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Jazz and Blues, lenda da noite da Grande SP, recebe justa homenagem

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30/11/2018 19h26

Marcelo Moreira

Para os devotos, a casa pequena e acanhada era chamada de "O Templo". Para os aficionados, era a "A Casa". Para os simples amantes da música, nem tinha nome: quando alguém dizia "vamos lá?", todos já sabiam do que se tratava.

O nome era mais direto e simples possível: Jazz and Blues, casa notável e d fama internacional que ficava no fim de uma rua longa que "desaguava" em outra importante do bairro Jardim, em Santo André, no ABC Paulista. Rivalizava em prestígio com o Blue Note e com o Bourbon Street, ambas na zona sul de São Paulo.

Era no fim do mundo para a maioria dos amantes de boa música e para os melhores instrumentistas do mundo, mas mesmo assim todos estavam lá para ver as feras internacionais que tocavam em São Paulo e que depois topavam encarar 20 quilômetros até o subúrbio para relaxar, beber e tocar, tocar muito até o dia amanhecer.

Assim como muitas das casas de show/bares lendários que sucumbiram por conta das eternas crises brasileiras – ou por causa dos preços abusivos dos aluguéis, ou por causa da má administração, ou por causa da briga dos sócios, ou por causa da fuga do público – o Jazz & Blues foi definhando até que, infelizmente, ninguém mais falava sobre o local. Desapareceu após 15 anos de música boa, e por algum tempo ninguém pareceu sentir a sua falta.

André Christovam, um dos músicos mais assíduos do Jazz & Blues (Foto: Divulgaçao/Morgade)

Demorou, mas finalmente alguém lembrou da tradicional casa de música excelente e resolveu fazer uma homenagem. O Instituto Acqua promove o 'Tributo ao Jazz and Blues – Mémória, Música e Amigos', neste sábado, 1º de dezembro, a partir das 15h, no espaço cultural da Avenida Lino Jardim, 905, Vila Bastos, em Santo André (SP).

A iniciativa vai reunir shows gratuitos de Michel Freidenson, Sylvinho Mazzuca, Duda Neves e participações especiais de Bocato, Celso Pixinga, Edu Moreno, Clecio Braga e Vasco Faé.

Além das apresentações musicais, o espaço irá contar com a comercialização de comidas de boteco do chef Bruno Wolf e cervejas e chopp da marca Votus.

O Jazz and Blues, que movimentou a cena musical no Grande ABC entre 1981 e 1996, reuniu centenas de artistas das duas vertentes para se tornar referência para as sete cidades da região e capital paulista.
"O Jazz and Blues foi muito mais do que um bar ou ponto de encontro, se transformou em uma casa de música e a casa dos músicos. Era lindo viver aquele momento e a efervescência da casa. Essa homenagem que o Acqua nos traz é, sem dúvida, uma oportunidade para rever amigos e, claro, relembrar boas histórias", comenta Inara Cattaruzzi, uma das ex-sócias do Jazz and Blues.
Nomes como André Christovam e Faiska – nome artístico de José Eduardo Fernandes Borges, ambos guitarristas e compositores nacionais, eram presenças frequentes no Jazz and Blues.
À época o bar contava com estilo intimista projetado em uma casa localizada no Bairro Jardim e provava ser um "laboratório" para diversos músicos que estavam iniciando a carreira.
"Usei a casa a meu favor para montar um projeto musical com outros músicos e sempre tocava por lá às sextas, sábados e domingos. Era um período de aprimoramento e grande convivência, troca de experiências. Você tinha outras casas surgindo em São Paulo, mas nenhuma tinha o clima do Jazz and Blues. Só quem presenciou aqueles anos sabe descrever esse tipo de encantamento que nós tínhamos", opina André Christovam, talvez o grande nome da guitarra blues do Brasil e que hoje mora na Escócia.
A mesma visão mantém Faiska, que junto às bandas Zona Sul e T.N.T integrou diversas apresentações no "Jazz". "Pelo menos duas vezes ao mês eu tocava no Jazz and Blues ao lado de artistas como Celso Pixinga, além da minha banda da época, a Zona Sul. Era um bar mágico que reunia os melhores músicos e funcionava também como uma espécie de escola para outros que estavam inciando a carreira musical", relembra.
Além de músicos brasileiros, o Jazz and Blues recebeu duas presenças de artistas internacionais que marcaram a história da casa, como o guitarrista norte-americano de blues, Buddy Guy, e o gaitista Sugar Blue, conhecido por tocar no single dos Rolling Stones, "Miss You".

Vasco Faé (FOTO: DIVULGAÇÃO)

"Essa diversidade com que o Jazz and Blues permaneceu ao longo de 16 anos de atividade e ao mesmo tempo sendo um berço para artistas e entusiastas despertou nossa atenção para integrar o projeto ABC das Artes, do Instituto Acqua, que enaltece artistas e movimentos culturais da região. Essa homenagem que estamos trazendo é um agradecimento ao Jazz and Blues e uma valorização e resgate à cultura regional", pontua Ronaldo Queródia, idealizador do evento.
Maisa Zanetti, ex-sócia da casa Jazz and Blues ao lado de Inara, descreve o período de atuação do empreendimento como transformador. "O Jazz nunca foi um negócio para nós, era muito divertido estar presente naquele momento rodeada por amigos. Não tínhamos noção do que o Jazz and Blues iria se tornar, não só nas nossas vidas, mas como na vida de muita gente. É gratificante conhecer cada história. Para mim, Inara, Fábio e Mauro, que não está mais com a gente, o Jazz foi o melhor de nossas vidas".
Em formato de tributo, as apresentações musicais contam com músicos que fizeram parte do Jazz and Blues em várias fases da casa. O Power Trio composto por Michel Freidenson, Sylvinho Mazzuca e Duda Neves é a banda base que começa a tocar às 16h. Na sequência, mesclam as participações especiais de Bocato, Celso Pixinga, Edu Moreno, Clecio Braga e Vasco Faé. Os shows vão até às 20h30.
Na ocasião, o público também poderá conferir um documentário sobre o Jazz and Blues com alguns depoimentos de músicos, parceiros e clientes da casa. O guitarrista da banda Sepultura, Andreas Kisser, é um dos artistas que tiveram forte relação com o Jazz and Blues e participa do vídeo.
"Trabalhei como garçom no "Jazz" durante um dia, mas a minha ideia era estar perto dos artistas e respirar aquela movimentação. Um lugar que deixa muita saudade e orgulho", lembra.
Serviço
Tributo ao Jazz and Blues 
Sábado, 1 de dezembro, a partir das 15h
Local: Instituto Acqua – Avenida Lino Jardim, 905, Vila Bastos, Santo André (SP)
Entrada gratuita
Mais informações: (11) 4823-1800

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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