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Mick Taylor, 70 anos: um gênio perdido entre a paz e os Rolling Stones

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13/04/2019 06h20

Marcelo Moreira

Ele foi mais um que traiu a ira do mestre do blues britânico, embora este já esperasse o desfecho desde a sua contratação. Depois de contar com dois jovens geniozinhos do instrumento – Eric Clapton e Peter Green, o piansta, guitarrista e vocalista John Mayall, o maior dos olheiros ingleses da música, achou um moleque tímido que transpirava blues.

Com pouco mais de 18 anos de idade, Mick Taylor começava a despontar como a mais nova promessa da guitarra britânica quando, relutante, aceitou integrar os Bluesbreakers de John Mayall.

Seguindo a sina, ficou pouco mais de um ano no grupo até receber um convite "irrecusável" para substituir Brian Jones nos Rolling Stones. Mayall sabia que tal coisa poderia acontecer, mas não imaginava que fosse acontecer tão rápido. Ficou furioso, mas resignado, e lá foi ele atrás de outra promessa da guitarra blues.

Enquanto isso, Taylor foi do céu ao inferno em pouco tempo, desde tendo que substituir uma lenda e ter de estrear nos palcos praticamente ao mesmo tempo em que a morte do antecessor era anunciada até mergulhar fundo nas drogas e no mundo selvagem dos Stones.

Mick Taylor é um sobrevivente e completa 70 anos de idade neste ano de 2019. Apesar de tímido, era durão e corajoso. Tão corajoso que simplesmente anunciou que estava abandonando os Rolling Stones em janeiro de 1975, pouco depois de completar 26 anos de idade e às vésperas das gravações daquele que viria a ser o álbum "Black and Blue".

Furioso, o guitarrista Keith Richards vociferou à época: "Como ele ousa? Ninguém abandona os Rolling Stones. Quem ele pensa que é?"

"Saí para que eu não fosse mais uma baixa da banda, mais uma vítima daquele mundo insano", declarou tempos depois o guitarrista demissionário ao jornal inglês The Independent.

Totalmente depende das drogas e em estado físico lastimável, Taylor credita a sua sobrevivência à saída da banda. O que ele demorou pára admitir é que houve outro motivo importante para a sua demissão: os constantes entreveros com Mick Jagger e Keith Richards.

"Um dia, após uma turnê norte-americana no começo dos anos 70, ele veio do nada no ensaio e começou a falar um monte de coisas, dizendo que eu tocava errado e que Bill [Wyman, baixista] precisava mudar. Ele era bom, mas impertinente. Ninguém ensina um stone a tocar", afirmou Richards para a revista Rolling Stone nos anos 80.

Taylor nunca negou tal declaração, mas faz questão de dizer que não tolerava a falta de créditos nas composições que diz ter ajudado a criar, como "Time Waits For No One", do disco "It's Only Rock'n'Roll", de 1974. Jagger e Richards sempre passaram ao largo da questão, ignorando as reclamações.

Seja como for, Mick Taylor parece ter encontrado a paz no interior da Inglaterra. De índole pacata e bondosa, passou a tocar  em botecos em com amigos, além de gravar ocasionamente disco solo. Entretanto, desapareceu do show business e ficou marcado apenas como um ex-stone que pediu demissão.

Ele ressurgiu na penúltima grande turnê da banda, entre 2014 e 2015, quando foi convidado pelos ex-companheiros para tocar duas músicas em todos os shows. Aceitou de bom grado e mostrou-se satisfeito e feliz ao duelar com Richards e Ron Wood, seu substituto. Notas de bastidores dão conta de que as rixas ficaram no passado

Guitarrista notável e tecnicamente surpreendente, é considerado um dos grandes desperdícios do rock. Por questões de temperamento, precisou abandonar o mundo da música para encontrar a paz tão desejada.

O esplendor de sua guitarra sentimental e visceral pode ser ouvido no ótimo álbum ao vivo "Get Yer Ya Ya's Out", lançado em 1970, mas com gravações da turnê norte-americana de 1969, a primeira dele com os Stones.

"Love in Vain" "Midnight Rambler", nas versões ao vivo, mostram um instrumentista inspirado e transbordando energia, duelando com  Richards de forma que Brian jones nunca tinha feito. Era o sopro de vitalidade que os Rolling Stones precisavam.

Ron Wood foi o cara certo para substituí-lo, mas os Rolling Stones nunca mais foram tão inspiradores quanto no período 1969-1974, justamente aquele que teve Mick Taylor na guitarra solo.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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