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A resistência do classic rock empaca o nascimento de novos clássicos

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01/11/2019 07h00

Marcelo Moreira

Qual foi a última vez que você ouviu um hit novo, candidato a clássico do rock, em uma emissora comecial de rádio ou no som mecânico que antecedeu a algum show grande/importante de rock?

Nós nos desacostumamos a ser surpreendidos e a formar novos "clássicos", seja por preguiça, acomodação ou simplesmente porque não damos a mínima para o que é produzido hoje, induzidos pela depredação inexorável da indústria fonográfico e pelas transformações do mercado.

Ficamos acostumados aos grandes hits de sempre antes das grandes apresentações. Todos ficam esperando por "Doctor Doctor", do UFO, antes do começo do Iron Maiden no palco, e ficamos empolgados um pouco antes com a sucessão de AC/DC, Deep Purple, Black Sabbath, Thin Lizzy nas enormes caixas de som.

Os eventos regados a rock ignoram as novas produções. A Okto Beer's Fest, em Santo André, contratou uma dúzia de artistas para fazer som ao vivo, todos fazendo covers (versões) de grandes clássicos do rock. Não houve sinal de música autoral. Nos alto-falantes, só clássicos do rock.

Bruce Dickinson, do Iron Maiden, em show no Rock in Rio 2019: onipresença da banda em todos os sentidos ofusca o surgimento de novos artistas (FOTO: DIVULGAÇÃO)

A banda paulistana Armored Dawn, de heavy metal/power metal, fez a audição para a imprensa de seu novo álbum em uma casa importante de São Paulo.

Antes e depois, no som mecânico, o DJ abusou dos megahits de hard e heavy, com muito Iron Maiden, AC/DC, Helloween, Deep Purple, Black Sabbath, Metallica, Megadeth, Saxon, UFO, Scorpions…

Parece que nada adiantou termos um Rock in Rio onde muita gente se "surpreendeu" com a música feroz da Nervosa (dez anos de estrada), com a violência do Claustrofobia (mais de 20 anos de carreira) e com o peso do Torture Squad (quasde 30 anos de história), bandas brasileiras que são nomes importantes do underground nacional.

Ainda assim, continuamos não nos importando com o novo. Adoramos destroçar o Greta Van Fleet para ir correndo em seguida ouvir "Black Dog", do Led Zeppelin.

Até achamos graça quando toca (muito raramente) Black Keys ou Arctic Monkeys nas emissoras de São Paulo que tocam rock, mas ansiamos mesmo é para que logo em seguida venha as três ou quatro de sempre dos Rolling Stones, em especial "Satisfaction". É o caso de darmos graças a deus quando surge uma "Gimme Shelter" ou algo nem tão óbvio da banda.

Perdemos a capacidade de ser surpreendidos. Perdemos a vontade de buscar coisa diferente. Reclamamos de que não há nada de "novo" na atualidade, mas o esforço pra deixar chegar o novo até nós não existe.

Gastamos R$ 500 para não assistir aos shows do Rockfest em São Paulo – quem ficou no fundo da pista do estádio não viu nada de Whitesnake, Scorpions, Helloween e Europe -, mas nos recusamos a gastar R$ 10 ou R$ 20 para ver bandas brasileiras novas em minifestivais de rock ou metal na Grande São Paulo.

A mesma banda Nervosa superelogiada no Rock in Rio tocou pra 29 pessoas em São Bernardo dois anos atrás, em um minifestival que também contou com as bandas MX e Necrofobia.

No mesmo ABC, Torture Squad e Korzus fecharam minifestivais gratuitos de rock pesado em parques municipais para públicos aquém do esperado justamente por serem eventos de graça. Curiosamente, shows caros de Bon Jovi e King Crimson.

Até que ponto nós é que criamos os clássicos da música ou eles são impostos a nós pela indústria (ou o que restou dela)? Até que pontos somos o agente da história ou apenas ficamos esperando passivamente pelo próximo grande hit?

