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Com 'Theatre of Fate', o Viper alcançou todos os palcos do mundo

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13/10/2019 12h00

O guitarrista Felipe Machado, também jornalista, fez uma bela homenagem em seu perfil no Facebook aos 30 anos do lançamento de "Theatre of Fate", do Viper, banda da qual foi e ainda é integrante. O disco foi considerado um marco dentro do rock nacioanal e da música brasileira. Em consonância com o que de melhor se fazia em rock pesado no mundo em 1989, o disco teve impacto no Brasil e no exterior, transformando o quinteto de moleques de 17 anos em astros no Japão, entre outras peripécias. O Viper conquistava fasma internacional antes mesmo de o Sepultura conseguir os seus contratos nos Estados Unidos para virar potência. Transcrevemos abaixo o texto de Machado, que inclui ainda um longo relato escrito especialmente para a revista Roadie Crew, a mehor publicação de rock do Brasil.

Exatamente hoje, 10 de outubro, há 30 anos, chegava às lojas de discos o álbum mais importante da minha carreira: 'Theatre of Fate.

Compartilho aqui o texto que escrevi a convite do Ricardo Batalha para a revista Roadie Crew no início do ano, portanto, antes da morte do Andre. É um texto longo, mas achei importante deixar registrado. Ter criado esse álbum junto com os meus amigos de infância Pit, Yves e Andre é um dos maiores orgulhos da minha vida.

'Theatre of Fate' 30 anos
O mundo inteiro é um palco

Alguns álbuns entram para a história, outros são esquecidos rapidamente. Alguns duram apenas a semana em que são lançados, outros permanecem décadas em nossos corações e mentes. É por isso que fiquei muito feliz com o convite do Batalha para escrever sobre o 'Theatre of Fate' hoje, 30 anos depois de seu lançamento.

'Theatre of Fate' começou a ser elaborado quando eu ainda morava nos Estados Unidos, país para onde eu havia me mudado para estudar logo após o lançamento de 'Soldiers of Sunrise'. Quando eu voltei, em 1988, o Pit me apresentou uma música chamada 'End of a Fate', que contava uma história bastante dramática de um jovem com destino trágico.

Lembro que a música era um pouco mais simples do que a versão que acabou se tornando 'Theatre of Fate', mas reconheci de cara que ali havia algo simplesmente genial.

Percebi na hora que o Pit estava indo por um caminho muito diferente e mais desafiador do que havíamos feito em 'Soldiers of Sunrise', o que parecia ser algo bastante natural por duas razões: as músicas do 'Soldiers' haviam sido compostas muito tempo antes, algumas eram de 1985, como 'Signs of the Night', 'The Whipper' e 'Nightmares', entre outras; a segunda razão é que havíamos deixado de ouvir apenas Iron Maiden/Judas Priest/Manowar e estávamos começando a realmente abrir a cabeça em relação a estilos musicais, ouvindo bandas mais progressivas e música clássica. A prova de que as coisas já estavam mudando é que as últimas canções a entrar no 'Soldiers' foram justamente 'Knights of Destruction', 'Wings of the Evil' e a própria 'Soldiers of Sunrise', todas muito mais complexas do que outras do disco.

O VIPER nunca gostou de se repetir. Sempre gostamos do desafio de ter que ser reinventar constantemente, algo que temos orgulho de ter feito ao longo de toda a carreira. Às vezes deu certo, às vezes nem tanto. Muito disso vem do Pit: é uma pessoa que sempre olhou apenas para frente, nunca para trás. E um pouco vem também das bandas que mais admiramos: Beatles, Metallica, U2. Há bandas que fazem sempre a mesma coisa e são ótimas, como AC/DC, Ramones e Motorhead. Mas não era a nossa praia. Nunca vimos sentido em fazer sempre a mesma coisa. É simplesmente tedioso.

'End of a Fate' viria a se tornar 'Theatre of Fate', mas isso ia demorar mais um pouco. Lembro que a gente conversava muito sobre o próximo disco, e muitas referências diferentes começavam a surgir. A primeira, e talvez a mais forte, foi o álbum 'Misplaced Childhood', do Marillion. Também ouvíamos compulsivamente 'Close to the Edge', do Yes, 'Awaken the Guardian', do Fates Warning, 'Operation Mindcrime', do Queensryche, e todos do Queen, especialmente 'A Night at the Opera' e 'A Day at the Races'. Esses álbuns, além da musicalidade complexa e superinteressante, tinham em comum um formato 'conceitual', ou seja, esses discos contavam uma única história, como se cada canção fosse um capítulo. Isso nos parecia ser uma estética bastante interessante porque nos levaria a um outro patamar artístico e nos aproximava da literatura, outro gênero pelo qual estávamos cada vez mais envolvidos pessoalmente. Andre tinha 17, eu tinha 18, Yves, 19, e Pit, 20: éramos uns garotos muito ambiciosos.

