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Combate Rock

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A vida era mais simples nos palcos dos festivais escolares

Combate Rock

04/08/2019 07h16

Marcelo Moreira

FOTO: REPRODUÇÃO/YOUTUBE)04

O Colégio Integrado de Guarulhos cismou de fazer um festival musical em 1985 após algumas bem-sucedidas sessões de cinema no amplo anfiteatro do campus localizado nos limites da Vila Rosália e Vila Galvão.

Dentro das instalações da cinquentenária Faculdades Integradas de Guarulhos, hoje Unifig, o anfeiteatro era um dos principais da cidade naquela década.

A ideia era muito legal, já que o conservadorismo dos mantenedores da entidade de ensino era um fator de irritação constante dos alunos em tempos de fim do regime militar e início da Nova República, embalada pela ascensão do rock nacional e pela redescoberta de Raul Seixas, então no final da vida (embora ninguém soubesse disso na época).

Muita gente se inscreveu e os covers praticamente dominaram as apresentações dos alunos. A MPB e o rock predominaram, além de algumas tentativas frustradas de uns posudos na área da música erudita – piano e erudito. Música autoral? Quase nenhuma.

Uma das coordenadoras pedagógicas estava receosa desde a decisão de realizar o festival. Filhotinha da ditadura, ainda longe dos 40 anos de idade e lacaia dos mantenedores, queria porque queria controlar tudo e exigia ter em mãos todos so repertórios com antecedência. Foi completamente ignorada.

Para a sua sorte, os três dias de festival, sempre pelas manhãs e começo da tarde, sendo que o primeiro dia, uma quarta-feira, houve ma sessao noturna, correram sem solavancos e comomo previsto.

Uma música de Caetano Veloso aqui, uma de Gilberto Gil ali, uma canção de Boca Livre, outra de 14 Bis, duas de Raul Seixas, duas de Rita Lee…

A banda 14 Bis era uma das favoritas do pessal da MPB no começo dos anos 80 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Teve até mesmo uma bela, mas arrastada, versão de "Whole Lotta Love", do Led Zeppelin, com direito a um desempenho chocante do jovem guitarrista Rogério Baccelli na guitarra, abusando dos sons com o arco do violino, imitando até a pose de Jimmy Page.

A última banda a se apresentar era um combo reunindo alunos dos então segundos e terceiros anos do colegial, hoje ensino médio. Quase sem nenhum ensaio, apostaram em uma jam session bagunçada com uma mistura de U2 e Legião Urbana, com pitadas de Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho.

E eis que a surpresa maior foi a última canção, uma versão zoneada de "Marylou", do Ultraje a Rigor, com seus refrõs sugestivos, emendada em uma podre paródia de "Sílvia", do Camisa de Vênus.

Foi tudo calculado, evidentemente. Mas a coordenadora pedagógica fossilizada e saudosa ds tempos de chumbo pressentia que algo iria ocorrer e se postou, durante todo o show, no palco, ao lado da bateria.

"Marylou" e "Sílvia" não estavam no repertório alardeado pela turma e causou alvoroço. O teatro lotado veio abaixo e todo mundo começu a dançar e a entoar os palavrões sugeridos pelos refrões.

Em pânico, a coordenadora pedagógica jurássica, apesar dos pouco mais de 30 anos, tentou inutilmente arrancar os cabos dos amplificadores. Não conseguindo, tentou chutá-los. Diante de novo insucesso, invadiu o palco e tentou "roubar" os três microfones.

Frustrada por não conseguir nem mesmo tirá-los do suporte, terminou o festival chorando e sendo jogada de um lado para o outro pelos músicos que bradavam todos os palavrões possíveis.

Compreensivelmente, ela tirou três meses de licença médica. Compreensivelmente, todas as imagens de todo o festival sumiram – posteriormente, soubemos que foram apagadas a mando do dono da faculdade e do colégio.

E, compreensivelmente, a ousadia da molecada (ousadia?) custou o cancelamento do festival musical por muitos anos. E pensar que esse tipo de rebeldia hoje é visto como uma atitude de ingenuidade abissal…

Faxzia meses que a molecada da época estava livre do jugo militar e ainda tateava em relação aos limites que poderiam ser esgarçados.

