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Combate Rock

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Como pensa um roqueiro extremista de direita: um rápido perfil

Combate Rock

10/09/2019 06h49

Marcelo Moreira

FOTO: Mireya Peter Martínez – Flickr

Guitarrista que adora exibir suas duas ou três Ibanez importadas. Branco. Classe média abastada de bairro bom da zona oeste de São Paulo. Banda de heavy metal que toca em boteco caro, mas sem cachê. Fanático por João Doria (PSDB).

Odeia o PT, apoia policiais militares assassinos. Odeia imprensa, mesmo que desconheça o nome da maioria de jornais, revistas e sites informativos. Acrerdita em tudo o que chega por whatsapp. É católico e vai de vez em quando a qualquer tipo de igreja ou seita.

Esse tipo de gente nefasta e burra ousou criticar um texto do Combate Rock que massacrava o desmonte do meio ambiente, da cultura, da educação e a reintrodução da censura. Sua indigência intelectual não resistiu a dez minutos de troca de mensagens nas rede sociais.

Algumas pérolas:

"O PT acabou com o país, é sinônimo de corrupção, queria implantar a ditadura comunista no Brasil." (O PT ficou quase 14 anos no poder e não me parece que tivemos qualquer resquício de ditadura)

"O PT comprou a TV Globo e quer acabar com a Lava-Jato." (Curiosamente, a Lava-Jato prendeu o maior líder do PT, enquanto o atual presidente faz de tudo para atrapalhar a operação e evitar a investigação de parentes e amigos)

"Bandido tem que morrer. Depois que a esquerda inventou os direitos humanos o número de mortes no Brasil e no mundo explodiu." (Para esse retardado, foi o PT que inventou a violência)

"Direitos humanos é coisa de viado, de quem defende bandido." (Sem comentários)

"Artista que se mete em política tenm de apanhar e ser preso. Por isso é que o rock acabou e a MPB é uma merda e o agode e o sertanejo fazem sucesso. Esses só pensam em divertir as pessoas e estão milionários." (Sem comentários)

"Policial mililtar é herói, é um guerreiro que combate o crime e não é valorizado. Cumpre o seu papel e ainda recebe críticas e xingamentos. As polícias deveriam ter poder total, como no Rio." (Seu perfil e o de vários amigos nas redes sociais estão recheados de fotos de policiais, símbolos da PM e selfies com militares)

"Favelas são redutos de vagabundos e ladrões." (Sem comentários)

"Tem que ter censura mesmo, o país está uma bagunça, qualquer merda é publicada em livros e jornais, a TV é uma vergonha. Não tem de dar dinheiro para artista vagabundo ficar pelado ou fazer poesia e letra de música xingando político e louvando ditadura cominista." (Sem comentários)

"Quem critica a religião tem de ser preso, é gente do mal, que não tem decência." (Esse discurso papa-hóstia, curiosamente, é vomitado por um integrante de uma banda que faz versões para "Number of the Beast", do Iron Maiden, uma "canção satânica". Alguns dos amiguinhos dizem gostar do Slayer…)

Como era previsível, o texto do cidadão é sofrível, recheado de atentados à língua portuguesa e com extrema dificuldade para expressar ideias. Fatos históricos e informações verídicas não são suficientes nem ao menos para que haja alguma dúvida no cérebro diminuto do cidadão.

Muita gente boa do nosso meio roqueiro ainda acredita que esse tipo de gente está relegada a alguns guetos, que o apoio a Bolsonaro e a teses de extrema-direita é menor do que acreditamos.

Estão errados, e muito errados. O ser execrável que vomita tais ideias tem a companhia de muita gente no meio artístico, muito mais do que gostaríamos de acreditar.

O perfil do elemento em uma das redes sociais até que é bem movimentado, mas é uma bolha onde proliferam todo tipo de bobagem, desde terraplanismo até os lixos de Olavo de Carvalho, entremeados com algum comentário inútil sobre música. Há músicos sérios e com prestígio que o seguem e, pasmem, curtem algumas das bobagens, o que é mais aterrador.

Comporta-se como um autômato, daqueles que repetem o lixo que recebem – não existe aquecimento global, homossexualismo tem de ser banido, deus acima de tudo, holocausto não existiu, os EUA são muuuuuuito melhor…

Eis então que temos um perfil médio de uma parcela muito, mas muito expressiva de roqueiros conservadores de extrema-direita que infestam o nosso meio e que, na falta de argumentos (na verdade, na falta de um único argumento), vocifera palavras de ordem de cunho fascista destilando ódio, preconceito, todo o tipo de discriminação e violência verbal.

Eu já tinha sido alertado sobre a existência desse tipo de roqueiro em grandes quantidades em várias capitais. Até pouco tempo atrás eu também achava que eram minorias encasteladas em guetos, que tinham vergonha de se expor para não revelar a indigência intlectual.

Dois bons amigos, no entanto, me convenceram de que a minoria não é pequena – é estridente e verborrágica, o que intimida e desanima quem se atreve a tentar algum diálogo.

Apresentado ao perfil desse ser inominável, fiz comentários provocativos ns redes sociais e ver como o crápula se comportava. Previsívil e execrável, não me surpreendi com suas reações e suas palavras. Quando o seu parco limite intelectual se esgarçou, só lhe restou me bloquear.

Até é possível respeitar gente conservadora e de direita, mas que tenha repertório e que saba conversar. É de se lamentar, mas até dá, com algum esforço, tolerar quem tem informação, mas acaba caindo na extrema-direita. No entanto, não dá para tolerar fascistas. Não dá para tolerar artista que defende censura de qualquer tipo.

Infelizmentre, teremos de nos acostumar com a proliferação desse tipo de roqueiro conservador de inspiração fascista. Teremos de nos acostumar a ver esses seres ignominiosos saírem do armário e destilarem todo o seu ódio à liberdade de imprensa, opinião e expressão. Os termpos ficarão mais difíceis.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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