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Com produção espetacular, Iron Maiden hipnotiza 61 mil devotos em SP

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10/10/2019 17h00

Flavio Leonel – do site Roque Reverso

O Iron Maiden voltou a São Paulo para trazer ao público local mais uma de suas turnês grandiosas. Com uma produção espetacular e atenta aos mínimos detalhes, o grupo britânico de heavy metal hipnotizou um total de 61.500 devotos presentes no Estádio do Morumbi no domingo, 6 de outubro.

A palavra "devoto" não é um exagero para classificar um tradicional fã de Iron Maiden, especialmente no Brasil.

Vindos de várias partes do Brasil e da América do Sul, eles estavam lá, na tradicional noite fria do Estádio do Morumbi, com suas camisetas pretas de sempre e a expectativa de ver uma das maiores instituições do heavy metal. Para a parte esmagadora deles, é a maior.

Muitos já estavam ali em seu terceiro, quarto, quinto show da banda. Mas havia também os marinheiros de primeira viagem que contavam os segundos para ver aquilo que já haviam observado dias antes no Rock in Rio de 2019.

Por sinal, a missão de superar a apresentação histórica do Rock in Rio era difícil, já que, na capital fluminense, o Iron Maiden havia feito seguramente o melhor show do festival. Ali, foi, no mínimo, o maior espetáculo, naquele que foi o dia mais rock n' roll do evento, com diversas atrações de alto quilate, como Slayer, Scorpions, Anthrax e Sepultura.

Independentemente da possibilidade de superar ou não o Rock in Rio, o show paulista da turnê Legacy of The Beast contava com uma alta dose de ansiedade por parte de todos que estavam no estádio. Estádio, por sinal, praticamente sem espaços para transitar minutos antes da apresentação começar.

Iron Maiden em São Paulo (FOTO: STEPHAN SOLO/MOVIE CONCERTS/DIVULGAÇÃO)

Estrutura e locomoção

Desde a inauguração do Allianz Parque, o Estádio do Morumbi vem perdendo diversos shows no calendário internacional e nacional de eventos. Moderna, de fácil acesso por vários tipos de transporte e de localização privilegiada, a arena do Palmeiras vem tirando do estádio do São Paulo várias apresentações de grande importância e, com isso, muita gente até havia se desacostumado com o local.

Nos shows maiores, como os do U2, Rolling Stones e Metallica, o Morumbi ainda vem sendo o preferido dos produtores pelo fato de ter a capacidade de juntar um número gigante de pessoas em menos noites – enquanto o estádio do São Paulo pode chegar a um público próximo de 70 mil pessoas, a arena do Palmeiras pode contar com um público próximo a 50 mil pessoas . Em 2016, o Iron Maiden chegou a tocar no Allianz Parque e, a despeito do show ter sido ótimo, foi notado um certo aperto dentro do estádio, já que a banda tocou apenas numa noite e a procura de ingressos foi grande.

A questão é que o Morumbi, com o passar do tempo, parece ter piorado em algumas questões que já causavam problemas desde shows com públicos inimagináveis hoje em dia, como o do U2 na PopMart, em 1998, quando o grupo tocou duas noites para um público em torno de 100 mil pessoas nos dois dias.

O número de entradas e saídas, no estádio, continua pequeno e, com algumas alterações recentes, envolvendo a criação cada vez maior de camarotes, a sensação é de que o local ficou mais apertado hoje do que em outras décadas. Quem tentou se mover em vários pontos da Pista, Comum ou Vip, perto do local de venda de cerveja no domingo, pegou filas imensas só para atravessar de um lado para o outro.

O mesmo vale para a saída do estádio, já que, com os poucos locais de escoamento, foi preciso muita paciência.

De ponto positivo com o Morumbi atual, vale destacar a estação de metrô inaugurada perto do estádio. Com essa vantagem, a tendência agora será cada vez mais as pessoas desembarcarem na estação, que fica praticamente no cruzamento da Avenida Professor Francisco Morato com a Avenida Jorge João Saad, desafogando o trânsito tradicionalmente ruim da região em dias de shows.

O show

Após a já tradicional música "Doctor Doctor", do UFO, os fãs já sabiam que o Iron Maiden viria com tudo ao palco. E foi da melhor maneira possível, já que o grupo entrou com nada menos que o clássico "Aces High".

Com uma réplica de um avião da Segunda Guerra Mundial, o Spitfire, o Iron Maiden já deixou logo de cara os fãs de boca aberta com aquele tamanho de aeronave simulando um voo sobre as cabeças dos músicos, com direito à hélice girando e manobras.

O vocalista Bruce Dickinson, um dos maiores frontmen da história de toda a música, já está num nível bem perto dos atores de teatro quando conduz o show do Iron Maiden. Com roupas e performances diferentes no decorrer da apresentação, ele é parte fundamental para manter o público ligado a cada canção. Em "Aces High", por exemplo, ele entrou vestido como um aviador, mais precisamente um aviador da Segunda Guerra Mundial.

Os guitarristas Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers, além do "big boss" Steve Harris (baixo) e do figuraça Nicko McBrain (bateria), são a garantia sonora perfeita para a viagem que a banda já proporciona há mais de quatro décadas.

O set list executado pelo Iron Maiden na turnê vêm sendo idêntico nos shows. No caso da apresentação na capital paulista, nada mudou em relação ao repertório visto no Rock in Rio.

