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'Black Sabbath', 50 anos: o disco que iniciou o heavy metal

Combate Rock

10/02/2020 07h00

Marcelo Moreira

Sexta-feira 13 é um grande dia – sempre é. Foi o dia em que, em 1970, foi lançado o álbum mais importante da história da música pesada, gravada por quatro jecas de Birmingham que não tinham a menor ideia do tamanho da obra que perpetraram, segundo o escritor inglês Mick Wall.

"Black Sabbath", lançado há 50 anos, é um marco na história da música popular, quase tão importante quanto o primeiros singles de Bill Haley e Elvis Presley e "Please Please Me", a estreia dos Beatles em álbum, em 1963.

Discute-se se "Helter Skelter", dos Beatles, contida no "Álbum Branco", de 1968, seria o pontapé inicial do heavy metal, ou qualquer música do Blue Cheer, banda de garagem, digamos assim, dos anos 60.

As opiniões são muitas, mas não perca muito tempo com elas: crave a estreia do quarteto Black Sabbath como marco inicial – ou principal, como queira.

Nada tão pesado, funesto, sujo, assustador e insano havia sido produzido na música até então. Alice Cooper, Arthur Brown e Sir Lord Baltimore perdiam de longe.

Em termos de insanidade, Frank Zappa ganhou um concorrente de peso (literalmente). Os portões do inferno foram abertos e a fúria, a ira e violência, em vários níveis, ficaram impregnadas na música popular desde então.

A banda entrou no estúdio em Londres, em janeiro de 1970, para gravar com o dinheiro contado. Tudo muito simples, direto, reto e sem a menor sofisticação. Foram sete músicas em apenas um dia – "Evil Woman" tinha sido registrada um mês antes e seria o primeiro single.

"Entramos no estúdio e fizemos tudo num dia só: tocamos nosso repertório daquele tempo e pronto. Achamos até que um dia era tempo demais [para gravar um disco], então viajamos no dia seguinte para tocar na Suíça por um cachê de 20 libras", diz o guitarrista Tony Iommi no livro de Mick Wall e em sua autobiografia.

Iommi lembra que gravaram ao vivo no estúdio, com poucos ajustes: "Pensamos assim: 'Temos dois dias para fazer tudo, e um dia é só para a mixagem.' Então tocamos ao vivo. Ozzy cantava ao mesmo tempo; nós o pusemos num canto separado e fomos em frente. Nunca fizemos uma segunda versão da maior parte do material."

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Em outro bom livro sobre a banda, de Martin Popoff, o baixista Geezer Butler ironizou a rapidez e a simplicidade da gravação e cutucou, ainda de leve, a produção de Rodger Bain, indicado pela gravadora.

"Tínhamos 21 anos, mal havíamos tocado fora das Midlands (região de Birmingham, na Inglaterra, terra natal dos quatro membros). Totalmente inexperientes, ficamos extasiados com a chance de gravar um disco, mas pouco sabíamos o que estávamos fazendo, o que, aliás, parece que foi a tônica de todos os que trabalharam no álbum."

Décadas depois, seus autores dizem conseguir certo distanciamento para fazer críticas pontuais. Iommi não gostou da mixagem, achou que, na época, os instrumentos soavam baixos e abafados.

Butler reclama um pouco da produção fria e sem vida em algumas músicas, especialmente em "Behind the Wall of Sleep".

Ozzy Osbourne, no necessário "Eu Sou Ozzy", menciona certa estridência em sua voz em algumas passagens de "N.I.B." – da mesma forma como fez o mesmo apontamento em "Fairies Wear Boots", do segundo álbum, "Paranoid", do mesmo ano.

Cinquenta anos depois, tudo isso se torna irrelevante, ainda que saia da boca de seus autores. "Black Sabbath", o álbum, é perfeito até demais, principalmente em suas imperfeições – ou supostas imperfeições.

"Black Sabbath", a música, possibilitou um mundo de possibilidades, ajudando a empurrar a era do "paz e amor" para o limbo. Soturna, sombria, assustadora, trazia o Mal para o primeiro plano, sem que necessariamente os quatro tivessem entusiamo com o Mal.

"Filmes de terror, violência ou temas supostamente ocultos e diabólicos nunca passaram de apenas temas para canções. Só isso. Pareceu legal e oportuno escrever sobre isso na época", relativiza Butler a respeito das letras das músicas.

"Odiávamos os hippies com todas as forças. 'Paz e amor' porra nenhuma, o mundo inteiro fodido, com guerras, fome, corrupção, pobreza extrema mesmo na Europa e na América, violência, e esses malditos chatos torrando a paciência falando do sol, dos rios e das florzinhas. Adoramos ter chutado tudo isso", proclama Ozzy sem sutilezas.

Ainda que os dois covers soem deslocados, dependendo do ponto do vista, de forma alguma interferem na qualidade e importância do álbum. "Evil Woman", da banda obscura Crow, e "Warning" (Aynsley Dunbar Retaliation) são temas fortes, mas que destoam um pouco do clima.

"The Wizard" estabelece um novo padrão de guitarras e saturadas, assim como "N.I.B." se torna a grande referência temática e melódica do quarteto em seus primeiros tempos. Mesmo a pouco citada "Sleeping Village" está impregnada de todos os elementos que estabeleceram o Sabbath como gigante do rock e mestre do heavy metal. Portanto, celebremos a sexta-feira 13, todas as sextas-feiras 13. E louvemos ainda mais toda sexta-feira 13 de fevereiro, pois ela sempre será um marco histórico dentro da cultura ocidental.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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