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Combate Rock

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Os recônditos da alma de JJ Thames

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30/12/2018 07h12

Eugênio Martins Júnior – do blog Mannish Blog

Como diz JJ Thames, o Blues fala sobre as alegrias e as tristezas da vida. E em alguns momentos, sua triste e até trágica história pessoal, serviu de inspiração para suas composições. Fome, frio, solidão e a pior de todas as dores, a perda de um filho, viraram canções comoventes na voz da cantora e compositora.

Aos 17 anos, com a mudança dos pais, a jovem JJ migrou da grande cidade industrial de Detroit para a cidade interiorana de Jackson, no Mississippi. Não haveria melhor lugar para aprender seu ofício.

Pequena, mas importante, Jackson é famosa por ser um dos locais fundamentais da Rota do Blues, e também, terra de Bobby Rush, Cassandra Wilson, Ishmon Bracey, Otis Spann, e da Malaco Records onde mais tarde gravaria seus dois discos.
Após essa fase as coisas pioraram, em busca de seus sonhos, foi para New York, onde passou privações e humilhações. Completamente deslocada, se apegou à música.

JJ Thames (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Por isso seus discos trazem a mistura de blues, soul e músicas em forma de prece, na mais pura tradição gospel do interior. Sua voz forte garante a profundidade necessária que remete às igrejas do sul e aos recônditos da alma humana.

Os álbuns "Tell You What I Know" (2014) e "Raw Sugar" (2016) mostram o trabalho dessa grande cantora e compositora que esteve no Brasil em novembro de 2018, ocasião dessa entrevista.

JJ Thames se apresentou em um festival de quatro dias dedicado à Soul Music no Café Society, em São Paulo. Foi acompanhada pela banda Just Groove, Igor Prado (guitarra), Jesiel Oliveira (guitarra), Rael Lúcio (baixo) e André Azevedo (bateria). Agradecimentos ao produtor Mariano Cardozo.

Eugênio Martins Júnior – Você morou na área de Jackson, no Mississippi, reconhecidamente como um dos lugares mais fortes do Blues. Poderia falar como sobre isso te influenciou? Se é que isso aconteceu.

JJ Thames – Sou originalmente de Detroit, Michigan (Motown), mas mudei para o Mississippi aos 17 anos de idade. Musicalmente, foi Jackson que me criou. Cortei meus dentes lá. E foi lá que conheci todos os meus mentores. Comecei a fazer backing vocals para artistas de blues, cantava nos discos e realmente aprendi o que era o blues. Fui a todas as blues jams, cantei em todos os clubes de blues, incluindo o Subway Lounge, o 930 Blues Cafe, o Franj Jones Corner, o Hamp's Lounge e muito mais. Se não tivesse me mudado para o Mississippi posso dizer com confiança que não cantaria o blues.

EM – Li em uma entrevista que você vivia em Detroit e foi morar no campo e que isso foi um choque cultural.

JJ – Me mudei para Jackson em 2000. Não era tão desenvolvido como hoje. Mudei de uma metrópole para um lugar que tinha campos abertos e um centro muito pequeno que realmente não era povoado. Na época, havia muitas fachadas de lojas abandonadas. Então havia as pessoas … todos pareciam tão legais e amigáveis. Lembro-me de ficar muito confusa quando as pessoas dirigiam pela rua e buzinavam e acenavam para mim. Elas entravam e perguntavam: "Ei, como você está hoje?". Quer dizer, você não fala com estranhos em Detroit. A comida era diferente, o sotaque era difícil de entender, uma gíria desconhecida, os insetos eram maiores (risos). Demorou algum tempo para se acostumar.

EM – Depois dessa fase você passou dias difíceis em New York e disse que os diversos tipos de privação te fizeram conhecer o verdadeiro sentimento do blues. Poderia contar essa história?

JJ – Me mudei para Nova York após a morte por câncer de meu segundo filho. Havia me mudado do Mississippi de volta a Detroit para seguir minha carreira e, após o sucesso, mudei-me para Nova York para tentar passar ao próximo nível, mas não tive tanta sorte. Dormi no metrô, morei em um abrigo infestado de ratos que tinha uma janela quebrada no chuveiro (era um inverno mortal e tomar banho era muito ruim por causa do frio), o banheiro também não funcionava muito bem e vazava frequentemente. Cantei na estação de metrô no West 4, em Greenwich Village. Me lembro de não ter um casaco de inverno adequado, então usava quatro blusas umas em cima das outras. Foi um momento difícil. Estava com fome e muito solitária. Mas, é um momento muito especial da minha vida. Foi quando realmente vi o que havia realizado, realmente aprendi a confiar em Deus, e isso testou e provou o quão longe estava disposta a ir para ver meus sonhos se tornarem realidade.

EM – Você compõe baseada nas tuas experiências de vida. Um caso verdadeiro é a comovente Tell You What I Know. Essa contação de história faz parte da tradição do blues. Gostaria que falasse sobre isso.

JJ – Em todas as sociedades indígenas e até além delas, a cultura é tecida no campo narrativo. Contamos histórias aos nossos filhos para ensinar moral e lições de vida. Contamos histórias para entretenimento, contamos histórias para lembrar e aprender da nossa própria história. Foi a mesma situação com os escravos africanos trazidos para a América, e eventualmente se refletiu na música. Blues não é nada além de contar histórias. Não sei cantar o blues sem contar uma história. E quem melhor para contar minha história além de mim?

EM – Percebi que você abre teu primeiro disco com uma música acústica muito bonita chamada "Souled Out". E o álbum "Raw Sugar" também começa com uma música acústica com as participações de Ben Hunter e Joe Seamons. Gostaria que falasse sobre isso.

