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Jeff Beck é o principal estilista da guitarra rock

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31/08/2019 07h03

Marcelo Moreira

jeff1FOTO: DIVULGAÇÃO

A cena é antológica – e raríssima: a banda toca um rock furioso em um pequeno teatro de escola para uma plateia chapada e anestesiada. O ator principal, em sua paranoia, entra no recinto à procura de alguém e se admira com a hipnose provocada pelo quinteto.

Algumas pessoas dançam mecanicamente sob o efeito do ácido ou da maconha. De repente uma das guitarras começa a falhar, irritando seu "dono".

Depois de seguidos "brancos", ele fica possesso e resolve destruir o instrumento contra os amplificadores. Imediatamente, a plateia sai do transe e um tumulto generalizado ocorre dentro do teatro.

A banda em questão são os Yardbirds, que na ocasião executaram "Stroll On" e que tinha como dupla de guitarristas Jeff Beck e Jimmy Page, amigos desde a infância.

A cena está registrada no mítico filme "Blow Up – Depois Daquele Beijo", de Michelangelo Antonioni, filmado e lançado em 1966 – originalmente, a banda escolhida era The Who, que recusou participar.

A imagem é raríssima porque é a única que registra Beck e Page juntos na banda – já que meses depois o primeiro sairia para uma carreira solo bem-sucedida, mas acidentada, o que seria uma característica de sua personalidade.

Mestre das seis cordas e considerado referência para toda uma geração – ao lado de Page, Jimi Hendrix, Eric Clapton e Keith Richards -, Jeff Beck é mais do que estilista do instrumento: é a sua própria encarnação.

Flagrantes do filme 'Blow Up' (REPRODUÇÃO DE DVD)

Flagrantes do filme 'Blow Up' (REPRODUÇÃO DE DVD)

É um dos poucos músicos da humanidade que é capaz de ser reconhecido imediatamente pelo timbre que consegue -um grupo restrito que inclui Hendrix, Miles Davis, John Coltrane, Muddy Waters, Little Walter, Eric Clapton, Keith Richards, Ritchie Blackmore, Rick Wakeman, Keith Emerson, Keith Moon, Jaco Pastorius, Buddy Rich e mais alguns outros.

Recluso, ranzinza e temperamental, quase sempre impôs sua vontade e nunca teve dúvidas de como conduzir sua carreira, ainda que o caminho fosse tempestuoso e pouco recomendável – sorte de quem admira a boa música.

Embora fosse quase profissional com sua primeira banda de verdade, The Tridents, tornou-se músico de verdade quando foi indicado por Jimmy Page para substituir Eric Clapton nos então emergentes Yardbirds em 1965.

Page era músico de estúdio e muitíssimo amigo de Clapton. Este estava saindo atritado da banda e não aceitou o convite para substituí-lo – não queria chateá-lo, mas o fato é que ganhava mais como músico de estúdio.

 

Cena do filme 'Blow Up': Beck está prestes a quebrar a guitarra no amplificador (FOTO: REPRODUÇÃO DE DVD)

Cena do filme 'Blow Up': Beck está prestes a quebrar a guitarra no amplificador (FOTO: REPRODUÇÃO DE DVD)

Como também era amigo de ensaios de Beck desde a adolescência, indicou o impetuoso guitarrista de 19 anos de idade. Um ano depois, Page decidiu largar o estúdio e aceitou entrar nos Yardbirds para tocar baixo, no lugar de Paul Samwell-Smith, outro que brigara com todo mundo. Chris Dreja, o outro guitarrista, sentiu a barra pesar e logo propôs assumir o baixo, para deixar Page livre nos duelos com o amigo.

A personalidade inquieta de Beck não suportou dividir os holofotes com o futuro líder do Led Zeppelin. Não brigou com Page, mas abandonou os Yardbirds no meio de uma turnê pelos Estados Unidos em 1966, exacerbando a sua insatisfação co os rumos mais psicodélicos e menos blueseiros do quinteto.

Page não gostou, mas não levou para a frente a birra com o amigo temperamental, tanto que o ajudou a montar logo em seguida o Jeff Beck Group, que tinha Rod Stewart nos vocais e o futuro stone Ron Wood no baixo.

Blues pesado e extremo, influenciado por Jimi hendrix Experience e Cream, e um pouco menos por The Who, Beck passou um ano ao vivo lapidando seu quarteto extraordinário (c0mpletado pelo competente baterista Mick Waller).

Foto rara da formação dos Yardbirds com os dois magos da guitarra: em cima, Jimmy Page (esq,) e Jeff Beck; embaixo, Keith Relf (esq., vocalista), Jim McCarthy (bateria) e Chris Dreja (baixo) (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Foto rara da formação dos Yardbirds com os dois magos da guitarra: em cima, Jimmy Page (esq,) e Jeff Beck; embaixo, Keith Relf (esq., vocalista), Jim McCarthy (bateria) e Chris Dreja (baixo) (FOTO: DIVULGAÇÃO)

"Truth", o álbum de 1968, é puro blues aditivado, com uma guitarra possessa e demoníaca, e vocais ensandecidos. Jimmy Page ajudou a produzir o álbum e ainda compôs a instrumental "Beck's Bolero", duelando com o amigo e ainda contando com a participação da cozinha do Who – Keith Moon (bateria) e John Entwistle (baixo).

