman com o baixo que leva a sua assinatura (WALL OF FAME.DE/DIVULGAÇÃO)

Bill Wyman com o baixo que leva a sua assinatura (WALL OF FAME.DE/DIVULGAÇÃO)

Os amantes do rock clássico, que aprenderam a amar o rock por conta dos grandes hits e das biografias muito bem escritas de heróis da música, estão dificuldade para encarar o inevitável: o rock como nós gostávamos e conhecemos está acabando devido à velhice.

Houve um tempo em que o costume era ver os heróis se tornando lendas e mitos por conta de mortes simbólicas. Acostumamo-nos a ver Elvis Presley e Keith Moon morrerem cedo por overdose de remédios; Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix mais cedo ainda, em decorrência dos excessos de bebidas e drogas; Kurt Cobain, por suicídio; Buddy Holly e Eddie Cochrane, vítimas de acidentes; e John Lennon, assassinado.

A morte de Ronnie James Dio, em 2010, foi traumática, já que era um grande ídolo, mas foram poucos os que atentaram para o fato de que ele tinha 67 anos declarados (há quem diga que ele na verdade morreu com mais de 70 anos, pois escondia a idade).

Dio lutou contra um câncer de estômago, sempre teve saúde frágil, mas é fato que a idade pesou também, em especial para um profissional que tinha uma agenda pesada de shows e compromissos, exaustiva até mesmo para bandas de sucesso, mas iniciantes.

O classic rock está morrendo aos poucos, seguindo o curso normal, e estamos propensos a não aceitar isso. Ficamos muito mal acostumados a assistir o Iron Maiden vir ano sim ano ano não ao Brasil, em turnês que rodam o mundo, mas até quando? Quem já parou para pensar que Steve Harris tem quase 61 anos, e o baterista Nicko McBrain tem 65?

Nem todos os nossos ídolos roqueiros são verdadeiros atletas em todos os sentidos, como Mick Jagger, que tem 74 anos de idade pulando nos palcos; ou mesmo um highlander setentão, como Keith Richards, imune até mesmo a uma fratura de crânio ao cair de cabeça no chão de uma altura de quatro metros. E o que dizer de Paul McCartney, que aos 75 anos encarar três horas de show no baixo e no piano.

Richards tem 74 anos, está detonado na aparência, mas debocha da decadência física. Pete Townshend, 72, guitarrista do Who, está surdo há 30 anos e há dez sofre com dores fortes nas costas, que o levaram finalmente a dizer que sua banda para definitivamente em 2018. Seu companheiro, o vocalista Roger Daltrey, 73, bisavô como Jagger, apoia a decisão de sair dos palcos.

É prazeroso e confortável saber que seu ídolo está em plena turnê mundial e que vai passar na sua cidade em breve, divulgando o seu zilionésimo CD. Ele sempre fez parte de nossa vida, nos acostumamos a vê-lo nos jornais toda semana, a comprar seus DVDs e a debater com ele em chats na internet. São inquebráveis e indestrutíveis, até que alguém como Malcolm Young, do AC/DC, sucumbe.

O baixinho Malcolm sempre esteve ali, do lado esquerdo do palco   como um guardião do AC/DC, com as bases precisas, garantindo para que tudo desse certo, paradão e fazendo os backing vocals certeiros.

Nunca imaginamos que o baixinho fumante e outrora bebedor contumaz, ranzinza mas generoso, pudesse um dia acordar com a bateria arriada, seja por conta de um suposto AVC, ou por causa de uma suposta doença degenerativa, que acabou sendo confirmada como demência.

A saída de cena de Malcolm Young, aos 61 anos, chocou o mundo do rock, em especial do rock pesado. Quase acabou com o AC/DC, o que provocou um baque quase tão grande quanto a morte de Dio (esta, ao menos, não foi tão angustiante, já que as notícias de sua piora foram dadas com regularidade).

A doença do chefão do AC/DC pegou todo mundo de surpresa e sinalizou que o sonho está terminando para muita gente. Sua morte, neste sábado (18 de novembro), aos 64 anos, apenas confirmou os piores temores da maioria dos amantes do rock: eles vão, o legado e a saudade ficam, com seus hits eternos, mas a lacuna não será preenchida.

Malcolm Young (FOTO: ACDC.COM/DIVULGAÇÃO)

Malcolm Young (FOTO: ACDC.COM/DIVULGAÇÃO)

É bom lembrar que o trio de ferro do Black Sabbath, que finalmente encerrou a carreira em fevereiro passado, tem 69 anos de diade. Ian Gillan, Roger Glover e Ian Paice, do Deep Purple, passaram dos 70 anos de idade (ok, Paice está quase lá). Até quando a roda vai girar?