JJ – Sou conhecida pela alta energia dos meus shows, pela grande voz, berros, músicas com grandes produções (sopros, instrumentos elétricos e arranjos intricados) e estou perfeitamente bem com isso. Mas realmente gosto de começar meus álbuns com o que é mais importante para mim: minha fé. Ambas as músicas são orações e sinto que elas são melhor cantadas das formas mais simples e despojada possíveis. Orações não precisam ter toda a pompa e circunstância. Elas só precisam ser honestas. Meu próximo álbum (e provavelmente todos subsequentes) começará da mesma maneira.

EM – Além da produção, Eddie Cotton também participou da composição das músicas?

JJ – Eddie e eu produzimos juntos o álbum Raw Sugar. Além da faixa-título, Raw Sugar e Bad Man, escrevi as letras e compus as melodias para o álbum inteiro ao longo de um ano ou um pouco mais. Para esses dois temas, Eddie compôs a música e eu escrevi as letras. Eddie e eu nos encontramos com meu baterista John "Ianky" Blackmon Jr. e meu baixista Anthony Daniels, ambos de Jackson, e meu tecladista, Darryl Sanford, de Memphis, (Tennessee), um mês antes de ir ao estúdio e ensaiar todas as músicas. Hold Me e I Don't Feel Nothin foram canções refeitas de um álbum que lancei de forma independente em 2008. Hattie Pearl foi composta por toda a banda na gravação do estúdio. Escrevi as letras no estúdio, literalmente, enquanto gravávamos a música. Gravamos Raw Sugar em dois dias.

EM – Cada vez mais os músicos brasileiros vêm mantendo parcerias com os norte-americanos. Você conhecia a cena brasileira de blues?

JJ – Mister Sipp, Vasti Jackson e Annika Chambers haviam me falado.

EM – O Blues é alegre ou triste?

JJ – Ambos. Blues é sobre celebrar a vida. Bons e maus momentos. Por exemplo, Thrill is Gone, de BB King, engloba emoções felizes e tristes na mesma música. Ele está falando sobre a liberdade de uma mulher que não o amava tanto. Mas, há uma pitada de tristeza também, quando ele percebe que ficará solitário sem esse amor, mesmo que ele esteja um pouco distante. A versão de Koko Taylor de Wang Dang Doodle é toda sobre mexer os calcanhares em uma jukejoint após um duro dia de trabalho. Stormy Monday, de T Bone Walker, é tão triste quanto uma música pode ser. Como se estivesse de joelhos implorando para que Deus o ajude a encontrar seu amor. A vida é fluxo e refluxo, de alegria e dor. blues é sobre a vida real e capta esse conceito lindamente.

EM – Você esteve no palco com o lendário Bobby Bland. Como foi essa experiência?

JJ – Bobby Bland era um gênio, com uma voz de seda. Tive a oportunidade de fazer apenas alguns shows com ele em um evento especial. Mas ele era um verdadeiro showman e um prolífico contador de histórias. Aprendi muito com ele nesses dois shows e depois de assisti-lo. Meu mentor, Ezra Brown, tocou saxofone para Bland por anos, e se não fosse por Ezra, eu nem saberia quem era o Senhor Bland. A experiência também foi muito nostálgica para mim. Minha avó, Mary (que possuía e administrava uma conhecida jukejoint e pensão para músicos negros no chitlin' circuit durante a era Jim Crow em Emporia (Virgínia), amava Bobby Bland. E ele se lembrou quando falei dela.

EM – Houve uma época em que a soul music era música de protesto. Lá estavam Curtis Mayfield, Gil Scott Heron e o grande cantor e compositor Marvin Gaye. Parece que atualmente essa função tem sido com rap e isso também já está mudando. Não há mais música de protesto nos Estados Unidos com todos esses problemas raciais acontecendo?

JJ – Meu antigo empresário e eu conversamos sobre isso com frequência. Não… música de protesto está muito distante entre os músicos. A maioria das pessoas não quer ouvir isso. Existem artistas como Kendrick Lamar e Childish Gambino, ambos artistas de rap, e eles fizeram um ótimo trabalho. Nina Simone disse que "é dever do artista escrever e cantar música sobre os tempos", parece que muitos artistas abandonaram essa responsabilidade. Até eu mesmo. Meus álbuns sempre foram sobre amor ganho, amor perdido e introspecção. Você sabe, minha história pessoal. Escrevi sobre o aborto no meu último álbum, mas, novamente, sobre minha perspectiva, contando a história sobre eu ter escolhido não abortar meu filho. Acho que a verdadeira mudança vem de dentro. Encorajando as pessoas a curar seus próprios traumas. Abraçar os sonhos e viver autenticamente é como vamos mudar a nossa sociedade. Ao mudar e desenvolver-se, você tende a melhorar sua própria esfera de influência. Se mais pessoas fizerem isso, melhor será a nossa sociedade. É um efeito cascata ou borboleta. Ainda assim, você não vai ouvir abertamente esses conceitos em minha música. Nem no meu próximo álbum, o "Moonchild". No entanto, se você olhar para a minha mídia social, falo muito sobre isso. Acho que muitos outros artistas são da mesma maneira. Enquanto sua música não está abordando diretamente ou protestando contra os problemas reais do mundo. Suas mídias sociais, que as pessoas seguem por causa da música, abordam todos os tópicos importantes. Lá eles se posicionam publicamente a favor e contra muitas questões. Acho que nos dias de hoje isso pode até ser mais eficaz do que música de protesto. Nós vivemos em um tempo diferente.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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