Foi durante essa sessão de gravação que Entwistle e Page começaram as conversas para montar uma nova banda, tendo Beck e Moon no time. As coisas não andavam boas no Who e a cozinha queria debandar.

Beck gostou da ideia de dividir os vocais com Entwistle, mas Moon tratou de desarmar a "bomba", afirmando depois de muita cerveja ao final da gravação que não daria certo.

"Uma banda como essa, pesada e louca, não subiria nas paradas. Seria o mesmo que a gente esperasse que um zepelim de chumbo voasse", disse o alegre e piadista baterista.

Aquele zepelim não voou, mas Page não esqueceu a piada: em meados de 1968, com os Yardbirds esfacelados e seus integrantes debandados, chamou dois novatos e um mestre dos estúdios para cumprir algumas datas pendentes e finalmente criar o seu grande porjeto em setembro, o Led Zeppelin.

O Jeff Beck Group parecia decolar cada vez mais, só que a insatisfação pessoal e musical de Beck predominou. O segundo álbum, "Beck Ola", de 1969, manteve o excelente nível do anterior, mas o ego falou mais alto: ao final de um show em San Francisco, alguém entrou no camarim e se dirigiu a Rod Stewart, dizendo "Parabéns, Beck, você foi muito bem. e o seu guitarrista parece ser muito bom".

Foi a senha para o fim daquela encarnação no retorno a Londres. O guitarrista resolveu abraçar o rhythm and blues e o soul, gravando dois álbuns neste estilo com músicos renomados norte-americanos, enquanto que Stewart e Wood se juntaram ao trio remanescente dos Small Faces para criar uma lenda dos anos anos 70, The Faces.

Jeff beck Group em 1968: Rod Stewart, Ronnie Wood, Mick Waller e and Jeff Beck (FOTO: Michael Ochs Archives/Getty Images)

Jeff beck Group em 1968: Rod Stewart, Ronnie Wood, Mick Waller e and Jeff Beck
(FOTO: Michael Ochs Archives/Getty Images)

A fase soul-funk de Beck foi prolífica e bastante criativa, mas não rendeu dinheiro e sucessos esperados. Foi a deixa para mandar todo mundo embora e abraçar o hard rock quase heavy metal em 1972.

Com os norte-americanos Tim Bogert (baixo e vocal) e Carmine Appice (bateria), ambos vindos do Vanilla Fudge e do Cactus, criou a locomotiva Beck, Bogert and Appice, power trio na melhor acepção do termo. Incendiário e furioso, durou o tempo exato das ambições de Beck: um álbum de estúdio e outro ao vivo.

Sem se dar ao trabalho de avisar os dois colegas, embarcou em vários projetos paralelos e decidiu finalmente por uma carreira solo surpreendendo todo mundo, abraçando o jazz. E tome mais obras primas com "Blow by Blow" (1975) e "Wired" (1976), na melhor tradição instrumental.

Em 1977 começa uma associação com a banda do tecladista norte-americano Jan Hammer, que depois ficaria famoso como compositor de trilhas sonoras para o cinema.

Embora lucrativa, a fase não foi tão inspirada, jogando Beck em um período sabático longo. Voltaria apenas em 1984 com o superestimado "Flash", álbum em que retoma a parceria com Rod Stewart no clássico "People Get Ready".

O som ficou mais modernoso e pesado em "Jeff Beck's Guitar Shop", de 1989, seguindo a tendência do álbum anterior, com o uso muito teclado e guitarras com efeitos sintetizados, ao mesmo tempo em que se aventurava em trilhas sonoras de filmes, com uma colaboração improvável com Jon Bon Jovi para a trilha de "Blaze of Glory", estrelado pelo cantor do Bon Jovi.

Os anos 90 marcam novo período sabático, com o seu ressurgimento em 1999 com "Who Else", que marca uma guinada para a música eletrônica, o que desagradou bastante os puristas sem, no entanto, agregar um novo público. Apesar da música eletrônica ter imprimido um tom artificial, o álbum tem bons momentos, como "Brush with the Blues" e "Declan".

Só de pirraça, ele insistiu na praga eletrônica e cometeu mais dois álbuns pouquíssimo inspirados, "You Had It Coming" (2001) e "Jeff" (2003) antes de mergulhar em outro período de silêncio.

Renovado e mais blueseiro, chamou a prodígio do baixo australiana Tal Wilkenfeld para cair na estrada em 2007 respirando blues e se tornando um dos eixos do Crossroads Blues Festival, de Eric Clapton.

Em 2010, após novo hiato nos palcos e nas gravações, lança um tremendo álbu, "Emotion and Commotion", em que passeia pelo blues, pelo jazz, pelo cancioneiro norte-americano sofisticado e pela música erudita.

Para surpreender a todos, "Loud Hailer", de 2016, é outra pancada no ideário roqueiro daqueles ainda presos ao classic rock. Flertando com o hip hop e com ritmos eletrônicos mais modernos, concebeu uma obra que trouxe frescor à carreira longeva e ao próprio rock do século XXI.

Irascível, genioso e arrogante, Jeff Beck foi um músico que alargou as fronteiras da música popular. Inquieto e insinuante, estabeleceu padrões elevados dentro do mercado musical e raramente fez concessões.

O rótulo de "gênio" concedido a ele é uma unanimidaden entre músicos, produtores e fãs, um dos poucos artistas a ser nomeados três vezes no Rock and Roll Hall of Fame – com os Yardbirds, com o Jeff Beck Group e como artista solo.

 

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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