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Combate Rock

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Trinta anos depois, Ratos de Porão continuam mais atuais do que nunca

Combate Rock

2005-07-20T19:06:27

05/07/2019 06h27

Marcelo Moreira

Banda veterana e importante lançando disco com críticas contundentes aos políticos e à onda conservadora que está jogando o país nas trevas; banda faz no palco críticas fortes contra a atuação arbitrária, violenta e autoritária das Polícias Militares em todo o país, e o resultado são ameaças, intimidações e músicos na delegacia para "prestar esclarecimentos".

Tudo isso era recorrente duante o período da ditadura militar e nos anos imediatamente após o fim do asqueroso regime militar, só que, 30 ou 40 anos depois, a sociedade brasileira e o rock se veem novamente sob o mesmo tipo de ameaça e repressão.

O grupo de hardcore Escombro foi a vítima da vez ao ser abordado por supostos policiais militare em um festival em Brasília. Os músicos cantaram contra as arbitrariedades da PM, mas de forma genérica, e ganharam uma abordagem autoritária, covarde e anticonstitucional, em flagrante violação da liberdade de expressão.

Já a banda punk Dead Fish, em seu mais recente álbum, "Ponto Cego", pegou pesado contra o conservadorismo de inspiração fascista e autoritária que tomou conta do país com a eleição do inacreditável e incompetente Jair Bolsonaro (PSL) como presidente.

É música de protesto da melhor estirpe contra a ignorância e o emburrecimento generalizado em nossa sociedade, que aceita que um ser patético que elogia torturador e apoia a violência contra os mais pobres – sendo aplaudido por parte insana dessa sociedade doente – seja alçado à condição de "mito".

Diante de tamanho retrocesso e emburrecimento, não deixa de  ser irônico que uma obra lançada há 30 anos seja tão emblemática e atual.

"Brasil", dos Ratos de Porão, lançado em 1989, pesadíssimo e agressivo ao extremo, foi direto ao cerne d questão em uma época em que um "salvador da pátria" também era idolatrado como um "inimigo do comunismo e da esquerda que atenta contra a família."

Fernando Collor de Mello, então no PRN, representava tudo o que de pior existia na sociedade brasileira, embora bem menos radical e ignorante do que as hostes bolsonaristas. Ainda assim, era o atraso e o retrocesso chegando à Presidência da República.

Artificial e totalmente sem conteúdo – e sem apoio político , seria apeado do poder pouco mais de dois anos depois da posse, enredado em uma teia de corrupção e joguetes políticos da pior espécie. O impeachment se consumou em 1992.

João Gordo, o cantor do Ratos de Porão, vociferava em quase todas as letras contra os males sociais causados pela corrupção e contra uma elite político-econômica totalmente corrupta que se beneficiou demais dos desvios éticos, políticos e administrativos do regime militar.

Em "Crianças Sem Futuro", um retrat perfeito do descaso para com os jovens carentes e seu morticínio: "Temos crianças mortas para exportação/ Umas morrem de doença, outras de inanição/ Agora Etiópia está com inveja do Brasil/ Ganhamos em pobreza e mortalidade infantil".

Mas a melhor de todas, em se tratando de comparações com os tempos atuais, é a letra de "Terra do Carnaval": "minha terra tem ladrões/ Qu aprendem a roubar/ Na escola do poder/ Honestos não entram, não/ Segue a vida, pé no chão/ Dentes podres, ilusão/ Que o Brasil vai melhorar/ Mas eu acho que não vai não…"

A história se repetindo como tragédia, como farsa, como ma tragédia ainda maior, e como uma farsa ainda mais grotesta e nojenta. Qual a solução? Calar artistas e opositores, como quer a tropa de choque ingorante e fascista que apoia o atual presidente da República.

Certamente não foi essa a intenção, mas Ratos de Porão, secundado pelos corrosivos Garotos Podres, deu uma aula de protesto com seu brado contra as oligarquias políticas que tanto destruíram e continuam a destruir a nossa sociedade.

Enquanto isso, inocentes continuam a morrer nas ruas das cidades brasileiras por conta de balas perdidas ou fuzilamentos sumários cometidos por soldados do Exército, isso para não falar nos assassinatos cometidos cotidianamente por policiais militares nas periferias – para muita gente, isso é o que podemos de chamnar de "presença do Estado nas favelas e comunidades"…

E dessa forma que as polícias também exercem a "presença do Estado" nos shows de rock, em vez de realmente cumprirem a sua função constitucional.

Em vez de intimidar os críticos, policiais deveriam estudar um pouquinho mais sobre os limites de suas ações e atividades. E, quem sabe, aprender um pouco mais com as letras de músicas de bandas como Ratos de Porão.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br