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Caseiro e despretensioso, 'McCartney' implodiu os Beatles há 50 anos

Combate Rock

28/04/2020 06h16

Marcelo Moreira

Capa e contracapa de 'McCartney', primeiro álbum solo lançado ainda em 1970, imediatamente após o anúncio do fim dos Beatles; Paul aparece na contracapa com a filha Mary, recém-nascida

Parecia premonição. Paul McCartney comprara uma propriedade rural semidestruída no extremo oeste da Escócia para descansar e se isolar do mundo, em tentativa de recarregar as baterias daquele difícil período profissional.

Os Beatles estavam esfarelando, John Lennon estava cada vez mais distante e arisco e a namorada do amigo, a japonesa Yoko Ono, se metia em tudo. Queria descansar, mas aí o boato de que teria morrido em 1966 surgiu e ele teve de atender a vários jornalistas que foram até o fim do mundo para conferir a sua saúde.

Foi ali, na península de Kintyre, que ele montou um estúdio caseiro, meio tosco, com alguns instrumentos de qualidade não muito boa, para gravar demos e passar o tempo. E foi ali que ele gravou o seu primeiro álbum solo e decidiu implodir os Beatles.

Ninguém lutara mais do que ele pela existência da banda desde a morte do empresário Brian Epstein, em 1967. Sabia que John odiava o fato de ter assumido a liderança e o controle, mas poderia ter sido diferente.

"McCartney", o primeiro solo, lançado em 10 de abril de 1970, é doce, melancólico e amargo. Paul não ficou feliz em decretar o fim da banda, ma s não via alternativa. Sabia que traía os então ex-amigos ao romper o acordo de não tornar público o rompimento, decretado por Lennon em setembro do ano anterior, mas achava que tinha direito de explodir tudo.

Parecia que as coisas melhorariam com as sessões de gravação de "Abbey Road". A paz reinou e não houve brigas. O disco saiu em setembro de 1969 e foi um sucesso.

A primeira reunião dos quatro e empresários após o lançamento já planejava o futuro, talvez com apresentações ao vivo. Na segunda, entretanto, no final daquele mês, tudo desandou e John, com Yoko do lado, anunciou furiosamente que estava saindo da banda e saiu da sala. Não veria os amigos por muito tempo.

Por telefone, o empresário Allen Klein convenceu, a muito custo, o beatle que saía a não revelar a novidade ao mundo para não prejudicar os futuros lançamentos da banda – o disco a coletânea "Hey Jude" e o disco "Let It Be". John cumpriu à risca o acordo e ficou quieto por meses e ficou sabendo pela imprensa, em 10 de abril de 1970, dia do lançamento de "McCartney", que Paul deixara a banda e que praticamente decretava o fim dela. Nunca perdoou o seu ex-companheiro.

"McCartney" era o grito de socorro e liberdade do beatle que ainda enxergava futuro na maior banda de todas, mesmo sabendo que tudo desmoronava. Ele gritava pelo amor da esposa, Linda McCartney, das filhas que iam nascendo e do melhor amigo que agora era ex-amigo.

Estava amargo, mas nunca deixou o otimismo de lado. "Maybe I'm Amazed" é o grande hit e a maior pérola, uma declaração de amor exasperada e sentimental, que quase ombreou "Layla", de Eric Clapton e do mesmo ano – diferença era que Paul estava realizado ao lado da mulher que amava, enquanto o guitarrista se desesperava porque amava a mulher do melhor amigo – Patti, esposa de George Harrison.

Para a comemoração dos 50 anos de "McCartney", a musica ganhou um clipe bacana e bem sacado, reforçando a sua importância para p ex-beatle.

"Every Night" é a balada soft rock que seria a cara da carreira solo de Paul nos primeiros anos, com sua veia pop carregada de boas ideias e um refrão bem construído.

Gravando todos os instrumentos, é um álbum simples e enxuto, onde o músico reaproveitou ideias antigas e repaginou outras canções, como "Teddy Boy", "Junk", "That Would Be Something" e "That Lovely Linda".

Podemos dizer que é um disco necessário, mas longe de ser memorável. Na verdade, nem era para ser, a julgar pela forma como foi gravado e produzido. Deveria ter tido um tratamento melhor, já que era o primeiro trabalho solo de McCartney, mas esse jamais fora o objetivo.

Ele queria expiar demônios e provar a ele mesmo que haveria vida após os Beatles e que tinha condições de caminhar sozinho. O objetivo foi atingido.

A soma dos quatro era muito maio do que as pessoas imaginavam, e as carreiras solo de todos, desde então, evidenciou isso de forma escancarada. Paul insiste que não, e seu direito, e costuma exemplificar a carreira de sua banda, Wings, como prova de que seguir em frente e escantear a sobra dos Beatles era mais do que necessária.

Ok, é um ponto de vista, mas seu primeiro solo não demonstra tal coisa. Importante, necessário e denso/tenso, "McCartney" acabou com os Beatles, interrompeu o sonho e jogou o rock em uma nova realidade, assim como várias obras daquele biênio 1969-1970. Não é pouca coisa para um álbum caseiro e despretensioso.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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