A banda incluiu neste retorno ao Brasil faixas que há tempos não eram executadas no País, como "Flight of Icarus", que não era tocada desde o Rock in Rio de 1985, e "Revelations", que foi ouvida por aqui pela última vez na turnê da banda trazida em 2008. Também houve espaço para a inclusão da aqui inédita "Where Eagles Dare", que, como as duas anteriores, faz parte do clássico álbum "Piece of Mind", de 1983.

Foi exatamente "Where Eagles Dare" que foi tocada logo após "Aces High", com direito a Bruce Dickinson vestindo uma camisa de força, tal qual o mascote Eddie na capa do álbum. Para os fãs mais antigos, foi a realização de um sonho ver uma das melhores músicas do disco ser executada ao vivo, algo inimaginável em vindas anteriores do grupo, especialmente nos Anos 90, quando havia um repertório quase fixo com clássicos e a inclusão de músicas do disco da vez.

"Scream for me, São Paulo", gritou Bruce Dickinson diversas vezes durante a música, levando o público ao delírio.

Após a sempre presente "2 Minutes to Midnight", foi a vez do Iron Maiden executar a trica formada por "The Clansman", "The Trooper" e "Revelations", cada uma delas com um elemento diferente que chamou a atenção dos mais ligados em detalhes.

Antes de "The Clasman", Bruce Dickinson tratou de provocar o público paulista, lembrando que, dias antes, o grupo havia feito "um pequeno show" no Rock in Rio e que, para alguns, aquele havia sido o melhor do festival. Na provocação, disse que a apresentação de São Paulo seria a melhor no Brasil, empolgando a plateia.

Este recurso do vocalista já é algo bem manjado, já que ele havia adotado esta tática em 2013, quando o grupo tocou no Rock in Rio daquele ano e na Arena Anhembi. Na ocasião, chegou a perguntar para público paulistano o porquê de não existir "Rock in São Paulo"…

Vale destacar o capricho dos panos de fundo do palco. Em "The Clasman", a figura de Eddie lutando´no estilo William Wallace chamou demais a atenção, especialmente pelas cores muito lindas que foram usadas.

Na sequência, a sempre presente "The Trooper" fez o mascote Eddie subir ao palco para um duelo de espadas com Bruce Dickinson. Foi interessante notar a mudança relação a shows anteriores, já que quem ficava mais tempo nos duelos com Eddie era o guitarrista Janick Gers.

Veio então "Revelations" e um daqueles momentos para se guardar na mente para o resto da vida. A música foi cantada do início ao fim pela plateia e ainda teve um cenário magnífico, com uma riqueza de detalhes impressionante na pintura dos vitrais que ficaram ao fundo.

Houve espaço para músicas não tão badaladas como os clássicos na sequência do show. A rara "For the Greater Good of God", a interessante "The Wicker Man" e a ótima "Sign of the Cross" serviram para dar um respiro para público.

Depois disso, não houve mais tempo para respiro, já que só clássicos foram apresentados no Estádio do Morumbi, a começar logo de cara com a aguardadíssima "Flight of Icarus". Além de gerar um dos maiores coros do show, ela trouxe Bruce Dickinson empunhando uma espécie de lança chamas que elevou ainda mais o nível do espetáculo no Morumbi.

Importante destacar que, para lidar com este tipo de equipamento, é preciso conhecimento. Basta lembrar o acidente sofrido pelo vocalista do Metallica, James Hetifield, nos Anos 90, quando, sem empunhar um lança chamas, ele acabou com os braços queimados depois de uma explosão de fogos de artifício. Mas Bruce mostrou que estava afiadíssimo no controle do equipamento, não gerando qualquer tipo de problema.

"Fear of the Dark", "The Number of the Beast", "Iron Maiden" e "The Evil That Men Do" fecharam a primeira parte do show com aquele tom apoteótico.

Na primeira, o Estádio do Morumbi inteiro ficou iluminado por luzes de celular, dando um efeito maravilhoso ao imenso coral do público. Na segunda, a execução de uma das maiores músicas da história do rock continua emocionando o púbico. Na terceira, um Eddie gigantesco apareceu no fundo do palco, ampliando a qualidade do espetáculo.

Pausa para um breve descanso, enquanto a público gritava o nome da banda.

O retorno ao palco foi para executar "The Evil That Men Do", que fez a plateia cantar do início ao fim. Depois dela, foi a vez "Hallowed Be Thy Name", com direito a Bruce Dickinson segurando uma corda de forca, e Run to the Hills, que fechou a apresentação com chave de ouro.

Houve quem acreditasse que o show do Iron Maiden no Estádio do Morumbi havia superado o do Rock in Rio, mas, analisando friamente, isso não aconteceu. Público maior, transmissão ao vivo para o mundo, palco maior e mais imponente, além daquele energia que só o Rock in Rio tem, são só alguns dos fatores que fizeram o show do festival carioca entrar para a história.

Em São Paulo, não há dúvida de que o show foi ótimo. Bastava ver a satisfação na cara das pessoas para constatar isso.

Alguns clássicos, como "Wasted Years", "Running Free", "Powerslave" e "Rime of the Ancient Mariner" sempre fazem falta, mas já haviam sido tocadas em vindas anteriores, além de não fazer parte do repertório da turnê atual.

O que se viu no Estádio do Morumbi foi um verdadeiro espetáculo musical protagonizado por uma das maiores bandas do planeta.

Quem assistiu ao show do grupo, no Rio ou em São Paulo, guardará para sempre grandes lembranças para contar para filhos e netos.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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