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'In Rock', a reinvenção do Deep Purple, completa 50 anos

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09/06/2020 06h21

Marcelo Moreira

Pode uma banda verdadeiramente começar a sua carreira somente no quinto disco? Há fãs e críticos – além dos próprios músicos – que dizem sim para essa questão, como ocorreu com o Pantera (seus quatro primeiros discos eram de um hard rock farofa antes d virar a potência do metal com a chegada de Phil Anselmo nos vocais).

Em outra medida, não tão rigorosa, ocorre algo semelhante com o Deep Purple. Formado em 1967 por três músicos habituados a tocar na Alemanha naqueles tempos, o quinteto engatinhou um começo pelo rock psicodélico e namorou o rock progressivo tendo como mola propulsora o teclado de Jon Lord.

Três discos de pouca repercussão mostraram que o caminho deveria ser outro, ainda que a banda cedesse aos caprichos eruditos de Lord ao gravar um LP com orquestra em 1969 antes da virada. E então veio o basta, o golpe de estado do guitarrista Ritchie Blackmore e o surgimento de um monstro do rock pesado em 1970.

"In Rock" é considerado o renascimento da banda, renovada com novos integrantes – saíram os competentes, mas limitados, Rod Evans (vocais) e Nick Simper (baixo) para as chegadas dos estupendos Ian Gillan (vocais) e Roger Glover (baixo), que eram da banda Episode Six.

Diante da explosão do Led Zeppelin, do voo alto do Who e da rápida ascensão do Black Sabbath, Blackmore tomou as rédeas e redirecionou o Deep Purple para o hard rock, com as guitarras proeminentes e os vocais fora de série de Gillan empurrando a locomotiva.

Quente, vibrante, urgente e passional, "In Rock" injetou sangue novo no rock inglês. Revitalizou a batida agitada e frenética do rock setentista e acrescentou uma camada extra de força melódica, blues encharcado de feeling e guitarra monstruosa, com solos incendiários e riffs matadores.

É daqueles álbuns que mais parecem coletâneas, sem músicas ruins ou abaixo da média. É conciso, curto e destruidor, com uma abertura que mostra as cartas e a faca nos dentes com "Speed King".

"Bloodsucker" é um rockão robusto, com riffs inspirados e um Ian Gillan mostrando rapidamente que era um interprete surpreendente, algo que ficaria comprovado logo em seguida na balada blues de inspiração progressiva "Child in Time", um dos momentos mais sublimes do rock.

No lado B do vinil, a banda mostra liberdade e versatilidade para passear por temas que enveredam por blues, jazz e rock pesado.

Há algum eco de Led Zeppelin na pesada e intensa "Into the Fire", enquanto "Flight of the Rat" e "Living Wreck" exalam virtuosismo e melodias cativantes que misturam blues e jazz. O peso e o groove retornam na interessante "Hard Lovin' Man".

A mão firme de Blackmore guiou o Deep Purple para a consolidação da nova fase no ótimo "Fireball", álbum de 1971, para culminar na obra-prima "Machine Head", de 1972, o auge da chamada Mark II, a segunda formação.

Um avanço tão rápido e intenso cobrou o seu preço muito mais cedo que se poderia imaginar. Ian Gillan nunca aceitou a tutela e a "chefia" de Blackmore e os choques de egos foram inevitáveis.

"Who Do We Think We Are", de 1973, puxado pela boa "Woman From Tokyo", não teve a mesma aceitação que "Machine Head" e selou o fim daquela formação.

A desilusão de Gillan foi tanta com os quatro anos de sucesso e loucura roqueira que ele pediu demissão e ficou fora da música por quase quatro anos – tentou construir e vender barcos e, em seguida, ser dono de hotel, mas voltou a cantar, em carreira solo, a partir de 1977.

Sem o cantor, Blackmore decidiu que mais mudanças eram necessárias e forçou a saída de Roger Glover, algo que mais tarde se arrependeria.

Os novos integrantes chegaram no começo de 1974 – David Coverdale (vocais) e Glenn Hughes (vocais e baixo) – com muito gás e pouca disposição para seguir o comando marcial de Blackmore.

"Burn" foi um sucesso gigantesco e de qualidade semelhante a "Machine Head". Era mais blues, mais soul e um pouco mais pop, tudo temperado pela guitarra pesada, suingada e grooveada de Ritchie Blackmore.

Era uma mudança necessária e ambicionada por Blackmore, que mal sabia que estaria perdendo definitivamente as rédeas e o poder diante do excesso de vontade dos novos integrantes e da omissão e pouco interesse dos companheiros Jon Lord e Ian Paice (bateria).

"Stormbringer", também de 1974, não tinha o impacto de "Burn", era menos pesado, mas era recheado de boas canções. Isso não foi o suficiente para satisfazer o exigente Blackmore, que não conseguia oferecer alternativas ao blues grooveado e à soul music que tanto encantavam Coverdale e Hughes, este mergulhado em todos os excessos do rock e da fama.

Blackmore abandonou o grupo que criou no começo de 1975 e a banda perdeu o rumo. Coverdale assumiu e convenceu os companheiros que a solução pra a guitarra era o americano Tommy Bolin, ex-Zephyr e James Gang.

Era o guitarrista certo na hora errada. Um pouco arrogante e autossuficiente, fez várias exigências para tocar na banda, foi atendido e trouxe um jeito de tocar insinuante e virtuoso, mas sem o peso característico do Deep Purple.

O pacote incluía ainda um gosto ainda maior pelos excessos em drogas e bebidas que os demonstrado por Hughes. O grupo durou um ano depois, após um show em Liverpool, na Inglaterra, após lançar um álbum mítico, "Come Taste the Band", e uma turnê errática e instável, com alguns shows bons e outros beirando o desastre.

Tudo isso só foi possível com a decisão de mudar tudo seis anos antes, com "In Rock" e seu mergulho no rock pesado e com um novo chefe na praça. Esse álbum não é o melhor do Deep Purple, mas é o mais importante da carreira de mais de 50 anos do grupo.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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