Quem transformou as músicas do Metallica, em 1983 e 1984, e Nirvana, dez anos depois, em sucessos estrondosos que podem ser ouvidos até hoje nas estações de rádio e web rádio?

Ian Gillan, voclaista do Deep Purple, já tinha desabafado certa vez, em uma entrevista na África do Sul, que detestava  rótulo de classic rock, pois aprisionava a banda em um nicho musical que praticamente acaba com a oportunidade de apresentar material novo ao público. Ninguém queria saber de "Uncommon Man" ou "Rapture of the Deep". Querem apenas cantar as batidas e cinquentenárias "Smoke on the Water" e "Highway Star".

Deep Purple ao vivo, com Ian Gillan à frente (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Já escrevi uma vez que o classic rock iria, em algum momento, acabar com o rock autoral. Era mais uma provocação do que uma premonição, mas é fato que há muito o rock deixou de figurar entre os gêneros mais ouvidos no Brasil e vem perdendo espaço progressivamente na Europa. Neste continente ainda se ouve alguma coisa nova e diferente, mas a preferência pelo público se volta cada vez mais para o classic rock.

A discussão é longa e frequentemente inconclusiva por conta da óbvia força do rock clássico e da preguiça de seus fãs monolíticos e impacientes.

É a história se repetindo como farsa, como no jazz e no blues, que viraram gêneros restritos a certos nichos, onde até mesmo ali os apreciadores demoram a apreciar um artista novo e inovador, sendo que os fãs rezam fervorosamente pela ressurreição de Miles Davis, Stevie Ray Vaughan, Louis Armstrong, B.B. King, Willie Dixon, Muddy Waters…

É um caminho parecido trilhado pelo rock em muito aspectos. Foram quase 40 anos esperando, por parte de muitos, o retorno do Led Zeppelin, que se reuniu apenas três vezes, em ocasiões festivas, desde a morte do baterista John Bonham, em 1980.

Com o fim do Black Sabbath, dos Ramones, do Motorhead e de mais uma leva de grandes artistas e bandas, já se nota o som mais alto do choramingo das viúvas, que já preveem o encerramento das atividades de Deep Purple, Slayer e The Who (já anunciados para breve) e de Rolling Stones, ZZ Top, King Crimson e muitos outros para não muito tempo.

O vulcão sonoro do rock extrapolou, e muito, as possibilidades da música pop e praticamente mudou a cultura jovem ocidental, em um primeiro momento, e do mundo, em seguida. Ultrapassou todos os limites possíveis e se disseminou de tal forma que nem o jazz conseguiu.

O aparente ocaso do gênero musical enseja reflexões sobre os caminhos e as formas de revitalização, mas também sobre a relevância na atualidade.

Muitos advogam que o futuro da música pop é o que observamos no Rock in Rio – tudo junto e misturado, como se fosse tudo igual e a mesma coisa. É um equívoco que não explica o fenômeno e aprofunda o comodismo.

É bem provável que nunca mais vejamos o rock como força predominante no mundo pop como ocorreu nas décadas de 60, 70 e 80. Entretanto, é mais do que hora de abrirmos as portas para as novidades e os talentos da atualidade.

É hora de mais gente saber cantar ou reconhecer uma música do Muse, dos Artic Monkeys, do Greta Van Fleet. Quando foi a última vez que conseguimos identificar os autores de algumas músicas por mais que detestássemos as bandas? Certamente foi quando Radiohead e Coldplay lançaram seus trabalhos mais importantes, e isso faz mais de 20 anos.

O rock sempre precisou e precisará de clássicos e de hits para que tenha mais chances de sobreviver e de voltar a ocupar espaços mais relevantes dentro do espectro pop. Para isso, temos de ouvir mais coisas novas e dar chance para que novos hits surjam.

É necessário, portanto, dar uma boa sacudida em nossas listas de músicas nas plataformas de streaming e tomar uma cerveja a menos e pagar ingresso barato pra ver a banda interessante, mas pouco conhecida, no boteco da esquina – e enterrar de vez o desejo de esperar pelo surgimento de um novo Metallica ou U2 nas esquinas da vida.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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