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Combate Rock

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A decolagem do Deep Purple completa 50 anos

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11/05/2019 06h34

Marcelo Moreira

MK II, a clássica formação do Deep Purple, com Ian Gillan (centro) e Ritche Blackmore (segundo à direita) (Foto: Divulgação)

O irascível Richard achava que era um gênio, mas tinha de se submeter ao maior conhecimento do seu amigo mais velho, John, ou Johnny, ou Jon (conforme a turma de amigos), que era músico erudito e formado em uma universidade.

O problema é que o rock progressivo da banda não era tão virtuoso quanto o dos concorrentes e nem tão visceral quando o de outras bandas. Pink Floyd, Yes, King Crimson e Moody Blues tomavam conta da área, enquanto o rock pesado era a nova sensação, como Jimi Hendrix Experience, The Who, Led Zeppelin e o finado Cream.

A decisão estava tomada, e o guitarrista Richard, que então já era Ritchie Blackmore, deu um golpe de estado e transformou o Deep Purple em uma banda de hard rock/rock pesado, para desgosto do erudito Jonathan, que já era o tecladista Jon Lord.

E foi assim que o genioso e irascível guitarrista Ritchie Blackmore, então um amigo distante de Eric Clapton e Jeff Beck, transformou uma banda de e rock progressivo/psicodélico e uma das forças mais importante do rock.

Blakcmore era muito bom, um dos destaques da Inglaterra blueseira dos anos 60, mas percebia que estava ficando para trás. Mick Taylor, quatro anos mais novo, era um ás da John Mayall's Bluesbreakers que tinha assumido um lugar nos Rolling Stones.

Já Peter Green, outro ex-John Mayall, se tornava uma lenda do blues, assim como Kim Simmonds, do Savoy Brown, Dave Mason, do Traffic, e os iniciantes Martin Barre (Jethro Tull), Tony Iommi (Black Sabbath), David Gilmour (Pink Floyd) e muitos outros.

Aos 25 anos, Ritchie Blackmore tinha decidido que era hora de fazer sucesso depois de três álbuns bons, mas de pouca repercussão. E assim, em 1969, ele transformou a sua vida e a sua carreira em um dos paradigmas do rock'n'roll.

Aos 75 anos de idade, a serem completados neste ano, Blackmore foi um dos responsáveis por criar o rock pesado, ou seja, as bases do hard rock e do heavy metal.

Blackmore percebia que estava ficando para trás. Sabia da sua qualidade como músico, mas percebia que os amigos Eric Clapton, Peter Green, Jeff Beck e outros instrumetistas estavam voando e ganhando dinheiro. Já ele, ao lado dos companheiros de banda ian Paice (bateria) e Jon Lord (teclados), que se conheceram na Alemanha, ainda patinavam nos pubs com o Deep Purple.

Era o caso clássico de banda boa reconhecida pelos músicos, amigos e jornalistas, mas sem púbico. Ainda assim tiveram a capacidade de mostrar talento e gravar três álbuns em um ano e meio, uma façanha – "Shades of Deep Purple", "Book of Taliesyn" e "Deep Purple".

Era o auge da psicodeia, do flower power e do nascimento do rock progressivo. O Pink Floyd, o Move o Moody Blues já estavam estabelecidos, o Nice decolava, o Atomic Rooster estava surgindo e um embrionário Yes começava a chamar a atenção fazendo exatamente o som que o Deep Purple, formado em 1967, trilhava: um rock psicodélico viajante baseado no blues e no folk.

Blackmore transbordava de influências eruditas, assim como Lord, mas eles não conseguiam ultrapassar o que o mercado estava pedindo: um pop rock britânico distorcido, esfumaçado e embriagado, como as versões interessantes dos Beatles: "Help", do Purple, e "Every Little Thing", do Yes, para não falar na bluesy/soul "Hush", de Joe South, que Blackmore encharcou de groove.

Com a repercussão tímida do terceiro álbum, Blackmore deu um ultimato a Lord e ao baterista e parceiro de todas as horas Ian Paice: temos de mudar tudo, a começar pelo vocalista limitado Rod Evans e o conservador baixista Nick Simper. Já o som, que ainda estava no caminho do desgastado rock psicodélico, tinha de evoluir para o mais elaborado (progressivo) ou mais pesado (hard).

Ficou acertado que o grupo se livraria dos músicos que não estavam correspondendo e que haveria uma última e pretensiosa/ambiciosa tentativa: um disco que uniria rock mais visceral com uma orquestra – algo maluco e inimaginável em 1969.

Lord não abriu mão disso e fez questão de registrar as suas composições em "Concert for Group and Orchestra", daquele mesmo ano, um álbum que teve repercussão boa entre os críticos e os músicos, mas que causou estranheza no público, que era quem comprava.

Há controvérsias sobre as reações dentro da banda – já com o Ian Gillan (vocais) e Roger Glover (baixo), da banda Episode Six -, mas o fato é que Blackmore assumiu as rédeas e estabeleceu um novo conceito artístico, expandido o que vinham fazendo The Who, Cream, led Zeppelin e Jimi Hendrix (um amigo recente que admirava a sua técnica no solos e suas influências blueseiras).

Com a impossibilidade de fazer turnê com o disco com orquestra, o guitarrista arrastou todo mundo para o estúdio para começar a criar aquele que seria o disco da virada, um rock pesado, visceral e pesado, na mesma pegada do Zeppelin, do Black Sabbath, do Uriah Heep e do próprio The Who, que abusava cada vez mais do peso entre 1970 e 1974.

"Child in Time", uma balada épica blues, foi lançada no começo do segundo semestre de 1969 já com Gillan e Glover, em uma situação esdrúxula, na qual ensaiavam com o Deep Purple de dia e ainda cumpriam datas com o Episode Six à noite. Esta banda sabia do que estava rolando, mas Rod Evans e Nick Simper, não.

Em uma rara entrevista de Jon Lord a uma emissora de rádio da África do Sul, em 2005, Roger Glover contou que foi um momento importante para a banda mudança de sonoridade.

"Ritchie e Jon perceberam que tinham de mudar, ainda que Jon insistisse na questão da música erudita. Quando eu e Ian entramos, as novas ideias já predominavam. Era uma nova era, um novo som, mais forte, mais pesado e mais elaborado. Foi assim que surgiu 'In Rock', em 1970", disse o baixista.

Forte, indomável e avassalador, a tríplice coroa do Deep Purple – "In Rock", "Fireball" e "Machine Head" – estourou os miolos de quem queria som mais pesado e incandescente entre os anos de 1970 e 1973.

Certeiros nas escolhas, Blackmore, Lord e Paice transformaram uma banda de rock psicodélico com aspirações progressivas e em uma usina de energia e peso absurdos, tudo isso temperado por uma destreza técnica até então inéditas no rock.

Não durou muito a fase extraordinária de criatividade do grupo, já que em 1973 as brigas internas se tornaram insuportáveis, com Gillan e Glover deixando o grupo para dar a lugar a David Coverdale (vocais) e Glenn Hughes (baixo e vocais). O som ainda era pesado, mas deixava o blues em segundo plano e se esgueirava pela soul music.

De qualquer forma, no limite do desespero para fazer sucesso, Blackmore e Lord revolucionaram o som do Deep Purple há 50 anos para transformar a banda em uma das mais importantes de todos os tempos.

 

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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