A próxima música que o Pit me mostrou foi 'At Least the Chance', que inicialmente se chamava 'At Least the Time'. (Vou explicar as mudanças nos nomes daqui a pouco). Tanto a 'End of a Fate' quanto a 'At Least the Time' traziam elementos não apenas do metal, mas riffs totalmente inspirados por melodias típicas da música erudita. Esses elementos foram trazidos pelo próprio Pit, não pelo Andre Matos, como muitos fãs pensariam mais tarde, provavelmente associando isso ao fato de que o Andre foi estudar música clássica na faculdade. Mas é bom lembrar que a única composição do Andre no 'Theatre of Fate', 'Moonlight', versão da Sonata ao Luar de Beethoven, foi uma das últimas a entrar no álbum.

Acho legal mencionar aqui, também, que o 'Theatre of Fate' nunca existiria sem a voz do Andre. Não existia ninguém no Brasil na época (e provavelmente não existe até hoje) capaz de cantar as melodias criadas pelo Pit com tanta técnica e emoção ao mesmo tempo. O compositor Pit e o vocalista Andre eram uma parceria perfeita nesse sentido, pois o Pit criava melodias lindas, mas com notas muito difíceis de alcançar. Posso afirmar humildemente que o grande segredo do sucesso do VIPER nessa fase foi o talento do Pit como compositor e do Andre como vocalista. Eu e o Yves sempre fomos bons guitarristas, modéstia à parte, mas o Pit e o Andre eram (e continuam sendo) excepcionais.

Uma outra curiosidade sobre essa época foi o processo de composição do álbum. O Pit trazia as músicas e a gente (eu, ele e Yves) sentávamos e ensaiávamos as composições no violão. O VIPER sempre foi assim: as músicas sempre nasceram de canções, mesmo, nunca da vontade de 'mostrar que sabia tocar', como algumas bandas desse estilo que vieram depois.

Teve um episódio engraçado: lembro bem de um carnaval que fomos passar em Bebedouro, interior de São Paulo, na casa do Carlos 'Cebola' Eduardo, guitarrista do Exhort. Levamos os violões e passávamos o dia tocando, entre churrascos e cerveja. À noite, íamos no baile da cidade e limpávamos a cabeça ouvindo marchinhas de carnaval. Será que os foliões ali podiam imaginar que na casa em frente estava sendo escrito um álbum como o 'Theatre of Fate'? Duvido. E também não sei por que lembrei desse episódio. São as peças que a memória prega na gente.

Lembro também que em Bebedouro foi composta a música 'Vanguard', que depois se tornaria 'To Live Again'. Lembro que a ideia inicial do Pit era fazer o riff em um cravo, versão antiga do piano, já que a melodia lembrava algo tirado das 'Variações Goldberg', de Bach. A demo que está na versão digipack do 'Theatre', relançada pelo selo Wikimetal, tem uma sonoridade parecida com o que ele queria fazer inicialmente. Mais tarde, acabamos optando por gravar o riff com guitarras, mesmo.

Quando voltamos para São Paulo o Pit terminou mais uma música, 'Prelude to Nowhere'. Acho que é a segunda música que o Pit mais gosta no VIPER (a primeira é 'The Spreading Soul'). 'Prelude to Nowhere' – que depois viraria 'Prelude to Oblivion' – explorava a temática clássica de uma maneira simplesmente surpreendente. Os backing vocals cantando 'Not at all… Not at all' eram muito diferentes de tudo o que a gente já havia ouvido, tanto no Brasil quanto em qualquer lugar do mundo. Não existia um som assim, não havia nenhuma referência para nos influenciar. Apenas Pit Passarell sendo Pit Passarell.

A próxima música composta para o álbum foi uma composição minha e do Pit, 'A Cry From the Edge'. Lembro que fizemos na cozinha da minha casa: primeiro eu trouxe o riff e depois fomos desenvolvendo a parte cantada e o refrão. O riff do começo era perfeito para as pessoas cantarem "ô ô ô ô ô…", o que acabou acontecendo nos shows. 'A Cry From the Edge' falava dos problemas do personagem com drogas, em mais uma letra meio pesada. O disco inteiro acabou se tornando uma história meio triste, um drama como se fosse uma ópera, uma peça de teatro. O teatro do destino – cada um tem o seu. "O mundo inteiro é um palco/E todos os homens e mulheres não passam de meros atores/Entrando e saindo de cena/Cada um representando o seu papel" – William Shakespeare na peça 'As You Like it', de 1600.

Durante os ensaios, o Andre nos apresentou 'Moonlight', versão da Sonata ao Luar, de Beethoven. Lembro que no início estranhamos a versão, porque ela era essencialmente uma balada no piano, sem guitarras, baixo ou bateria. Durante os ensaios, acrescentamos a bateria e a guitarra, e ela foi ficando aos poucos mais parecida com o que ouvimos hoje no álbum. Acabou se tornando uma maneira poética e perfeita para terminar o álbum.

Uma coisa importante a destacar no 'Theatre of Fate' é a bateria: o baterista na época, Val Santos, foi o responsável por muitos dos arranjos das batidas no álbum. Ele participou de todo o processo de ensaios, e embora o Pit chegasse com as composições prontas, tem muita coisa ali que o Val criou. Hoje ele toca guitarra, mas o Val Santos foi um baterista criativo e bastante importante para a sonoridade final do 'Theatre'. Mais tarde, o Guilherme Martin entrou para a banda e fez a turnê de divulgação do disco, adicionando seu toque pessoal aos arranjos.

