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'Burn', do Deep Purple, faz 45 anos: um dos auges da guitarra pesada

Combate Rock

11/11/2019 06h54

Marcelo Moreira

Uma banda grande e importante decide arriscar muito alto após a demissão de dois integrantes. As escolhas dos substitutos  foram acertadas, todo mundo concordava, mas será que daria certo, já as mudanças eram drásticas, inclusive no som?

O tecladista Jon Lord estava desconfiado, mas o guitarrista Ritchie Blackmore foi contagiado pela exuberância e otimismo dos dois novatos do Deep Purple, o cantor David Coverdale e o baixista e também vocalista Glenn Hughes. E então o álbum "Burn", que completa 45 anos de seu lançamento, transformou a vida da banda.

Para muitos o Deep Purple era a personificação do que se convencionou chamar de "rock pauleira" dos anos 70, o hard rock por excelência, até mais do que o Led Zeppelin, que tinha um som mais diversificado.

Com o álbum "Machine Head" e o ao vivo "Made in Japan", o quinteto inglês levou o rock pesado às grandes massas e catapultou Blackmore para os holofotes como um dos grandes heróis da guitarra, para não falar na ascensão de Ian Gillan, o vocalista magistral apelidado de "Silver Voice" (voz prateada, na tradução literal).

Pena que a boa fase não durou por conta das brigas cada vez mais fortes entre vocalista e guitarrista e vocalista, que culminou com a saída de Gillan no primeiro semestre de 1973.

Na esteira do "rolo", sobrou para o baixista Roger Glover, que também saiu por conta de, entre outras coisas, estar tendo muito sucesso como produtor musical de bandas como o Nazareth, por exemplo.

Blackmore, Lord e o baterista Ian Paice, os três fundadores, queriam resolver rápido e recolocar a banda nos trilhos, mas não foi assim que aconteceu.

Se a chegada de Glenn Hughes, da banda Trapeze, foi um tiro certo e quase imediato, a procura por um vocalista principal demorou – Blackmore não queria que um instrumentista que também cantasse, como o novo baixista, chamasse muito a atenção.

Na esteira da escolha do cantor houve até uma consulta ao brilhante Paul Rodgers, que estava vendo o seu Free desmoronar pela segunda vez e já começava a ensaiar com os membros do que viria a ser o Bad Company.

A lenda diz que Lord procurou o então Rodgers garoto – a diferença de idade entre eles era de quase dez anos – e perguntou se teria interesse em cantar no Deep Purple. "Ué, para que vocês me querem? Já têm Glenn [Hughes], que canta demais", teria dito o cantor. Décadas depois, Rodgers contou em entrevista que realmente houve a consulta, mas se limitou a dizer que já tinha outros compromissos.

Com a escolha de um ex-balconista de loja de roupas estava consolidada a mudança radical no Deep Purple. David Coverdale era cantor sem o virtuosismo e potência vocal de Gillan ou a extensão quase ilimitada da Hughes, ma compensava isso com a voz rouca e bluesy que tanto encantou Blackmore e Paice.

O que eles não contavam é que o novo membro teria uma personalidade forte e seria um compositor prolífico, sendo o grande responsável, junto com Hughes, pela guinada musical em direção à música negra, encharcando o som do Purple com soul music e doses cavalares e contagiantes de funk, como ficou patente nos discos posteriores, "Stormbringer" (1974) e "Come Taste the Band" (1975) – mudanças radicais o suficientes para que Blackmore abandonasse o grupo em março de 1975.

Para quem estava reticente a respeito do que estava se tornando o Deep Purple, a estreia da nova formação, no festival California Jam, de 1974, foi uma grande pancada na cara e nos ouvidos. A música era pesada, intensa, poderosa, mas tinha novos elementos e uma energia abrasadora.

"Burn", a faixa-título, é daquelas músicas gloriosas que se consagram como clássicos quase que imediatamente. Pesadíssima, veloz e arrasadora, soa como se fosse uma sequência natural da mágica "Highway Star", mas agora com um baixo muito mais suingado, com um groove penetrante e um dueto vocal demolidor entre Coverdale e Hughes.

Não tinha como a mudança ser tectônica naquele momento e a guitarra de Blackmore continuava a dar as cartas, só que nem tanto, como é possível observar na faixa "Might Just Take Your Life", que registra um groove quase obsceno e mais um dueto maravilhoso entre os dois vocalistas da banda.

"You Fool No None " é outro clássico instantâneo que possui uma levada quase jazzística com o baixo duelando com o teclado e a guitarra de Blackmore solando de forma brilhante, mas já antecipando as influências que estariam por vir.

"Lay Down Say Down" é uma paulada soul-funk que não deixa ninguém parado na pista, enquanto que "Mistreated" é a grande balada blues do Deep Purple (apesar da letra brega), na mesma pegada das lindíssimas "Child in Time" e "When a Blind Man Cries" em termos de eloquência e imponência. É o principal cartão de visitas de Coverdale como o vocalista principal da banda.

Parte dos críticos considera que esse foi o último grande disco do Deep Purple, desconsiderando as boas ideias contidas em "Come Taste the Band", considerado um pouco irregular (discordo veementemente), e o impacto contagiante de "Perfect Stranger", de 1984 (embora este não tenha muitas músicas consideradas hits potenciais).

"Burn" foi um sopro de genialidade no rock pesado setentista em um momento em que as bandas do gênero iniciavam um lento declínio e uma sonoridade mais pop, baseada na música norte-americana, já iniciava o domínio das paradas ao lado da avassaladora chegada de bandas de rock mais ríspidas e diretas, como Kiss e Aerosmith, para não falar da ascensão do Queen.

O álbum registra performances mágicas e certeiras de todos os integrantes em um momento de grande incerteza e sem que as divergências musicais fossem importantes o suficientes para estragar o bom ambiente no estúdio e no palco. é um trabalho inspirador e que emana energias positivas e, ao mesmo tempo, acessível a um público um pouco mais amplo mesmo mantendo o peso e a orientação para a guitarra.

Se o Grand Funk Railroad tinha sido uma novidade naquela primeira metade dos anos 70 mostrando um rock pesado encharcado de blues, jazz e soul music, o Deep Purple contra-atacava com uma fusão tão fantástica quanto, com a vantagem de incluir um virtuosismo fora do comum na guitarra de Blackmore e com o tempero clássico e onipresente do teclado de Lord. "Burn" é uma peça fundamental do rock clássico por incendiar a música em um momento em que isso era extremamente necessário.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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