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A vida de Elton John fica menos exuberante em 'Rocketman'

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2031-05-20T19:06:55

31/05/2019 06h55

Marcelo Moreira

Uma boa ideia executada com pretensões artísticas elevadas, mas que não levou em conta o grande público. E assim muita gente ficará com imensas dúvidas a respeito de uma figura tão fascinante como Elton John.

"Rocketman" é uma superprodução que pretende pegar carona no enorme sucesso de "Bohemian Rhapsody", que rendeu o Oscar a Rami Malek como Freddie Mercury, o vocalista do Queen. Tem condições para isso, mas será uma longa e pedregosa caminhada.

O filme tinha tudo para crescer e ter desempenho estonteante nas bilheterias e entre os críticos, mas uma certa indecisão a respeito de roteiro e direção pode colocar poer terra essa pretensão de superar os conterrâneos do Queen: é um musical ou uma cinebiografia? O que é real e o que é ficção?

Ao embaralhar as coisa e tentar uma abordagem mais artística da vida louca e movimentada de Elton John, o diretor Dexter Fletcher tentou cravar seu nome como um profissional que tem estofo para fazer um filme autoral, ainda que parte do público possa ficar a ver navios.

Um dos méritos de "Bohemian Rhapsody" é lidar com um roteiro menos frenético e mais dramático, envolvendo uma história perfeita para o público norte-americano, que é a ascensão e a redenção de artistas/heróis, ainda que os produtores tenham tomado licenças poéticas para mexer em um enredo com muitas brechas.

Fletcher optou por uma abordagem cinematográfica diferente, com uma narrativa nem sempre cronológica e usando as músicas de Elton John e Bernie Taupin, o letrista e grande amigo, para ilustrar algumas passagens da vida do cantor e pianista, mesmo que em forma de dança.

Diante desta opção, o espectador que desconhece a história de Elton John e que não tenha lido o livro "Captain Fantastic", de Tom Doyle (editado no Brasil no ano passado) sofrerá um pouco para entender como o menino gorducho e desprovido de charme encarou o desprezo do pai e o assédio moral da mãe para subir ao palco e penar por cinco anos em bandas de rock e blues até se tornar o grande astro mundial.

O livro serve de basepara a maior parte do roteiro, mas o diretor Fletcher subaproveitou informações relevantes sobre o caráter e o comportamento de Elton John que certamente aumentariam a carga dramática do filme.

Com a estética de musical do tipo Broadway ficaria realmente difícil aprofundar as questões psicológicas marcantes que determinaram a transformação de Reginald Dwight em Elton John.

Os números de dança e coreografia tentam mostrar de forma esplendorosa a transformação, mas apenas lançam névoa sobre as cascatas emocionais que envolveram a vida do artista.

Afinal, quem é Elton John? É o espalhafatoso artista mergulhado nos excessos da vida nos palcos? É a superação do menino tímido que tocava piano ao lado de Long John Baldry e Rod Stewart? Ou é o venerado superstar exposto nas letras do amigo Taupin, numa tentativa de associar algumas passagens importantes da trajetória do cantor às canções?

"Rocketman" entrega menos do que poderia em relação a um personagem fascinante. Não atinge um clímax e não oferece um bom retrato do artista enquanto força gigantesca do rock e do show business.

Será que as intervenções do verdadeiro Elton John, interpretado de forma competente por Taron Egerton, foram suficientes que o resultado tivesse esse "desvio", tornando a fita menos fulgurante.

A sensação de que o filme poderia ser bem mais do que é não transforma o programa em um mico. É possível se divertir com a produção competente e as atuações caprichadas dos atores, mas as comparações com "Bohemian Rhapsody" sao inevitáveis. É uma grande homenagem a Elton John, mas sua história merecia um tratamento menos bombástico e mais fiel à realidade.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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