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Luto na bateria: morre Ginger Baker, um dos mestres do instrumento

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06/10/2019 11h07

Marcelo Moreira

A fortaleza rítmica do rock britânico sempre atendeu pelo nome de Ginger Baker. Se John Bonham (Led Zeppelin) era a locomotiva do rock, se Keith Moon (The Who) era a versatilidade e o virtuosismo na bateria, e se Ringo Starr (Beatles) e Charlie Watts (Rolling Stones ) eram a segurança do som, Baker era a própria precisão e inventividade dentro de um gênero onde os bateristas demoraram a se destacar.

O monstro Ginger Baker, que morreu neste domingo, aos 80 anos de idade, sempre foi um vulcão sonoro e uma personalidade irrequieta e irascível, Ao completar 80 anos em 2019, ainda era mais conhecido, em alguns meios, pelas brigas com com baixista companheiro de Cream Jack Bruce do que pelas suas virtudes.

Segundo informações da família, ele morreu serenamente no hospital em que estava internado desde o mês passado. A causa da morte não informada até o momento.

Há algum tempo afastado do mercado musical, Baker ficou extremamente abalado com a morte do desafeto Bruce em 2014, aos 71 anos, em consequência de problemas hepáticos. Apesar das históricas brigas e diferenças musicais, eram duas personalidades que se respeitavam profissionalmente.

Desde então, diminuiu as aparições públicas e gradativamente se afastou das atividades musicais e das raivosas entrevistas que eram exploradas sensacionalisticamente pela imprensa inglesa.

Um personagem singular

O velho Peter destoava da cena musical de Londres naqueles fervilhantes anos 60. E destoava justamente por ser mais velho do que a grande maioria dos colegas.

Admirado por seu estilo jazzístico vigoroso, mas criativo, frequentemente era chamado pra tocar bateria em tudo o que era tipo de banda, fazendo jazz, blues, rhythm & blues, soul, qualquer coisa.

Da mesma forma que era muito requisitado, era meio que detestado em alguns círculos. Irascível, nervosinho, reclamão e briguento, o velho Peter Baker, que logo ganharia o apelido de Ginger, em breve se tornaria uma lenda na cidade, embora não tivesse muitos amigos.

Apesar da personalidade difícil, Ginger Baker, que acaba de completar 80 anos de idade, virou um astro cult do rock e do blues, reconhecido como um dos grandes estilistas do gênero musical.

Ginger Baker nos anos 80 (FOTO: WIKIPEDIA/FACEBOOK)

Há quem diga que o auge da carreira Baker foi ao lado de Eric Clapton no Cream e na banda sucessora e efêmera, Blind Faith. Talvez seja o período em que sua pegada clássica e precisa tenha tido mais impacto, mas é difícil apontar o seu auge em uma carreira com mais de 60 anos.

O rock logo surgiu na vida musical de Baker com a banda Graham Bond Organisation, onde fez a seção rítmica ao lado do desafeto de sua vida inteira, o baixista escocês Jack Bruce, quatro anos mais novo e que morreu em 2014.

Exímios instrumentistas e com egos imensos, se estranharam logo de cara e passaram pouco mais de um ano rosnando no palco um para o outro.

Estilista e metódico, Baker se achava um músico completo e não gostava de ter de se adaptar aos devaneios e floreios de outro gênio, mas indomado e adepto de uma espécie de free jazz.

Uma usina poderosa 

Cada um a seu tempo, saíram da banda e buscavam novos projetos quando um surpreendente Eric Clapton, já famoso em 1966 como o melhor guitarrista da Inglaterra e braço direito do venerável blueseiro John Mayall, bateu na porta do apartamento do baterista.

A ideia era fazer uma jam band baseada no blues, e Baker fora o escolhido. Só que tinha um porém: o baixista e vocalista principal do trio teria de ser Jack Bruce.

O baterista achou que fosse brincadeira, mas Clapton falava sério. Baker pensou durante uma semana e aceitou o convite para ir com o guitarrista convencer Bruce a aceitar. Este o fez, de forma relutante.

O Cream surgiu como um terremoto e esgrimiu, hits, alta qualidade, peso e muitos solos de guitarra com a Jimi Hendrix Experience, a grande rival do trio – ironicamente, Clapton e Hendrix se tornaram muito amigos logo após a chegada do norte-americano a Londres, no final de 1966.

Foram pouco mais de dois anos de genialidade despejada em forma de blues, jazz e rock pesado, tudo temperado pelo mau humor de Baker e pelas provocações de Bruce, enquanto Clapton se perguntava onde tinha errado, apesar do sucesso.

O Cream de separa em dezembro de 1968 oficialmente, e no mês seguinte Clapton mais uma vez convence o baterista a seguir em um novo projeto, ao lado do menino prodígio Steve Winwood, tecladista e vocalista do Traffic, e do baixista Rich Grech (também grafado como Ric, francês de nascimento, mas de origem ucraniana).

A ambição era maior ainda, com a tentativa de unir blues, jazz e rock progressivo. Deu tudo certo no estúdio e o álbum, que levava o nome da banda, Blind Faith, é excelente.

O problema foi que o grupo não funcionou no palco. Na turnê norte-americana de 1969, os músicos perceberam que faltava algo e logo se desinteressaram, para desgosto de Clapton. O grupo só durou sete meses.

Nos anos 70, Baker se tornou referência de bateria bem tocada e de projetos de muita qualidade, ainda que com sucesso aquém do esperado, como Baker Gurvitz Army e Ginger Baker's Air Force.

Pouvco afeito a turnês extensas, passou um tempo na Nigéria, onde mintou um estúdio de gravação que recebeu ninguém menos do que Paul McCartney.

Remanescente de uma época onde a música tinha mais "liberdade" (pelo menos na visão de muitos artistas puristas), Ginger Baker se tornou um produtor exigente e um personagem arisco, pouco afeito a entrevistas ou a reuniões sociais. Nem mesmo a reunião do Cream pra alguns shows concorridos, em 2005, melhorou um pouco seu humor azedo.

A bateria do rock costuma ter como referências dínamos de energia e virtuosismo como John Bonham (Led Zeppelin), Keith Moon (The Who) ou Bill Ward (Black Sabbath), mas certamente Baker ocupa um espaço gigantesco no panteão dos mestres da bateria, a ponto de outro gênio, Ian Paice (Deep Purple), ter declarado certa vez que o baterista do Cream foi uma de suas inspirações.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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