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Tempos desesperados: seremos enganados novamente...

Combate Rock

26/06/2020 16h53

Marcelo Moreira

Uma sociedade controlada, vigiada, confinada e conduzida com mão forte, onde qualquer tipo de manifestação artística é rechaçada e reprimida. Nesta distopia, surge uma centelha de rebeldia, resistência e revolução partindo da arte e da música, usando como veículo de libertação uma banda de rock.

Foi assim que o guitarrista Pete Townshend pensou o futuro há 50 anos, quando começou a rascunhar o que deveria ser a segunda ópera-rock de The Who, depois do estrondoso sucesso de "Tommy", lançado um ano antes.

"Lifehouse" era ambicioso, rebuscado, quase erudito e acabou naufragando diante dos delírios de megalomania do guitarrista compositor.

O que deveria ser a obra maior do rock de seu tempo desmoronou, mas de seus escombros surgiu um LP simples que frequenta as listas de melhores álbuns de todos os tempos, "Who's Next", lançado em 1971.

Não são poucos que, mesmo sem conhecer os bastidores de "Lifehouse", sentem-se como naquela sociedade distópica que Townshend criou, por ,mais que sejam guardadas várias proporções.

A realidade de 50 anos depois é mais feia, mais crua e mais perigosa, tudo isso potencializado por um governo corrupto, destrutivo, incompetente, paranoico, vingativo, preconceituoso, autoritário e violento. Como foi possível cairmos nesta armadilha?

'Lifehouse' não virou disco, mas originou um livro de histórias em quadrinhos (capa acima) e um monumental especial de rádio na BBC, transformado depois em uma caixa de 6 CDs (FOTO: REPRODUÇÃO)

A pandemia de covid-19 relembrou a sociedade moderna de que há limites, e de que há limites para se esgarçar os limites. Forçou uma nova vida e forçará a reorganização de um estilo de vida baseado no lucro, na aquisição, na acumulação e na extrema competição. O aquecimento global e a devastação de florestas, sobretudo no Brasil, indicaram e indicam que o planeta não aguenta.

Nesta reorganização, está claro que não haverá lugar para todos. A precarização do emprego deu a dica a partir de 2005: muita gente ficará de fora da mesa e não conseguirá sequer migalhas das sobras do pouco que será dividido.

A ilusão do pleno emprego dos tempos do governo Luiz Inácio Lula da Silva se dissolveu rapidamente diante da conjuntura internacional desfavorável (crise de 2008) e da polícia econômica incompetente de sua sucessora, Dilma Rousseff.

O país começou a derreter e afundou de vez com o impeachment de Dilma e ascensão do golpista Michel Temer. O desemprego explodiu ao mesmo tempo em que governos corruptos e comprometidos com um empresariado covarde depredou direitos civis e trabalhistas, assumindo de vez a política de precarização de direitos trabalhistas.

Em um movimento semelhante ao que vemos nos Estados Unidos, o número de desempregados agora são contados aos milhões, quase que totalmente desamparados disputado as migalhas de um auxílio emergencial ridículo – e ainda assim outros milhões ficaram excluídos dessa esmola governamental do lamentável governo Jair Bolsonaro.

Não poderia ser diferente: a área de entretenimento, eternamente considerada "supérflua", foi a primeira a ser abalroada pela crise e cortada da lista de "necessidades" da sociedade.

E, como sempre em caso de crises graves mundo afora, a área do entretenimento será a última a ensaiar qualquer tipo de reação ou receber atenção em todos os níveis, por mais que tenha ficado mais do que explícito que arte e cultura são essenciais e fundamentais na vida das pessoas, principalmente em tempos de confinamento.

Os otimistas creem que a vida sofrerá tamanha modificação após a pandemia que o entretenimento de cunho cultural, como shows, cinema e teatro, além de museus, será de ta forma valorizado que ganhará o status de essencial, como disse recentemente o cantor Thiago Bianchi, da banda Noturnall, em entrevista ao Combate Rock.

Os pessimistas deste setor não sonham com nada de positivo antes de julho de 2021, como preveem alguns especialistas. É neste mês, avaliam, que somente será possível a retomada, de maneira lenta, do mercado de entretenimento, com o público voltando aos shows e estádios de futebol. Até lá viveremos de quê? Lives e reprises de jogos de todos os tipos ocorridos há milênios?

