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Corajoso, Skank escolhe a dignidade ao conforto

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08/11/2019 06h52

Marcelo Moreira

O anúncio da parada do Skank por tempo indeterminado surpreendeu pela reação que a notícia provocou: letargia e resignação. Era como se todo mundo já esperasse que o defunto se deitasse para começar o velório.

Alguns pobres de espírito comemoraram, assim como fizeram deselegantemente com os Los Hermanos, por mais que esses sejam superestimados ou autoindulgentes.

Calma, gente! Os apressados disseram que a banda acabou, mas isso ainda não aconteceu. Parar por tempo indeterminado não significa encerramento de atividades.

Entretanto, o anúncio é bastante significativo e representa um marco no rock nacional. Foi a última banda de rock nacional a figurar nas listas de músicas ouvidas nas emissoras de rádio, segundo a consultoria Nielsen em várias medições ao longo dos últimos 15 anos.

Tirando alguns pocos espasmos por volta de 2005 de bandas emo, como Fresno, NX Zero e CPM 22, somente Jota Quest, Skank e Los Hermanos, dentro do pop rock, conseguiram, a duras penas, aparecer com músicas nas listas das 100 mais ouvidas, dominada por sertanejos, pagodeiros e funkeiros – e o pior tipo de lixo musical importado dos Estados Unidos, muitas vezes denominado de "rhythm & blues".

Considerando que Jota Quest é mais pop do rock, então as duas últimas bandas de rock a furar o domínio de outros gêneros nas rádios nao estão mais na ativa – Los Hermanos de vez em quando se reúne para alguns shows, e só.

Skank (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Quando uma potência pop de vendas como o Skank anuncia o seu suposto fim, aparentemente amigável, é um sinal de alerta para os demais veteranos e uma luz no túnel escuro e pantanoso do mercdo fonográfico.

Por mais que aleguem uma "exaustão criativa", "anseio por novos caminhos e projetos" e "falta de perspectivas diante de uma carreira em que se conseguiu quase tudo", a decisão revela um dilema que afeta toda uma geração que ajudou a formatar o que se convencionou a chamar de mundo pop no Brasil.

Colher os louros e ficar no mundo confortável ou ainda se arriscar a ousar e buscar caminhos inusitados (e arriscados) dentro de um mercado depredado onde o ouvinte é cada vez mais disperso e menos comprometido com o próprio produto – cada vez mais desvalorizado e gratuito?

Esse dilema talvez ajude a entender o fim do Skank: vale o esforço de empreender tempo e dinheiro em novas composições e álbuns que não muito vão ouvir e menos ainda comprar?

Vale o esforço de ainda se submeter a horas de estúdio para gravar músicas que vão se misturar a uma miríade de sons ruins e malfeitos nas plataformas digitais e de streaming, caracterizadas pelo som compactado, insosso, inodoro e quase descolorido?

Para gente como os Titãs, hoje reduzidos a um terço da formação original, ainda vale a pena. "12 Flores Amarelas", o último trabalho que é uma ópera-rock com 25 músicas, foi lançado no ano passado e colheu ótimos resultados na crítica e nos palcos, embora não tanto nas vendas físicas e digitais.

"Temos essa ideia de que é possível se manter criativo em um mundo novo e diferente. Dá para conciliar as velhas canções de 30 anos atrás com o frescor de um trabalho novo e denso, mas prazeroso, que muita gente elogiou", disse o cantor Branco Mello, dos Titãs, ao Combate Rock.

O dilema está atrás de muitas outras decisões artísticas de outras estrelas veteranas. Lulu Santos ainda pensa como os Titãs, embora tenha optado por espaçar os novos lançamentos e mergulhar na tecnologia e na pesquisa sonora. Outros, como Humberto Gessinger (ex-Engenheiros do Hawaii), imprimiram em suas carreiras mudanças radicais em busca de outros públicos, outra atitude corajosa – e arriscada.

Jota Quest (FOTO: DIVULGAÇÃO/MAURICIO NAHAS)

O Barão Vermelho, sem Frejat, lançou recentemente seu novo trabalho com o novo vocalista, Bruno Suricato, apostando no novo e na inovação, também na mesma toada dos Titãs e dos Paralamas do Sucesso, que ainda surfam nos bons resultados do álbum "Os Sinais do Sim", de 2016.

Por outro lado, Ira! e Lobão têm projetos recentes que buscam revigorar catálogo recheados de canções ótimas. O Ira! acertou ao dar uma roupagem folk a velhos sucessos e Lobão escolheu 25 músicas do rock nacional para um álbum de releituras, deixando-as mais pesadas e hard.

O Capital Inicial, talvez a banda que mais faça shows dessa turma, investiu há não muito tempo em novo álbum e tem sido mais bem-sucedido do que os contemporâneos em se conectar com o público mais jovem, o que não necessariamente vai se traduzir em canções inéditas no curto e médio prazos.

