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'The Repentless Killogy': por um pouquinho mais de Slayer

Combate Rock

08/02/2020 06h18

Marcelo Moreira

A imagem é emblemática: Tom Araya, baixista e vocalista do Slayer, olha perdido ao final do último show da banda, na Califórnia, há cerca de dois meses.

A multidão que superlotava o local exultava diante do momento histórico, mas o músico estava na frente do palco, alheio a tudo. Quem conhece o chileno sabe que ele não queria acreditar que aquilo era o verdadeiro fim.

E não era qualquer fim, qualquer encerramento. Depois de quase 40 anos de desgraceira, a devastação sonora terminava.

Ainda hoje é difícil definir com clareza o tamanho do legado do quarteto californiano que empurrou a música extrema ainda mais para o extremo. Se Metallica, Judas Priest e Iron Maiden disputam o posto de principal e maior de todas as bandas de heavy metak, cabe ao Slayer a honra de ter criado o verdadeiro caos sonoro na face da Terra.

Enquanto a banda se despedia em alcos do mundo todo em 2019, colocava no mercado "The Repentless Killogy", gravado no Forum de Inglewood, na Califórnia, em 2017, no começo de mais uma perna da então turnê do álbum "Repentless".

O grupo provavelmente ainda não tinha decidido que encerraria a carreira dis anos depois, mas o ue vemos é um grande show, econômico em sua simplicidade extrapalco, mas trannsbordante de peso e destruição no som muito pesado.

Os fãs vão dizer que os shows de São Paulo e do Rock in Rio, neste ano de 2019, foram tão absurdos de intensos que mereciam ter sido registrados para lançamentos futuros, deixando bem para trás o público californiano.

Por melhores que tenham sido os shows brasileiros – que foram excelentes -, o Slayer jogava em casa. Inglewood foi um dos muitos lugares que viram o início do quarteto, em seu som pesado, mas indefinido e ainda tosco, no começo dos anos 80.

Foi ali também, em Inglewood, que o mundo começava a ter noção da devastação sonora que acometerisa o planeta e que estabelecia as bases do que veio a ser chamada de música extrema.

O Metallica abriu as portas do inferno quando se mudou para San Francisco, em 1982, e deu início aquela revolução thrash que tomaria conta da Califórnia.

Era muita energia e velocidade que transbordavam dos amplificadores "metálicos", mas foi a fúria demoníaca e devastadora do Slayer que desenharia os contornos daquela mudança de paradigmas. E a erupção do vulcão foi em Los Angeles.

Por isso não há como discordar de que era na Califórnia que deveria ocorrer o últimode todos os shows. E tinha de ser na mesma Califórnia, na mítica e ensolarada Los Angeles, que o caos sonoro do fim do mundo, pela última vez, seria registrado. E tinha de ser no Forum, em Inglewood, a gravação do novo ao vivo, local que abrigou todos os grandes do rock, de Deep Purple a Iron Maiden.

O DVD que deve ser transformado em CD duplo em 2020 não dá sinais de que a banda faria seu último giro mundial. Nada indicava cansaço ou descontentamento entre os quatro músicos.

O que temos em "Killogy" é o massacre de sempre, a fúria de sempre. Um soco no pescoço diante de tamanha virulência e competência. Tudo o que vmos e curtimos no Brasil neste 2019 estava lá, em Inglewood, dois anos. Um show visceral, preciso e esplendoroso.

Os clássicos estão todos lá, uns revigorados, outros executados corretamente, outros massacrados de forma impiedosa, como "War Ensemble", "Hell Awaits", "South Of Heaven", "Raining Blood" e o fnal alucinante com "Angel Of Death".

Alguns mais fanáticos percebera problemas de mixagem em algumas músicas e nos instrumentos em determinadas passagens.

Para quem se acabou ouvindo "Live Undead", de 1984, que pode ser considerada uma verdadeira trilha sonora do inferno com todas as suas imperfeições, não serão alguns probleminhas de oscilação de volume de guitarras os motivos para que torçamos o nariz.

Até nisso a banda mostrou respeito aos fãs, com o mínimo de overdubs e correções extras – se é que houve alguma. A ideia era capturar ao extremo a intensidade e a violência de um show do Slayer. Então o resultado foi ´plenamente satisfatório em "The Repentless Killogy".

Por mais que tenha sido um baque saber que não teremos mais Slayer – uma notícia cujo impacto só tem paralelo quando do último show do Black Sabbath, anos atrás -, fica um dos legados mais impresisonantes da história do rock: contestação, afronta, violência, caos sonoro e um profundo desejo de incomodar.

O Slayer lavou a alma de muita gente que desconfiada do poder do rock de chacoalhar o mundo e a sociedade, de colocar o dedo na ferida e de atirar o horror e a virulência diante de uma sociedade e de um mercado musical fossilizados e injustos.

O Slayer nos deu a voz que nos tinham tirado quando o rock ficou pasteurizado após o furacão passageiro do punk e de sua absorção pelo sistema.

Enquanto esse mesmo sistema tentava conter Iron Maiden, Saxon, Dio, Venom e muitas outras, teve de enfrentar a torrente do oeste capitaneada por Metallica e Slayer. Foi demais, para nossa sorte e de quem gosta de música e de rock com atitude.

"Killogy" traz um pouco de tudo isso e nos faz lembrar que o Slayer foi quem formatou a música extrema e o metal desgracento, feito sob medida para destruir, depredar e incomodar.

E também nos faz lembrar da última imagem de Araya em um palco com o Slayer, na Califórnia, com o olhar perdido. Talvez ele quisesse apenas um obrigado.

Ou, quem sabe, procurava alguma imagem perdida na memória, naquele mesmo lugar, lá em 1983 ou 1984. Pode ter visto a história passando rapidamente em sua mente com aquela avalanche ensurdecedora de metal caindo por todos os lados e sendo cuspida de todos os amplificadores.

Pois é, ele queria apenas um obrigado antes de dar um adeus. Mal sabe ele que os agradecimentos sertão infinitos e eternos. Valeu, Tom, e valeu demais, Slayer.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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