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Nick Moss revitaliza o blues tradicional com sotaque brasileiro - parte 2

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06/06/2020 12h00

EM – "High Cost To Low Living" e "Lucky Guy" são dois trabalhos poderosos em parceria com Dennis Gruenling. Gostaria que falasse sobre esses dois trabalhos.
NM – Sim, um grande ponto de virada na minha carreira. Minha escalada à popularidade é diretamente atribuída a esses dois trabalhos. Principalmente porque tive uma exposição e distribuição muito boa, por passar a integrar a Alligator Records, uma das mais antigas gravadoras, estritamente de blues e com uma das maiores reputações do mercado no mundo inteiro. O fato de ter o nome Alligator Records associado a você passa muita credibilidade. De fato, foi um marco ter assinado com eles depois de muitos anos lançando meus discos pela minha própria gravadora. Nossa banda foi relativamente bem sucedida com a nossa própria gravadora, mas nada comparado com as conquistas que tive fazendo parte da Alligator Records nesses últimos três anos. "High Cost of Low Living" teve um processo de criação muito legal e nosso recente CD, o "Lucky Guy!", obviamente superou todas as expectativas. Acabamos de ganhar o Blues Music Awards em três categorias, melhor álbum tradicional do ano; melhor  banda do ano; melhor música tradicional do ano, Lucky Guy. Atribuo todo esse sucesso não apenas por estar na Alligator Records, mas também ao momento em que Dennis Gruenling se juntou à banda. Foi um grande negócio. Michael (Leadbetter) fez parte da minha banda por quase sete anos e foi incrível, fizemos várias coisas incríveis, vários estilos diferentes de música e quando ele se foi eu não tinha muita certeza do que iria fzer. Se iria voltar ao Blues tradicional, que tinha feito antes de Michael ou se iria continuar num estilo mais moderno.
EM – Período bem complicado.
NM –Estava preocupado em ter que resolver essa questão e  aconteceu por acaso. Naquele momento Dennis  me ligou e disse: "Ei cara, recebi uma oferta de um show no Centro-Oeste, perto de você, e preciso de uma banda, você gostaria de ser minha banda de apoio?". Era um concerto beneficente e ele ia fazer uma homenagem a William Clark. Fazia algum tempo desde a ultima vez que havia apoiado um gaitista durante todo um show, mas eu amo esse estilo, o swing, o blues tradicional de Chicago. É onde meu coração sempre esteve. Então, imediatamente disse que sim. E quando finalmente começamos a fazer o show percebi o quanto sentia falta de tocar esse estilo de música e me lembro que durante o intervalo disse para Dennis que ele não estava mais tocando com o Doug Deming e se estaria  interessado em fazer algo comigo. E ele respondeu que amava o som da minha banda e que poderia fazer parte dela. Eu disse ok, vamos ver se funciona. Fizemos a próxima turnê juntos. Mike ainda estava na banda, mas o Dennis se juntou a nós. Foi muito legal e divertido, a turnê com Dennis. Mike deixou a banda no mês seguinte, em janeiro e a transição foi fácil. Estávamos na verdade no Blues Cruise quando Mike fez seu último show conosco e o Dennis também estava no cruzeiro. Foi uma amostra de como a banda soaria sem Mike. Aliás, muitas pessoas vieram me dizer que sentiam falta de me ver tocando blues tradicional. Então foi bom voltar a isso e foi bom ver os fãs se lembrarem da minha trajetória tocando blues tradicional antes do Mike estar na banda. Dennis fazendo parte da banda, você sabe, seu entusiasmo, seu conhecimento na música, ele é um dos melhores do mundo e isso é incontestável. Ele têm uma presença de palco incontestável. É uma dessas pessoas que fazem o público querer olhar para o palco. Eu nunca fui uma dessas pessoas, nunca fui um tipo excêntrico e às vezes você precisa desse tipo de pessoa para fazer um contraste no palco. Acho que o Dennis contrasta comigo no palco, pois sou mais reservado. Escuto muitas pessoas falarem que gostam desse contraponto, essa harmonização e equilíbrio no palco. Não somente na parte musical, mas na parte cômica e esse complemento das personalidades juntas, isso é ótimo.
EM – Otis Rush, James Cotton, Magic Slim, Lonnie Brooks já se foram. Buddy Guy está com 85 anos. Como vê a cena de Chicago hoje?
