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John Mayall e Reese Wynans: a glória do blues nas mãos de dois veteranos

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2013-03-20T19:07:00

13/03/2019 07h00

Marcelo Moreira

A brincadeira aqui é pertinente: juntos, os dois remontam a 150 anos de blues, na soma de suas idades. Representam a tradição, a modernidade, a inovação e a paixão. O inglês John  Mayall e o norte-americano Reese Wynans (simplesmente o tecladista de Stevie Ray Vaughan) fazem questão de demonstrar em seus novos trabalhos todos os atributos citados, mas sobretudo a paixão.

Existe outra alternativa para qualificar os quase 70 anos de profissão de Mayall, que é multi-instrumentista? Prestes a completar 86 anos de idade, mostra uma vitalidade que certamente poderá ultrapassar o recorde de B.B. King (estava nos palcos até os 88 anos de idade, mas morreu com 89, já muito doente).

"Nobody Told Me" é o mais recente trabalho do pioneiro do blues inglês – divide essa honra com os veneráveis Alexis Korner e Cyrill Davies, embora seja mais velho do que os dois.

O mestre reuniu alguns amigos da pesada para gravar. E o resultado é sublime, com uma energia que pouco se vê por aí, especialmente em álbuns estéreis de blues.

Um dos destaques é o onipresente Joe Bonamassa, o talvez o maior "arroz de festa" da atualidade. Aparece em duas canções para servir de "suporte de luxo" à "lenda viva" – termo que o inglês detesta.

Na abertura, com "What Have I Done Wrong", Myall dá uma aula de suingue e de interpretação apoiado a uma execução frenética e intensa da guitarra de Bonamassa.

O astro norte-americano da atualidade volta a brilhar em "Delta Hurricane" com sua guitarra elegante e precisa, naquela que pode ser considerada a mais interessante faixa do dsico.

Outra presença maravilhosa é a da guitarrista e cantora Carolyn Wonderland, que tem uma voz de trovão, mas que aqui se limitou às seis cordas. Em "Distant Lonesome Train", o blues fala mais alto, mas a moça manda um grande recado, poderoso e muito intenso, com uma guitarra pesada e um interessante uso de slide.

Já em "Like It Like You Do" o rhythm & blues comanda as ações, com guitarras frenéticas e um piano forte e pesado. Na faixa-título, novo show da moça, com arranjos bem elaborados e um vocal poderoso de Mayall.

Outras duas menções são necessárias. Steve Van Zandt, guitarrista que toca com Bruce Springsteen, mostra vigor no blues acelerado "It's Soo Tough", e o surpreendente Alex Lifeson, ex-guitarrista do Rush, em "Evil and Here to Stay", com uma guitarra blues bem safada e impregnada de suingue.

Durante muito tempo reduzido a mero "descobridor de talentos da guitarra do blues inglês" – em sua banda, os Bluesbreakers, já passaram Eric Clapton, Mick Taylor (ex-Rolling Stones), Peter Green (ex-Fleetwood Mac), Coco Montoya e muitos outros -, Mayall recuperou a condição de grande artista e "imortal" nos anos 80.

Desde então, continua sendo tratado como uma entidade, mas seus trabalhos foram cada vez mais reverenciados como obras importantes do blues contemporâneo. É o caso do ótimo "Nobody Told Me".

O americano Reese Wynans também é uma lenda da música norte-americana. Pianista e tecladista com participação em centenas de álbuns dos mais variados artistas, trabalhou com Carole King, Buddy Guy, Larry Carlton, Willie Nelson, Allman Brothers e muitos outros, sendo um dos músicos de estúdio mais requisitados nos Estados Unidos nos anos 70 e 80.

Entretanto, a veia blueseira falou mais alto em 1984, quando começou a negociar a sua entrada na Double Trouble, a banda que acompanhava a então estrela em ascensão Stevie Ray Vaughan. Sentia falta da estrada. E então ele adicionou seus mágicos teclados nos álbuns "Soul to Soul" (1985), "Live Alive" (1986) e "In Step" (1989). Foi a sua participação com o gigante texano da guitarra que o tornou conhecido do público roqueiro.

Curiosamente, "Sweet Release", recém-lançado, é o primeiro álbum solo de verdade de Wynans. Aos 71 anos, fez o mesmo que Mayall: reuniu um timaço de amigos importantes e gravou o que quis, sem a preocupação de soar inovador e inventivo. Fez um álbum com a sua cara e com as suas influências, e acertou em cheio.

E muito desse empreendimento se deve ao guitarrista Joe Bonamassa, o produtor do álbum. O guitarrista é o grande patrocinador de muitos músicos veteranos e tinha o sonho de recrutar Wynans para a sua banda solo. Só conseguiu atraí-lo em 2015 e desde então o tecladista é como se fosse um diretor musical da banda.

O álbum conta com a participação de Sam Moore, Kenny Wayne Shepherd, Chris Layton, Tommy Shannon, Noah Hunt, Warren Haynes, Vince Gill, Keb' Mo', Doyle Bramhall II, Bonnie Bramlett, Paulie Cerra, Jack Pearson, o próprio Bonamassa e muitos outros.

O artista nunca se destacou como um grande compositor. Sendo assim, é natural que se ancorasse em alguns trabalhos que participou, e aí predominam canções de Stevie Ray Vaughan. São três no álbum: "Crossfire", "Say What" e "Riviera Paradise".

Mais do que uma reunião de amigos, a impressão é de que os trabalhos foram bastante festivos. Há uma descontração contagiante nas execuções e o anfitrião parece deixar todos muito à vontade, tanto que, em algumas faixas, o teclado e o piano são bastante discretos.

A instrumental "Riviera Paradise", entanto, mostra o talento de Wynans, um músico refinado e experiente na arte de criar arranjos intensos, mas não expansivos. Mesmo o solo de órgão, que duela com as guitarras de Bonamassa e Kenny Wayne Shepherd, não soa excessivo ou inconveniente, pelo contrário.

"Say What", outra se Vaughan, é uma instrumental que soa bastante reverente à original, como se quisesse fazer um tributo a ele mesmo e à banda que o consagrou. O teclado "grita" alto e faz toda a condução da melodia, em duelo com as guitarras.

"Blackbird", a singela balada dos Beatles cantada por Paul McCartney, ganha uma versão delicada e sutil, assim com "Shape I'm In", do grupo The Band, que tem o vocal de Noah Hunt e a guitarra de Shepherd.

O veteraníssimo cantor de soul Sam Moore brilha no hit "Crossfire" com sua voz dramática e intensa, com o suporte de uma naipe de metais de respeito e pelo teclado suntuoso de Wynans.

Outro hit histórico, "Take the Time", ganha uma versão revigorada com o vocal e a guitarra de Warren Haynes (Gov't Mule, ex-Allman Brothers). Aqui Wynans se solta mais, não fazendo a "cama" para o amigo brilhar. Realiza ataques e solos instigantes, transformando a canção em um blues poderoso.

A faixa-título é uma pérola, com a junção de vários talentos em uma balada country de cortar o coração. Keb' Mo toca guitarra e canta, ladeado por Joe Bonamassa e Warren Haynes, enquanto que Jimmy Hall e Mike Farris completam os vocais de modo magistral.

Wynans se divertiu bastante, sem dúvida, e cometeu um excelente álbum de blues e um belo tributo à música norte-americana.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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