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Um dia de Beatles no cotidiano da batalha contra o coronavírus

Combate Rock

26/04/2020 06h25

Marcelo Moreira

Eram deuses os astronautas? O pensamento esdrúxulo não saía da mente da moça de 20 anos mascarada que assistia aos homens cavando a cova em um cemitério da zona sul de São Paulo. estavam todos com macacões brancos inteiriços, parecendo que embarcariam para Marte.

Ela procurava desesperadamente a música escolhida no celular do pai, que logo habitaria um daqueles buracos. Enquanto o corpo não chegava, ela continuava a pensar os astronautas e no livro de Erich von Daniken, que elencava hipóteses de visitas extraterrestres para explicar vários fenômenos.

Lera o livro meses antes e não o tirava da cabeça, assim como não conseguia desviar o olhar dos "astronautas" cavando na cova ao lado, debaixo de um sol matinal mais quente do que deveria.

A música estava no ponto quando o corpo do pai chegou. O auxiliar jurídico de 43 anos era mais uma vítima do inclemente vírus, que teve sua vida facilitada pelo longo histórico de problemas cardíacos do doente.

De olhar suplicante nos últimos dias, ele parecia adivinhar o seu destino quando olhos para a filha nas últimas vezes. Faltava-lhe ar, falava com dificuldade, tentava ser otimista, mas sentia que seu destino estava traçado.

A filha, uma morena esguia de 1,70 m, bonita e serena, também sentiu o que o semblante austero e tristonho do pai lhe transmitiu nas duas últimas vezes em que estiveram juntos, na batalha por um leito hospitalar.

Resignada, restou-lhe procurar a música que o pai amava no celular dele. Era um fanático pelos Beatles, sabia tocar um monte delas no violão, mesmo que aos pedaços. Foram os Beatles que melhoraram o seu claudicante inglês e afirmou que poderia morrer em paz após um show de Paul McCartney em São Paulo.

Outros astronautas chegaram e lhe disseram que tudo teria de ser muito rápido – oração, discurso, caixão baixado e enterro. Só ela, uma tia e duas vizinhas presenciaram o sepultamento – a irmã mais velha, casada, morava no Mato Grosso do Sul e não chegaria a tempo.

Os astronautas pareciam cansados. Nem se deram ao trabalho de responder a duas perguntas da moça. Agiam meio que mecanicamente. Eram autômatos que faziam tudo de forma metódica e rápida. Provavelmente nem pararam para saber o que acontecia quando "I'll Be Back" começou no celular do falecido.

A sensível música dos Beatles, a última das 13 canções do LP "A Hard Day's Night", de 1964, era a favorita do pai. Mesmo sem muita convicção, gostava de brincar com as filhas que era a música que queria como trilha sonora de seu velório – que não houve.

A letra singela em que o protagonista prometia voltar de qualquer maneira era para ele mais do que um chamado – era uma maneira de manter viva a chama da esperança para o ouvinte, ainda que somente na mente e nos sonhos.

A moça estava apreensiva. Talvez o funeral e o enterro não durasse mais do que os pouco mais de três minutos da canção. Foi por pouco. Constrangidos, os astronautas deixaram a moça e a outras pessoas sozinhas por alguns minutos.

Sem que alguém percebesse, outra canção antiga dos Beatles começou a esgoelar do celular. "If I Fell" é outra música sentimental e com teor romântico, mas tão melancólica quanto a anterior.

O mundo parecia ter parado e ninguém se moveu. Apenas os astronautas da cova ao lado mostravam que não podiam perder um minuto sequer. E a moça, estudante de publicidade à noite e balconista de shopping popular no dia, começava a perceber que, realmente, nunca mais cantaria uma música dos Beatles ao lado do melhor amigo.

"Não deu nem para colocar o lenço com a imagem dos Beatles junto do corpo", disse a futura publicitária de modo resignado. O souvenir tinha sido adquirido fora do Allianz Parque, antes do show de Paul.

A moça caminhou demoradamente até chegar ao ponto de ônibus para voltar para casa. Ela se comovia com a humanização das vítimas nos jornais e nas TVs. Chorava com as histórias tristes e se emocionava e vibrava com os relatos de quem tinha vencido a doença. Confinada em casa, só lhe restava rezar pela recuperação do pai, o melhor amigo, e conversar diariamente com o padre e sua paróquia, o intelectual que lhe despertou a vocação para a criação e a comunicação.

Duas noites antes, ela sonhou que o pai estava sendo aplaudido fora do hospital e que era entrevistado via tela de celular por uma apresentadora famosa de TV. Em seguida, corria para o campinho de futebol contar a novidade para a turma no momento em que saía um gol.

No ponto de ônibus, ela baixou o olhar. Queria apenas dormir quando chegasse em casa, mas uma pergunta lhe martelava o cérebro: qual será a primeira música que ouvirei bem alto em homenagem ao meu pai?

Uma rápida procura no celular daquele que tinha sido o seu melhor amigo decretou: "Here Comes the Sun", uma dsa mais belas de George Harrison com os Beatles. "Um dia ele me disse que essa canção representava o futuro porque era muito otimista, para cima. Daqui para a frente, será o meu hino nacional."

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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