Roça'n'Roll, em Minas Gerais: será que corremos o risco de perceber que os shows e eventos culturais não fazem tanta falta assim? Músicos e especialistas contestam, com razão: arte e cultura são essenciais, ainda mais em tempos de crise mundial e pandemia (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Os realistas estão mais preocupados com as contas há três meses atrasadas. É gente como os músicos que tentam vender instrumentos musicais para encarar o próximos 30 dias, ou o garoto que perdeu o emprego, assim como a mulher, e que leiloa a camisa histórica do Palmeiras com assinaturas de vários jogadores.

São aqueles que rezam para que os bares e restaurantes preferidos não fechem, não só para não engrossar as estatísticas do desemprego, mas principalmente para que esses locais reabram e recontratem músicos.

São aqueles que se desdobram para pedir contribuições nas lives, cada vez mais numerosas e concorrentes a um bolo bem pequeno e que tentam amenizar as circunstâncias de penúria em que muitos mergulharam – é enervante ver o post da cantora Angela Ro Ro pedir contribuições de R$ 10 para sobreviver.

Nestes tempos desesperados, são os realistas que estão buscando soluções além das lives para que a cultura e às artes, sobretudo na música, consiga chegar ao menos até o final do ano em meio a projeções devastadoras de perdas – R$ 34 bilhões de prejuízo com a pandemia, envolvendo entretenimento, gastronomia e turismo, significando algo entre 2 milhões a 4 milhões de empregos a menos, de acordo com estimativas das associações de empresas dos setores.

Desde maio eventos online aos montes povoam as redes sociais com debates e simpósios que procuram identificar caminhos durante a crise para resgatar o entretenimento das profundezas. São eventos importantes e necessários, com informações preciosas e dicas interessantes.

As cabeças estão trabalhando e pensando, mas as soluções teimam em não aparecer. Estamos longe de poder recomendar atividades e eventos que comecem a render algum tipo de remuneração para a longa cadeia de produção no entretenimento. Se o artista não fatura, o que dirá então quem está na infraestrutura, como produtores e trabalhadores de palco, por exemplo?

Com a falta de ajuda do Estado para a área de cultura e entretenimento – evidenciando o desinteresse (às vezes deliberado) do poder público federal e estadual -, não há perspectivas no horizonte.

Micro e pequenas empresas, de todos os tipos e áreas, são solenemente ignoradas e rejeitadas nos supostos programas oficiais de concessão de crédito emergencial.

Mesmo com mais dinheiro para os bancos emprestarem, estes contrariam as determinações do governo desnorteado e recusam empréstimos pra quem precisa. A quem recorrer neste caos administrativo e econômico?

Estimativas mais conservadoras dão conta de que 25% dos bares e restaurantes já fecharam na cidade do Rio de Janeiro; em São Paulo, esse número deve chegar a 20% no final de junho.

Na capital paulista, de acordo com sindicatos de bares e restaurantes e dos trabalhadores do setor, somente 15% dos micro e pequenos empresários do setor conseguiu algum tipo de crédito durante a pandemia. Na área de entretenimento e produção de eventos, o percentual é inferior a 5%.

A crise crônica da economia brasileira descortinou o abismo, e a pandemia empurrou todo mundo para o fundo. O poder público se recusa de forma sádica a não ajudar no resgate, condenando todo um setor econômico à penúria e quase à extinção – uma crise sanitária que veio a calhar para um governo autoritário em guerra contra o conhecimento e às liberdades civis.

Pete Townshend em um cubículo de seu estúdio pessoal na época da composição de 'Lifehouse' (FOTO: REPRODUÇÃO)

A distopia sanitária confinou por algum tempo a população e devastou setores econômicos – e, em breve, vai devastar uma parcela ainda maior dessa mesma população irresponsável e inconsequente, em vários países, que descumpre as regras de isolamento e distanciamento social (serão mais alguns milhares de mortes que não deverão ser lamentadas).

O mundo lúgubre, sombrio e destroçado imaginado por Pete Townshend, infelizmente, não será salvo pela música e pelo rock. Lamentavelmente, não haverá The Who, como em "Lifehouse", para nos liderar, por meio da música, na revolução social, política e de costumes em direção a uma vida menos ordinária, confusa, injusta e desigual.

A música que fecha "Who's Next" e que deveria encerrar a ópera-rock "Lifehouse", a maravilhosa "Won't Get Fooled Again", é um primor de sarcasmo e desilusão, mas pregava que não seríamos enganados novamente, por mais que haja a troca do "chefe", mas sempre pelo "mesmo chefe".

Aqui Townshend errou feio: está claro que continuaremos sendo enganados novamente, continuamente.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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