NM – É verdade, todos os dias  perdemos nosso passado. Mas o futuro é inevitável e sempre vai se desenvolver.  Há muitos músicos na cena do Blues de Chicago que continuarão a levá-lo à próxima fase. Vai existir novamente a mesma qualidade dessa "realeza" dos bluseiros que temos aqui em Chicago, como Buddy Guy? Não sei. Acho que no país há outras pessoas que podem usar esse manto, assumir esse papel. Mas enquanto o Blues de Chicago estiver por aí eu certamente farei minha parte. Há caras da cidade que estão fazendo o que podem, Mike Wheeler é um dos caras que gosto, um pouco mais moderno, mas acho que ele é um cara que pode ganhar mais impulso e notoriedade com os fãs pois ele  não agrada somente o público que gosta de blues tradicional. Há muitos caras por aí, gosto do Omar Coleman e ele ainda é jovem suficiente para ser influente fazendo música pelos próximos 15 ou 20 anos. É um grande gaitista e cantor. Temos o  Corey Dennison, Gerry Hundt, esses caras estão fazendo o som deles. Existe uma banda jovem nos arredores de Chicago chamada The Kilborn Alley Blues Band, com quem eu tenho uma associação há algum tempo, que é jovem o suficiente para fazer bastante coisa. Andy Duncanson é o vocalista dessa banda. Acho que existem muitos músicos fora de Chicago também. E na verdade eu tenho ajudado lentamente a mostrar alguns jovens talentos do blues em todo o país e sinto que o futuro do blues está em boas mãos se esses esses caras continuarem. Mas nunca mais vai haver outro Buddy Guy,  BB King ou outro Son House. Sempre haverá alguém que terá identidade própria e levará as coisas para a próxima grande etapa. E essa é a única coisa que podemos fazer. Olhar para frente e  que as pessoas consigam ser elas mesmas e levar o blues para outro patamar, trazendo mais visibilidade e notoriedade para esse estilo musical.
EM – Como você conheceu o Rodrigo Mantovani e como surgiu o convite pra tocar na tua banda?
NM – Conheci o Rodrigo em uma banheira Turca e ele estava tentando tirar minha toalha. Então falei calma lá grande rapaz, deixe eu me apresentar primeiro! (risos) Não, sério agora, conheci o jovem Rodrigo em um festival na Espanha, onde tocamos e estava muito, mas muito calor. Me lembro de estar lá com minha banda e nossos amigos, RJ Mischo e Kirk Fletcher e, tanto eu quanto eles, já tínhamos ouvido falar e conhecíamos a música da Igor Prado Band. Nós tínhamos um amigo em comum chamado Lynwood Slim, que havia falado desses caras. Então estávamos tocando naquele festival. Fiquei muito impressionado com a interpretação deles do blues tradicional, do blues de Chicago, do jump blues. Ver esses caras do Brasil tocando essas coisas e de maneira tão autêntica. Me lembro de ter ficado impressionado com Igor e sua habilidade na guitarra e vocais, mas fiquei igualmente impressionado, se não mais impressionado ainda, com a seção rítmica, porque como disse anteriormente, comecei como baixista e sempre noto a seção rítmica das bandas, e ter um guitarrista muito bom não importa se a seção rítmica da banda não for boa. Na verdade acaba não significando nada ser um guitarrista bom sem uma seção rítmica boa. Me lembro do baterista Yuri e desse baixista de cabelo cumprido chamado Rodrigo sendo apresentados a mim. Esses caras chegaram lá e arrebentaram!

Além do prêmio no BMA 2020, com a Nick Moss Band, rodrigo Mantovani está na capa da revista Blues Blast de maio, uma das mais prestigiosas publicações do instrumento nos Estados Unidos. O link com a entrevista, em inglês, pode ser acessado abaixo

EM – A banda realmente era ótima!
NM – Foi muito legal e me lembro que no final do festival fizemos uma espécie de bis  no nosso show e chamamos esses caras no palco para tocar com a gente e colocamos nossos instrumentos neles e eles tocaram e me lembro de ficar de pé ao lado do palco olhando-os tocar e em um momento eu falei para o meu baixista na época, o Gerry Hundt: "É melhor esses caras ficarem de vez com os nossos instrumentos porque eles tocam melhor que a gente". (risos) Foi uma noite muito legal e divertida e havia muito respeito e admiração mútua entre nós. Em seguida tentamos manter o contato. Não era fácil naquela época porque as mídias sociais não eram tão fortes e, ocasionalmente,  ouvíamos falar um do outro  ou víamos que eles  tinham tocado em um festival que iríamos tocar. Me lembro de estar na casa do Lynwood Slim algumas vezes e ele estar falando com o Rodrigo no Skype e eu dar um alô e falar: "Ei como você está Rodrigo?", coisas do tipo. Em seguida fiquei sabendo que o Rodrigo trouxe o Lynwood Slim para visitar Chicago por conta do Chicago Blues Festival. O Slim havia saído do hospital, e o Rodrigo decidiu vir com ele para assistir o Chicago Blues Festival e assim fazer alguns shows uma vez que o Slim estava bem de saúde novamente. Eles ficaram na minha casa e fizemos alguns shows juntos e mais uma vez fiquei chocado com o Rodrigo tocando baixo. Na época eu tinha um baixista jovem e o fiz sentar e assistir ao Rodrigo e falei para ele: "Você está vendo esse jovem do Brasil?  É assim que se deve tocar e essa é a maneira de soar. Você têm que aprender com ele".
EM – Então mantiveram contato?
NM – Os encontros foram acontecendo, começamos a acompanhar um ao outro nas mídias sociais, enviando curtas mensagens. Seguíamos algumas postagens mútuas. Foi quando ouvi dizer que Rodrigo, Igor e Yuri tinham terminado a banda e isso aconteceu na mesma época em que eu estava procurando por outro baixista.