A penúltima música a entrar no disco foi 'Living for the Night'. Engraçado imaginar que inicialmente ela não tinha a introdução pela qual ficou famosa. Era rápida do início ao fim, bem rock and roll. A gente sempre gostou da composição, mas nunca imaginaríamos que ela viria a se tornar a nossa música mais conhecida.

Com o repertório praticamente pronto, conseguimos que o nosso empresário à época, Antonio Pirani, da Rock Brigade Records, investisse em um elemento que elevaria o disco a outro patamar: trazer um produtor internacional para a gravação. Sabíamos que no Brasil ainda não havia uma escola de bons produtores capazes de deixar o som com uma qualidade em nível mundial, uma vez que os técnicos aqui ainda estavam aprendendo a gravar rock pesado. É sempre bom lembrar que estamos falando de 1989, um ano onde ainda não era possível sequer comprar uma guitarra importada em uma loja de instrumentos.

Graças ao grande amigo, fotógrafo e lenda do rock Eric De Haas, chegamos ao nome de Roy Rowland, um britânico que havia trabalhado com o Testament e o Laaz Rockit. Contatos feitos, Roy topou e chegou ao estúdio da BMG, em Santa Cecília, em julho de 1989.

A chegada do Roy foi uma revolução para a gente. Lembro que éramos quase adolescentes e trabalhar como um cara experiente como o Roy era uma oportunidade única – tentamos aprender ao máximo com ele, deixando de lado a arrogância típica da idade.

A primeira coisa que o Roy fez foi encanar com o Val Santos: disse que o Val poderia ser bom ao vivo, mas no estúdio ele queria alguém com uma pegada mais precisa em relação ao andamento. Surgiu então o nome do Sergio Facci, ex-Vodu, na época no Volkana. Serginho topou na hora e logo vimos que foi uma excelente escolha. Antes da primeira sessão oficial, eu e ele passamos alguns dias no estúdio ensaiando, pegando todos os detalhes dos arranjos de bateria. Como o Serginho é um dos melhores bateristas de rock do Brasil, foi tudo muito rápido. No dia marcado, ele entrou no estúdio e, rapidamente, eternizou a sua parte.

Como produtor experiente, o Roy também mexeu muito nos arranjos das músicas. A introdução lenta de 'Living for the Night' foi o maior exemplo. A música era rápida do começo ao fim, mas o Roy sugeriu que tocássemos a primeira parte no violão. Ficou incrível. Depois, o dedilhado do violão acabou sendo substituído por um som de teclado.

Roy também fez muitas sugestões em relação às letras das músicas. Sugeriu trocar 'End of a Fate' por 'Theatre of Fate', porque 'Fim do Destino' era um título de álbum muito negativo para uma banda que estava começando uma carreira internacional. Disse também que 'Vanguard' não significava porra nenhuma – e não significava mesmo, a gente tinha batizado a música de zoeira e acabou ficando – e sugeriu 'To Live Again', que era uma parte forte da letra. 'Prelude to Nowhere' virou 'Prelude to Oblivion', embora a gente não soubesse muito bem na época o que era 'Oblivion'. Mas, como parecia algo interessante e misterioso, acabou ficando.
Como o álbum já passou a se chamar 'Theatre of Fate', surgiu uma necessidade dramática (pelo menos na cabeça do Roy): o disco precisava de uma introdução. Pit disse que tinha uma ideia (que me lembrou na hora de 'Pseudo Silk Kimono', do Marillion, que a gente adorava) e mostrou o riff que viria a se tornar 'Illusions'.

Nesse meio tempo, trabalhamos com o artista Alberto Torquato na concepção da capa e encarte do álbum. A ideia do Pit era usar um boneco, tipo marionete, naquela mesma posição. O Alberto acabou mudando um pouco a ideia, incluiu alguns detalhes da própria cabeça. O importante é que ficou um trabalho incrível. A arte original (onde estará?) era um quadro, que depois foi fotografado para se tornar a capa do disco. No encarte, incluímos um poema ("Illusions of Time, Lies in My Eyes…") e a ideia do palco com o logo do Viper.

Fim das gravações, Roy Rowland levou o álbum para mixar na Inglaterra. Aguardamos durante umas duas semanas, bastante ansiosos porque não tínhamos nenhuma cópia. E se o Roy morresse no caminho? E se acontecesse alguma coisa com as fitas? E se todo aquele trabalho fosse perdido?
Quis o destino que nada disso acontecesse. Quando recebemos a fita K7 mixada pelo correio, corremos para o estúdio para ouvir pela primeira vez. Não podíamos acreditar. Saímos do estúdio emocionados. Aquilo era lindo, aquilo era um motivo de orgulho. Aquilo era nosso.

Já sabíamos que o mundo inteiro era um palco e que éramos apenas atores entrando e saindo de cena. Há 30 anos, no entanto, descobrimos qual seria o nosso primeiro grande papel: dar origem a 'Theatre of Fate'.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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