São boas e relevantes conclusões que se pode tirar de um cenário que está enevoado. Manter-se criativo e bucar algum sucesso parecido com o do passado ou mergulhar no conformismo e apostar no seguro e rentável catálogo antigo sem riscos, mas também sem desafios?

A receita tem dado certo em ambos os lados, ainda que os resultados, há pelo menos cinco anos, sejam bastante modestos e, de certa forma, frustrantes, para quem espera algo sempre vibrante, esperto e genial de seus artistas favoritos – e não o comodismo de tocar os mesmos cinco dez hits ou fazer figuração em talk show de qualidade bastante duvidosa.

O fato relevante, entretanto, é a coragem do Skank de reconhecer a "hostilidade" de um mercado que cada vez menos deixa de reconhecer e recompensar, de maneira satisfatória e do ponto de vista artístico, a busca pela excelência e pela qualidade.

O reconhecimento de "exaustão criativa" é um reconhecimento de fracasso ou de decadência? Não. É o reconhecimento de que os músicos do Skank estão com dúvidas imensas a respeito das perspectivas de uma banda gigante como essa no século XXI dominado pela tecnologia e pelo imediatismo.

Humberto Gessinger (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Como disse recentemente um importante jornalista paulistano, Julio Maria, de O Estado de S. Paulo, a banda parece ter constatado que seria um esforço hercúleo para ter de criar um álbum que teria de ser no mínimo genial para conseguir a atenção devida.

Bandas e artistas que ainda buscam a excelência artística e que lançam sempre coisas novas enfrentam um desafio gigantesco para se manter relevantes e capturar a atenção de um ouvinte imediatista e nada disposto a pagar por musica. Não se trata de heroísmo,mas de necessidade artística, como disse ao Combate Rock certa vez Nasi, o vocalista do Ira!

Os artistas que seguem pela escola dos Rolling Stones (último álbum em 2005) ou The Who (dois álbuns em 37 anos) merecem muito respeito, por mais que frustrem bastante gente ao se prender ao catálogo antigo. Só que ousadia e audácia são fundamentais para a inovação.

Quem venha o novo e o instigante, ainda que a origem seja o velho – não foi assim quando Jeff Beck, de 75 anos, lançou recentemente "Loud Hailer", ao lado de duas musicistas com idade para serem suas netas?

O fim (ao menos por enquanto) do Skank envia dois recados:

– Encerrar uma carreira vitoriosa de quase 30 anos é um ato de coragem, mas também de necessidade, diante de um panorama sombrio e que oferece poucas perspectivas aceitáveis (do ponto de vista dos músicos) de investir tempo, dinheiro e criação em um produto que nada acrescentará à trajetória da banda e com chances remotas de atingir o mesmo nível de atenção e "sucesso" já alcançados. É louvável que tenham renunciado à decadência artística diante do tamanho que adquiriram;

– Abdicar de um trabalho autoral e inédito, por mais veterano que seja, garante o quinhão de mercado cativo, independentemente de ser engolido pelo mercado depredado ou pela nova geração ávida por espaço e por expandir as possibilidades com o auxílio da tecnologia. O risco, neste caso, é de fossilização, o que pode manchar a carreira e introduzir o artista na história de uma forma não tão abonadora. É o caso daquele jogador de futebol ou ex-atleta que precisa ficar continuamente relembrando seus principais feitos, enquanto outros preferem o silêncio e a discrição crente que o próprio currículo fala por si.

– É muito superficial tratar o caso como uma mera opção entre "dignidade" e "comodismo". Em grande parte das vezes (na maioria), comodismo é usado como sinônimo de conforto, o que é um erro. Comodismo está mais para estagnação, enquanto conforto remete a tranquilidade e serenidade. A escolha pelo conforto não significa a perda da dignidade. Comodismo, por sua vez, é uma trilha perigosa em direção à decadência e, em certos casos, à perda progressiva de relevância;

– Falar que Rolling Stones ou Roberto Carlos não são dignos é um absurdo, por mais que desagradem a muitos as suas escolhas de estratégias profissionais, artísticas e comerciais na velhice. No caso da grande maioria dos artistas, entretanto, o conforto quase nunca é uma opção. Para manter a relevância, independente do nível atingido, o trabalho criativo tem de ser contínuo e quase intermitente. Sem preservar a dignidade, o esforço não passa de desperdício. Muita gente acredita que o fim de uma carreira, às vezes, é uma maneira de manter a dignidade. Considero um equívoco esse pensamento. A dignidade assume muitas formas e aparece de várias maneiras. O fim de uma carreira, em boa parte das vezes, é apenas a transferência de uma carreira e de um desempenho digno de um lugar para outro. Há dignidade na decadência? Depende do ponto de vista. Entretanto, a decadência é parte quase inescapável do comodismo. Para preservar a dignidade e seu lugar na história, o Skank descartou o conforto e nunca flertou com o comodismo.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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