Nós tínhamos acabado de chegar de uma turnê na Europa e meu baixista me disse que não queria mais investir tempo na banda porque estava com muitos problemas pessoais. Vi o Rodrigo postando algo no Facebook e mandei uma mensagem para ele por estar frustrado e de certa maneira desesperado pensando em quem chamar para tocar baixo. E aconteceu como uma brincadeira que mandei a mensagem: "E aí cara, você quer se mudar para Chicago, para tocar baixo na minha banda?". Para minha surpresa, ele espondeu imediatamente: "Sim, quando?". Perguntei se ele estava falando sério, e ele me de perguntou se eu estava falando sério. O resto é história. Desde então começamos a pensar como faríamos para isso acontecer e não me arrependo de nada**
EM – "From the Roots To The Fruit", como o nome diz, é um disco com muitos estilos. Mas todos eles permeados pelo blues. Gostaria que comentasse o conceito desse trabalho, um grande álbum.
NM – Estou muito lisonjeado e honrado por você ter gostado muito deste disco. Foi muito legal tê-lo gravado. O conceito é exatamente esse que você imagina: o blues é a raiz e todo o resto são seus frutos. Isso significa que a maioria das músicas modernas vieram diretamente do blues e queríamos mostrar isso. E também mostrar o fato de que no último ano que o Mike ficaria na banda – aliás meu baterista estava comigo há quase nove anos naquela época – aquela formação estava aprendendo a tocar o blues de uma maneira melhor. Tocávamos muito blues tradicional misturado com coisas contemporâneas e queríamos mostrar às pessoas que uma banda não precisa ter apenas um estilo. Se a banda for bem educada, preparada e bem-intencionada. Tentamos mostrar a correlação entre o blues da velha guarda e a música moderna das bandas de blues-rock e soul jam, e acho que fomos bem-sucedidos nisso. Dessa forma, a maioria das músicas eram originais e foi muito divertido fazer esse disco. Foi um empreendimento ambicioso, mas conseguimos realizar. Tem 27 músicas nesse disco.
EM – Outra coisa que gostaria que você falasse é que, apesar de ser um músico de Chicago, você tem uma forte influência do west coast, não é verdade?
NM – Sim, tenho muito respeito pelo blues da costa oeste, pelos músicos modernos de blues. E a razão disso é que quando estava no começo dos meus 20 anos não haviam muitas bandas de jovens brancos tocando o blues tradicional de Chicago. Nessa época eu comecei a ouvir Fabulous Thunderbirds, Little Charlie & The Nightcats, William Clarke, Rod Piazza e, não foi o fato deles tocarem swing que me chamou a atenção, mas sim as versões dos clássicos do blues de Chicago. Eu me questionava por que não haviam mais bandas tocando aquele velho estilo de Chicago, especialmente caras da minha idade. Realmente parecia que naquela época eram mais músicos da Costa Oeste fazendo essa música, e essa foi uma das razões pelas quais comecei a trazer de volta esse blues aqui para Chicago. Queria ser o cara em Chicago que pudesse trazer de volta o "tradicional Chicago Blues". Adoro o swing, o velho som do BB King, o Little Walter na sua fase mais jump blues, amo o T- Bone Walker e o Pee Wee Crayton. E haviam tantas músicas lançadas como R&B e jump feitas em Chicago por artistas como Willie Mabon e até mesmo Muddy Waters, coisas do Howling Wolf sendo lançados nesse estilo também pela Sun Records, enfim… amo todos esses estilos. O que realmente me chamou atenção foi o fato de ter muitos músicos da minha idade na Costa Oeste fazendo esse tipo de música. Eu podia ver ao vivo esse Blues tradicional de Chicago sendo tocado mais por lá do que até mesmo por aqui em Chicago. Músicas do Muddy Waters e Little Walter. Nós simplesmente não tínhamos mais essa cena por aqui. Era mais acessível ver o Rod Piazza e William Clarke quando eles vinham para tocar aqui e eles tinham muito respeito por essa música de Chicago.
EM – Você sabe que o Brasil tem uma cena de blues com muitas bandas? Faz planos para vir pra cá. Rodrigo poderia facilitar isso. 
NM – Não tenho planos atualmente de visitar o Brasil e atualmente nem de sair da minha própria casa devido a essa pandemia. Adoraria visitar o Brasil um dia. É um país muito bonito que eu sempre quis visitar, até mesmo antes de ser músico. Um país lindo com pessoas lindas, com uma comida incrível e uma cultura incrível. Agora que tenho meu amigo Rodrigo, talvez algum dia isso possa ajudar a abrir algumas portas. Talvez esta entrevista possa ajudar a abrir algumas portas aí no Brasil, e talvez um dia, quando todos estivermos protegidos contra vírus que nos mantêm trancados em nossas casas acabar, eu possa vir a visitar esse lindo país e tocar para essas pessoas lindas.
*Essa matéria foi escrita em 01 de junho de 2020
** Em nota,  Rodrigo Mantovani diz que também não, e isso virou piada entre ambos.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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