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The Who com orquestra: desnecessário, mas bastante conveniente

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25/03/2019 06h56

Marcelo Moreira

Pete Townshend (esq.) e Roger Daltrey no estádio de Wembley, em Londres, onde tocarão no dia 6 de junho (FOTO: DIVULGAÇÃO/THE WHO FACEBOOK)

Era uma brincadeira, mas com sinistro tom de uma premonição. "Uma hora a turnê termina e sempre poderá ser a última na nossa idade. Espero que possamos terminá-la", brincou o mórbido Roger Daltrey, 75 anos, vocalista do grupo The Who.

Ele e o companheiro de banda anunciaram neste mais mais uma turnê pelos Estados Unidos, desta vez acompanhados por orquestra, e o lançamento até o final do ano de um álbum com músicas inéditas, o primeiro em 13 anos – e o segundo em 37.

"Seria uma bela forma de encerrar a carreira, embora não estejamos pensando nisso. É preciso sempre abordar todas as possibilidades", disse o guitarrista Pete Townshend à agência de notícias Reuters.

Os dois refutam a ideia de se aposentar, embora não descartem a possibilidade. Nada surpreendente para quem anunciou que a última seria a turnê de despedida em 2016, a mesma que passou pelo Brasil no ano seguinte. Na época, Daltrey disse que não dava mais para continuar por muito tempo. Parece que mudou de ideia.

O fato é que bandas monstruosas como Who, Rolling Stones, U2 e muitos outros têm uma dificuldade para encerrar ciclos ou mesmo tomar decisões complicadas. Como encerrar as atividades de verdadeiras empresas, que movimentam milhões e milhões de dólares, com turnês e produtos diversos?

Muita gente se pergunta como Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, continua de pé após 60 anos de excessos diversos e tocando bem nos palcos com 75 anos de idade, a mesma do companheiro Mick Jagger. Até quando o baterista Charlie Watts, que completará 78 em breve, terá paciência e fôlego para tocar toda noite por mais de duas horas?

"Roger e eu temos muita sorte de estarmos vivos", disse ele. "Temos sorte de ser razoavelmente saudáveis. Temos sorte de ainda podermos tocar a música com a qual crescemos", disse Townshend à Reuters sobre a motivação para mais uma turnê cansativa – serão 31 shows nos Estados Unidos e Canadá.

Aparentemente parece uma boa ideia, tanto no exterior como no Brasil, fazer uma turnê com orquestra. Não é novidade, mas soa como alternativa para revigorar carreiras em um momento em que todos no mercado musical buscam novos caminhos após a derrocada da indústria fonográfica.

E talvez seja por isso que as "corporações musicais" se recusam a terminar. A geração de dinheiro e de lucros ainda é alta no mercado musical degradado.

Bandas como Iron Maiden, Metallica, Kiss, Queen e outras entidades sagradas mantêm a roda girando porque empregam muita gente em toda a cadeia. São poucos que ainda conseguem isso. E o Who está enredado em uma teia em que parece difícil se desvencilhar.

Não deve ter sido um grande sacrifício voltar atrás, a julgar pela imensa campanha publicitária lançada a respeito do novo álbum e nova turnê.

Ao final do show no Rock in Rio, em 2017, Townshend deu uma rápida entrevista aos jornalistas e comentaristas do Multishow e reafirmou o desejo de "desacelerar" ao final da turnê "50!", cm final previsto para meados de 2018.

Jimmy London, ex-vocalista do Matanza, um dos apresentadores, percebeu o uso da palavra "desacelerar" e cutucou o guitarrista sobre a turnê de despedida. "Ela é um adeus a todo um esquema ao qual nos dedicamos há mais de 50 anos. Não me vejo mais fazendo turnês mundiais de anos, como essa atual. Aliás, não me vejo muito mais tempo fazendo isso", afirmou o músico.

Mesmo com a ideia desgastada de uma turnê com orquestra, algo pouco original, o Who pode se dar bem com a iniciativa. O formato é atrativo para novos públicos, aqueles pouco acostumados a novidades dentro do rock. E uma orquestra costuma aproximar dois mundos que caminham paralelos ás vezes, mas que poucas vezes se cruzam.

Como disse certa vez o stone Keith Richards, muitas vezes as turnês gigantes são desnecessárias, mas convenientes. É o caso do Who no momento.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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