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Gentle Giant lança caixa com 29 CDs à vespera dos 50 anos de carreira

Combate Rock

11/02/2020 06h28

Marcelo Moreira

Uma banda que ninguém levava a sério, mas que depois levaram muito a sério e se tornou um dos nomes mais importantes do rock progressivo dos anos 70 sempre apostando no inusitado e na mistura de sons e influências. Uma banda que era mais radical, em vários pontos, do que King Crimson, Van der Graaf Generator, Gong, Henry Cow e muitas do cenário de Canterbury, na Inglaterra.

O Gentle Giant, fundado por três irmãos intelectuais e exímios músicos, tinha tudo para dar errado e quase deu, mas a persistência os levou a patamares surpreendentes para aqueles estudantes arrogantes e pretensiosos.

Em dados momentos, parece que estamos ouvindo algo de Hermeto Paschoal em plena Inglaterra de 1972, com sons de garrafas quebrando, barulhos vindos do vento, portas batendo e instrumentos musicais simulando os variados sons.

É essa intrigante banda inglesa, que implodiu em 1980 e retomou a carreira para aparições esporádicas em 2005, que decidiu lançar uma caixa muito pesada, literal e fisicamente falando: "Unburied Treasure" é um pacotaço com 29 CDs e um Blu-Ray, incluindo toda a discografia – tem até um disco com entrevistas dos integrantes, uma chatice sem tamanho – e inúmeros discos ao vivo gravados entre 1970 e 1980 na Europa.

É evidente que o negócio é de maluco mesmo e caríssimo. Nas lojas virtuais do exterior, o preço médio é de US$ 700 (mais de R$ 2,8 mil), fora o preço do frete – nenhuma oferece, ainda, uma versão apenas digital.

Os principais críticos de música popular da Inglaterra preferem, hoje, considerar o Gentle Giant como uma banda incompreendida. Entretanto, seus ecos e influências podem ser observados no trabalho de gente como Neal Morse (ex-Spock's Beard e atual Transatlantic e Neal Morse Band), Flower Kings, Steve Hackett, Opeth,  Steven Wilson, Big Big Train e muito mais gente, todos quase unânimes em reconhecer a banda como genial.

Por mais que consideremos as qualidades do quinteto, o destino mesmo parecia ser o underground por conta de opções radicais de direção artística e, depois, mudanças radicais em busca de um sucesso comercial que gente como Yes e Genesis obtiveram.

Surgida em 1971 das cinzas de uma banda de ares psicodélicos, o Gentle Giant era frequentemente comparado ao King Crimson na época, embora este já fosse um dos principais nomes do rock progressivo.

A música era considerada complexa e detalhada. Tinha tantos elementos que estonteava os analistas e fãs. As  mudanças de tempo, quase sempre irregulares, intrigava a todos, assim como como amplo uso de polifonias.

Havia o abuso do contraponto instrumental e vocal e, como bem assinalou a revista "All About Jazz", havia as abordagens da música madrigal, frugal e outras músicas clássicas, com uma predileção particular pelas formas da era primitiva e barroca/renascentista/medieval; harmonias vocais polifônicas de várias partes que frequentemente mudavam de dissonância desafiadora para maior (mas ainda complexa) consonância que era frequentemente trocada de um cantor para outro, incluindo o uso de ritmos escalonados.

O quinteto ainda abordava elementos como a sincopação, polímeros e, talvez o seu maior definidor acima de tudo, contraponto; o desmembramento e re-vocalização de mudanças de acordes inicialmente simples; como alguns de seus arranjos vocais, a passagem de frases/motivos de um instrumentos para outro, de maneira semelhante a um time de tags; e contrastes estilísticos surpreendentes, como passar de corais medievais em um momento para passagens de rock difíceis no próximo.

As composições foram creditadas inicialmente aos dois irmãos Shulman cofundadores da banda, Derek e Ray. Também integravam o time o irmão mais velho, Phil, que saiu após o lançamento do excepcional "Octopus", de 1972; e a arma secreta do grupo, o multi-instrumentista Kerry Minnear. 

A maior parte da parte instrumental é de autoria de Ray Shulman e Minnear, com ideias adicionais contribuídas por Derek. Phil e Derek Shulman foram, por outro lado, responsáveis ​​pela maioria das letras da banda.

Minnear se ocupava dos teclados, mas também tocava vibrafone, marimba, xilofone, violoncelo, tímpano e outros instrumentos de percussão, além de cantar.

O vocalista Derek Shulman contribuiu com saxofones, clavicórdio, baixo e percussão; o também vocalista Phil Shulman tocava saxofones, clarinete, trompete, piano, percussão e mellophone (em português, melofone ou melofono; assemelha-se fisicamente ao trompete, mas tem dimensões maiores. Seu timbre médio-agudo lembra a sonoridade da trompa). 

Uma das formações do Gentle Giant (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O baixista Ray Shulman, além de ser um violinista talentoso (elétrico e acústico), tocou várias guitarras, além de órgão, pedais de baixo, percussão, viola e trompete nos álbuns de estúdio e apresentações ao vivo.

O guitarrista Gary Green, além de uma variedade de guitarras, contribuiu com percussão, bandolim e, em concertos, fazia vocais adicionais; e John Weathers, o baterista mais duradouro da banda (primeiro ingressando como substituto de Malcolm Mortimore após um acidente de moto deste em 1972, mas permanecendo no grupo até a separação), adicionou percussão, vibrafone e, como Green, vocais adicionais durante performances ao vivo.

Ao longo de três décadas e meia, foram várias as reedições e masterizações de toda a obra, assim como o lançamento de diversos DVDs e shows ao vivo, com destaque para os trabalhos realizados por Steven Wilson (ex-Porcupine Tree), que já realizou remixagens e remasterizações de CDs de King Crimson, Jethro Tull e Yes.

Os dez primeiros álbuns dizem respeito aos discos que foram lançados em 1971 e 1980, que contém a fase mais radical do rock progressivo e, depois, as tentativas de ficar mais acessível e comercial, a partir de 1977.

Também há uma variedade de shows ao vivo que retratam com fidelidade a peculiar sonoridade da banda ao longo de ao menos dez anos intensos de apresentações pela Europa.

Além do "Playing the Fool: The Official Live", lançado comercialmente em 1977, 16 apresentações completas ou parciais ao vivo estão disponíveis, juntamente com um punhado de sessões de rádio da BBC de 1972, sendo que uma dessa gravações radiofônicas, de 1971, já foi lançado por Alucard em 2009 como "King Alfred's College, Winchester 1971", e serve como o primeiro documento ao vivo conhecido da banda.

Sete nunca foram lançados antes, enquanto sete nunca foram lançados oficialmente (Giant estava sendo muito pirateado na época) e um nunca esteve disponível antes em CD.

"Unburied Treasure" é um grande presente para os fãs da banda e um item de colecionador fundamental para os aficionados do rock progressivo, por mais caro – e bote caro nisso – que seja a megacaixa.

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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