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Dead Kennedys e Lei Rouanet: a intimidação começa a produzir resultados

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2024-04-20T19:07:03

24/04/2019 07h03

Marcelo Moreira

Uma polêmica desnecessária com direito a toneladas de falta de desinformação e a mais um capítulo do jogo bruto da polarização política. E tudo isso no momento em que o governo Jair Bolsonaro liquida a Lei Rouanet.

O cartaz da turnê brasileira da banda Dead Kennedys chamou muito a atenção, provocou a ira dos direitistas e ganhou aplausos dos esquerdistas, antifascistas e antibolsonaristas.

A repercussão foi grande. A banda, que tinha autorizado a divulgação do cartaz, segundo o autor, Cristiano Suarez, aparentemente foi pega de surpresa com a dimensão do assunto e recuou, para desespero, decepção e raiva de muitos fãs e do pessoal que antes aplaudiu – sorte que os Ratos de Porão se apropriaram da arte para divulgar seus trabalhos.

O recuo dos Dead Kennedys mostra o dilema em que se encontra o rock como manifestação de contestação em várias partes do mundo.

No Brasil, o efeito Roger Waters parece estar inibindo alguns artistas nacionais e internacionais a se manifestar contra arbitrariedades e autoritarismo.

Se por um lado tivemos a banda Bring Me the Horizon e a cantora Letrux bradando contra Bolsonaro e suas políticas restritivas e de retrocesso no Lollapalooza, por outro vemos um ícone do rock de protesto como os Dead Kennedys abdicarem de parte importante de sua história. Como vai ser agora encarar a banda cantando "California Uber Alles" na turnê brasileira?

É verdade que parte expressiva do público se manifestou contra a onda conservadora que tomou o país no Abril Pro Rock, assim como vários artistas. No entanto, ainda parece pouco para enfrentar essa onde nefasta de ataques à cultura em geral. E continuo achando que as manifestações dentro do rock ainda estão muito tímidas enquanto outros setores da cultura não esmorecem na luta contra os retrocessos e ataques ao segmento.

É evidente que o recuo dos Dead Kennedys desanima parte das pessoas que ainda acreditam que é possível resistir, mas está difícil. Vários produtores culturais admitem abertamente que os ventos mudaram e que prejuízos são certeiros quando artistas resolvem se manifestar politicamente – principalmente quando há críticas ao governo Bolsonaro e aos governadores conservadores de São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

"Não dá para cravar que vai ser assim a partir de agora, mas percebo claramente uma enorme má vontade para com artistas com fala de polêmicos e envolvidos com política. Os engajados estão marcados, especialmente em relação a gente que  autoriza gastos em eventos que têm dinheiro público na jogada. E já faz tempo que o dinheiro público, seja de prefeituras ou empresas estatais, sustenta a maioria dos eventos de música neste país", diz um produtor paulista de shows que preferiu não se identificar.

Em recente entrevista ao Combate Rock, que será publicada em breve em duas versões, o guitarrista Deedy, dos Garotos Podres e dos Subalternos, bandas punks, afirma que o clima de confronto no âmbito político influenciou a maneira de como as coisas estão rolando dentro do mundo musical.

"É uma situação tensa e complicada, está todo mundo preocupado. Somos músicos engajados e temos o carimbo da contestação em nossas testas, então não muda muito em relação às bandas em que toco. Entretanto, essa preocupação [de a política interferir nos negócios e contratações] passou a existir para uma série de artistas, infelizmente", diz o músico.

Seja como for, acredito que ninguém saiu vencedor da polêmica do cartaz, que é muito bem feito e tem uma mensagem poderosa. Os Dead Kennedys saíram chamuscados e perderem credibilidade entre a galera engajada e contestadora. Esta, por sua vez, virou alvo de piadas e ataques por conta  do recuo da banda, enquanto os detratores mais uma vez atacaram sem conhecimento e destilando o ódio e a estupidez de sempre.

Lamentavelmente, a questão deixou em segundo plano o maior de todos os ataques ao meio cultural e artístico, as mudanças na Lei Rouanet, que agora é a Lei de Incentivo à Cultura. A maior pancada é a redução do teto de captação permitido pelos empreendimentos culturais, que cai de R$ 60 milhões para R$ 1 milhão.

A gritaria foi geral em todo o setor, que não esconde a catástrofe que está prevendo para o segmento. "Essas mudanças vão paralisar a cultura e destruir milhares de empregos", afirma a atriz global Ingrid Guimarães, que estrela a série de cinema "De Pernas para o Ar".

A questão que envolve os Dead Kennedys é apenas um sintoma de uma doença que se espalha rapidamente, que é a perda do senso crítico e da capacidade de contestar e resistir por medo – medo de retaliações políticas, físicas e, principalmente, econômicas.

E é justamente esse medo que permite ao governo Bolsonaro e a todo os meios conservadores intimidarem os opositores, adversários ou simplesmente críticos.

E a intimidação apresenta os resultados deploráveis (mas esperados): o recuo e o encolhimento da resistência, abrindo caminho para que o trator passe por cima de tudo e nos imponha as mudanças radicais e desastrosas na Lei Rouanet, por exemplo.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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