Muita gente já estava chutando a porta, e muito empo antes, como os punks pulistanos e do ABC e o pessoal dol metal, que usava o rock pesado para falar do cotidiano e de política, embora de maneira bem divergente em relação aos punks.

No entanto, estes iluminados e seus fãs ainda eram poucos e compunham grupos marginais vistos como marginais – e eram o sonho de consumo dos policiais militares e meganhas da Polícia Civil. A

Afinal, o regime mlitar tinha acabado em março de 1985, com a posse do presidente José Sarney, mas ninguém tinha dito formalmente que os procedimentos tinha de mudar.

Álbum fundamental da música brasileira, um símbolo da resistência e da contestação – festival Começo do Fim do Mundo, no Sesc Pompeia, em 1982

A repressão, portanto, era a mesma, assim como os preconceitos e o "desejo" de manter a ordem e o progresso…

E assim, portanto, portanto, nada tinha mudado de verdade em relação a 1984, 1983, 1982, 1981 para punks e metaleiros, já que a borracha dos cassetetes continuou cantand nas costas dos "rebeldes" e "marginais".

A molecagem dos caras do Integrado, assim, não passou de mera pirraça. Se era difícil para os punks saber meio que exatamente até onde esgarçar os limites da "tolerância" da moral e dos bons costumes, imagine então como era para um bando de adolescentes da periferia, de um colégio da Grande São Paulo, que se divertia inserindo os palavrões em uma canção ridícula e ginasiana como "Mary Lou".

Até pode ter sido um aprendizado, mas o recorte do Colégio Integrado de Guarulhos é m pequeno retrato de como a reconstrução de uma vida cultural teria de demolir paredes, preconceitos e um aparato repressivo de duas décadas anteriores para celebrar o direito de fazer música autoral livremente – e o direito de tocar o que desse na telha em festivais amadores de música sem que ma alucinada coordenadora pedagógica tentasse, em pânico, arrancar os cabos dos amplificadores.

Trinta e quatro anos depois, somos surpreendidos (surpreendidos?) com policiaisa militares intimidando e interrompendo apresentações de rock para reprimir manifestações políticas contrárias a um presidente de extrema-direita com nítida inspiração fascista.

A intimidação ao cantor BNegão em Bonito (MS) e à vabda Escombro em Brasília (DF) fazem parte de um modo de operação que  conta com o apoio e o estímulo de parte expressiva das autoridades e da população, erodindo a liberdade de expressão e corroendo a democracia.

Mais grave ainda é quado policiais militares, ignorando a Constituição e solapando os direitos humanos, forçam o cancelamento de um festival punk em Belém (PA), o Facada Fest, e decidem que podem invadir um evento político de um partido de esquerda pra "monitorar" os participantes – no caso, o Enconmtro Estadual de mulheres do PSOL, em São Paulo.

São 34 anos de distância de um passado sombrio, mas que apontava para uma longa caminhada rumo à democracia e à plena liberdade de expressão.

A ingenuidade de uma coordenadora pedagógica de um colégio de periferia contrastava cos os resquícios do período mais trágico da vida social brasileira, que foi a ditadura militar que existiu entre 1964 e 1985.

Reprodução da capa da edição brasileira do livro "Liberdade de Expressão: Dez Princípios para Um Mundo Interligado", de Timothy Garton Ash

Naquele festival do Colégio Integrado, poucos meses depois da posse de Sarney, substituindo Tancredo Neves, o pesos do passado ainda era imenso e ainda assombrava, mas os alicerces de uma Nova República e de uma nova vida já tinham sido fincados.

Para muita gente, hoje, tais alicerces estão corroídos e balançam de forma perigosa, açodados por pancadas fascistas que miram o opositor, o conhecimento, a cultura, a arte, a educaão e a ciência. E a facilidade com que a erosão nos empurra para o passado sombrio é apavorante.

Policiais militares estão estimulados a invadir reuniões, interromper shows de rock e intimidar movimentos sociais, além de "asdversários do regime". E tem gente achando que isso é bastante normal.

Quanta saudade da época em que o maior perigo à liberdade de expressão era uma ingênua coordenadora pedagógica que morria de medo do patrão e que sonhava com um mundo seguro e sem complicações, como ela achava que era o regime militar…

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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