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Pedalando no mesmo lugar, Lobão já foi artista visionário 20 anos atrás

Combate Rock

22/02/2020 06h54

Marcelo Moreira

Lobão (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Em sua autobiografia "50 anos a Mil", o cantor Lobão abusou de uma imagem nas quase 600 páginas para descrever vários desafetos: "gente que parece bicicleta ergométrica, que pedala e pedala nunca sai do lugar".

Como um bumerangue, a analogia serve para a verborragia do artista, que resolveu quebrar o silêncio de alguns meses em uma longa entrevista ao jornalista José Fucs, publicada no Estadão.com, o site do jornal "O Estado de S. Paulo". Leia aqui a repercussão.

Lobão falou bastante e demais, como sempre, Pedalou muito e não saiu do lugar. Ruminou uma série de pensatas batidas e repetitivas sobre sua turva visão política do Brasil e demonstrou uma necessidade absurda de convencer a todos de seus motivos para repudiar Jair Bolsonaro, em quem votou e apoiou. Não convenceu.

Embora pareça estar mais centrado e com um discurso menos belicoso, Lobão não tinha muito a dizer na questão política. Um pouco errático aqui, corrosivo ali, mas nada de novo no horizonte.

Diante do volume incessante de informações e da volúpia com que as claques políticas se digladiam nas redes sociais e no dia a dia da administração da vida, o cantor parece estar com dificuldade de acompanhar o mundo farsesco da sociedade brasileira – nada de errado, já que a maioria dos brasileiros está com o mesmo problema.

Na parte cultural, evitou aprofundar a questão da chegada de Regina Duarte à Secretaria de Cultura, demonstrando uma certa condescendência com relação às expectativas do desempenho da ex-atriz.

No mais, destilou o veneno de sempre e contra os mesmos alvos. Tem prazer em "denunciar" a chamada "Máfia do Dendê", ao se referir aos artistas baianos que supostamente influenciam e "mandam" na música e cultura do país.

Coincidentemente, entre as pedaladas sem sair do lugar, críticas pesadas a Bolsonaro e pancadas nos desafetos de décadas, Lobão não comentou – ou não se lembrou – de que faz 20 anos que ele empreendeu uma luta interessante contra o mercado fonográfico, então ainda existente.

Com a revista "Lobão Manifesto", Lobão tentou mostrar independência e enfrentar a dura e nem sempre leal concorrência das gravadoras. Junto com a revista vinha o CD "A Vida É Doce", o seu trabalho da época. Isso foi no final de 1999. Foi o embrião de outra iniciativa, a "OutraCoisa", que prestou relevantes serviços ao encartar Cds de bandas e artistas bacanas, como o Cachorro Grande, do Rio Grande do Sul.

De certa forma visionário, o cantor antecipava uma luta que viria a corroer as entranhas da indústria e matar o negócio como ele era concebido até então.

Sem escala e sem estrutura, a iniciativa de "guerrilha" foi bem-sucedida em pequena escala e apontou caminhos para os artistas underground e independentes driblarem a estrutura fossilizada e oligopolista das gravadoras.

Foi uma grande sacada, que acabou por englobar outros artistas e mostrar a viabilidade do negócio. Por mais que sejam questionáveis suas escolhas políticas e as batalhas meio sem noção contra alguns músicos desafetos, Lobão sempre foi um entusiasta de novidades, além de ter um conhecimento extraordinário do mercado e de seus defeitos.

Lamentavelmente, sua batalha pela numeração de cópias de CDs, DVDs e LPs, algo necessário e muito bem-vindo no começo dos anos 2000, morreu junto com a própria indústria musical como a conhecíamos, soterrada pela pirataria física e digital, mas sobretudo por conta dos enormes erros de gestão e desconhecimento inacreditável de seu público consumidor.

Lobão se tornou um músico underground e que se vira bem no atual mercado. Continua lançando álbuns interessantes, como o ótimo "O Rigor e a Misericórdia", e o álbum duplo de versões de grandes hits do rock nacional.

Assim como outros artistas de sua geração, sofre com a perda progressiva de espaço e interesse pelo subgênero musical, mas parece ter sido mais afetado justamente por sua postura crítica e de protesto contra o que considerava pasmaceira artístico-cultural e uma relação lesiva entre músicos e gravadoras.

Seu mercado ficou mais restrito, o que não diminui a relevância de sua obra e de seu legado. Se a esquerda o execra por conta de sua metralhadora giratória desfocada e desequilibrada contra ícones do espectro político, a direita agora o considera um traidor após encampar as ideias extremistas e conservadoras do bolsonarismo, mesmo critivcandop a excrescência e a nulidade chamada Olavo de Carvalho.

O Lobão visceral e iconoclasta faz falta, mas aquele que tinha argumentos e se mostrava arguto e astuto na formulação de prensamentos e proposições. Musicalmente ele se adaptou bem ao underground, mas demonstra cansaço ao pedalar sem sair do lugar repisando as mesmas velhas e emboloradas ideias político-sociais dos últimos dez anos.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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