Os riscos de manter as expectativas lá em cima são grandes, ao mesmo tempo em que a ficha demora cada vez mais para cair. É muito legal ver o bluesman inglês John Mayall, por exemplo, mostrar vigor e força aos 83 anos de idade, ainda na ativa e detonando nos palcos. Mas e quando os sinais da saúde e da idade ficam claros, mostrando que nada mais é como era antes?

O veterano Johnny Winter que o diga: aos 70 anos, comemorou o aniversário tocando bem sua guitarra texana, mas havia  quatro anos precisava de ajuda para subir ao palco, tocando apenas sentado. Morreu poucos meses depois.

E o que dizer do constrangimento de B.B. King anos atrás? Aos 88 anos, o guitarrista se apresentava no Peabody Opera House, em St. Louis, nos Estados Unidos, quando ouviu algumas reclamações da plateia, de acordo com relato do jornal St Louis Post.

“Por alguns momentos, a plateia estava com ele, rindo das piadas e tudo. Mas já haviam se passado 45 minutos e King não havia tocado nada que sequer lembrasse alguma música. Nesse ponto, seus solos estavam instáveis. Ele explicou que a banda estava sem tocar há dois meses, o que o fez perder confiança”, diz o texto assinado por Daniel Durchholz.

“Toque alguma música”, gritou alguém da plateia. Entre o repertório, B.B. King chegou a fazer uma versão de “You Are My Sunshine” que se arrastou por 15 minutos, enquanto alguns integrantes da plateia deixavam o show. Segundo o jornal, ele ainda tocou “The Thrill Is Gone” para tentar salvar o espetáculo. O guitarrista deixou o palco antes do fim da apresentação.

B.B. King (FOTO: DIVULGAÇÃO)

B.B. King (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Ainda que exigíssemos que os artistas tenham o discernimento de saber parar na hora certa ou mesmo cancelar show por conta de algum problema de saúde, é indecente submeter qualquer artista, lenda ou não, gigante do rock ou não, a um constrangimento desnecessário como esse.

B.B. King ainda se esforçou, por prazer, em nos presentear com o melhor blues que pode ser feito atualmente, e isso é mais do que qualquer um de nós pode exigir, ainda mais em relação a um quase nonagenário. Morreria poucos meses depois em consequência de problema relacionados à velhice.

Axl Rose entrega menos de 30% do que B.B. King fazia com 88 anos no palco, e ninguém parece se importar. Não temos o direito de depreciar o trabalho de King, um homem que acima de tudo respeita o público, enquanto estrelinhas de 20 e poucos anos adoram dar piti, atrasam shows, tocam nada e se retiram em menos de uma hora.

Em nota oficial pouco tempo depois dos shows abaixo da média, B.B. King e seu empresário reconheceram que a noite em questão não foi das melhores e se desculparam pela performance.

“Foi a primeira apresentação do Sr. King depois de um período de quatro semanas de folga – e foi precedida de uma viagem de 24 horas, percorrendo uma distância de 2,50 mil de ônibus para chegar em Saint Louis, de sua casa em Las Vegas. Para complicar ainda mais, Sr. King (que tinha 88 anos à época) sofre de diabetes – e ele acidentalmente não tomou uma dose de sua medicação no dia do show. A combinação do cansaço de uma viagem muito longa e a alta taxa de açúcar no sangue devido ao erro na medicação resultou em uma performance que não condiz com o padrão de excelência usual do Sr. King. Resumindo, foi uma noite ruim para uma das lendas vivas do blues da América – o Sr. King se desculpa e humildemente pede a compreensão de seus fãs.” Elogiável a atitude do músico, e ainda assim são injustificados os protestos da forma como ocorreram.

Hoje fica fácil compreender por que o guitarrista Hélcio Aguirra, do Golpe de Estado, tinha um aguçado senso de urgência. Cada solo era visceral e cada apresentação, bombástica.

Morto aos 56 anos em janeiro de 2014, ele gostava de dizer que desfrutava ao máximo tudo o que o palco oferecia. Se havia uma terra de sonhos, era o palco e a vida na estrada. E a morte de Malcolm Young, do AC/DC, nos lembra que os sonhos sempre terminam de forma inesperada e abrupta. Infelizmente, no mundo do rock, o sonho está terminando para muita gente.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

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