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Versão expandida do 'Álbum Branco' exalta a criatividade dos Beatles

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23/11/2018 06h37

Marcelo Moreira

A arte pode ser libertadora, mas também castradora e inibidora. Os Beatles descobriram isso da pior forma possível quando inauguraram aquilo que conhecemos como "show business e todos os seus excessos.

Exaustos e à beira do estresse criativo com a rotina absurda de shows e compromissos comerciais, viraram o jogo e largaram a escravidão do mundo dos negócios expandiram ainda mais sua música, por mais que administrativamente suas vidas tenham virado um caos.

Certamente os quatro integrantes abençoaram esse caos, que veio após o lançamento do maravilhoso "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", em 1967, e da morte do empresário Brian Epstein, alguns meses depois.

E eis que a maior de todas as bandas entra em um período conturbado e rico, com muitos sucessos e alguns fracassos, tudo permeado com a melhor música que o mundo pop pôde produzir e ouvir.

Muito já se falou que não era fácil ser um beatle – quem em sã consciência pensaria que fosse? – e isso ficou patente nas filmagens e no filme "Let It Be", o retrato melancólico de uma banda no fim de sua trajetória.

Só que também havia o outro lado – o gosto sensacional de um beatle criando e ensaiando ao lado de outros beatles. Muitos álbuns piratas mostraram o clima de bastidores das gravações e ensaios da banda, mas nada tão rico e organizado como o que podemos observar na edição de luxo que comemora os 50 anos do lançamento de "The Beatles", o "Álbum Branco".

Em um magistral trabalho arqueológico de recuperação de arquivos, de remasterização e decupagem, eis que temos uma caixa histórica com seis CDs e um livro sensacional contando a história da banda naquele período conturbado de 1968, quando o navio começava a naufragar.

Além do álbum duplo original, os editores da obra, que contou com a ajuda providencial de Giles Martin, o filho do produtor George Martin, resgatam material extra de arquivo e registro importantes de ensaios. E o que vemos é um quarteto entrosado, profissional e perfeccionista.

Há alguma conversa, piadas e um clima um pouco mais tranquilo do que o clichê a que nos acostumamos em relação ao final dos Beatles – integrantes às turras uns com os outros, brigas e até mesmo abandono temporário do grupo, como fizeram Ringo Starr e George Harrison naquele período.

É certo que tudo isso ocorreu, mas também fica claro que havia uma parceria prolífica e um comprometimento com o trabalho de composição e ensaios – e o CD que registra os trabalhos na propriedade de Esher, as chamadas "Esher Demos", mostram isso: músicos trabalhando mais relaxados, sem a pressão de prazos de entrega ou o cansaço pós-turnês – já fazia dois anos que tinham abandonados os palcos para se concentrar em álbuns e singles.

Embora seja uma raridade encontrar os quatro juntos nas faixas que compuseram o álbum oficial, as sobras de estúdios e takes de ensaios revelam que o "Álbum Branco" foi uma obra coletiva de muita qualidade.

A pressão que havia era para que houvesse um conjunto de músicas que ao menos igualasse as que tinham sido lançadas em Sgt. Pepper's" e em "Magical Mystery Tour". Geralmente autoconfiantes até as raias da pretensão e da arrogância, os músicos passaram a ser obsessivos na lapidação das canções, algo que que era raro nos trabalhos anteriores.

"Rocky Racoon", por exemplo, de Paul McCartney, exigiu um trabalho extra de revisão e substituição de palavras na quilométrica letra. John Lennon realizou também um trabalho de ourivesaria em "Happiness Is a Warm Gun", que teve outras versões, ao contrário da pungente "Julia".

Muito pouca coisa do que está nos quatro discos adicionais era novidade, já que a pirataria em torno dos Beatles sempre foi extensa. No entanto, a importância do material agora lançado é grande, pois oficializa, com qualidade decente, aquilo que outrora só estava disponível para colecionadores – e nem sempre era bom de se ouvir.

Muito se fala na versão estendida de "Helter Skelter", com seus 12 alucinantes minutos, ou das várias versões de "Revolution", que vai da balada jazz ao country sussurrado, muito diferente da versão single que foi lançada também em 1968.

Também é possível entender, de alguma forma, como músicas ou esboços de músicas foram abandonados, como é o caso de "Not Guilty" e "What's the New Mary Jane". As tentativas de ensaios mostram que ou não eram tão boas ou que, em algum momento, o processo criativo empacou e não avançou.

No que vemos nesta versão expandida, dá para perceber, em certos momentos, o pouco entusiasmo na execução e na busca de arranjos para essas faixas e também para "Mean Mr. Mustard" que, curiosamente, seria resgatada no álbum seguinte, "Abbey Road", na realidade o último de verdade dos Beatles – "Let It Be" foi lançado depois, mas as gravações deste ocorreram antes de "Abbey Road".

Existe uma parcela de críticos musicais que questiona o lançamento de dessas versões "super deluxe ediitions", com sua multiplicidade de gravações cujo interesse raramente ultrapassa o dos fanáticos colecionadores ou aficionados audiófilos. Quando se analisa esse tipo de lançamento, fica difícil separar o que realmente tem valor artístico, o que é uma raridade importante ou o que é mera encheção de linguiça.

Quatro ou cinco takes da mesma mesma música? Será que há interesse nisso, quando o que temos é apenas uma mudança de andamento ou arranjos ligeiramente diferentes? O o que dizer de um ensaio em que os músicos erram seguidamente a execução e caem na risada?

Talvez essa edição de 50 anos do "Álbum Branco" contenha excessos nos quatro discos adicionais, mas é altamente válido por finalmente trazer a público, de forma oficial, o que circulou por 50 anos em versões ruins, abafadas e quase inaudíveis.

Seu interesse extrapola ao dos colecionadores ao oferecer ao grande público uma amostra interessante dos bastidores de criação da maior banda de todas. As várias criações individuais se transformam  em uma colaboração coletiva e ajuda a desmitificar algumas lendas em torno da obra mais diferente que os quatro produziram.

Muitos vão caçar mais indícios que já não eram mais uma banda; outros vão percorrer os meandros dos ensaios para estabelecer em que momento existiu uma colaboração de fato dos quatro músicos em um álbum tão desigual, irregular e, paradoxalmente, tão revelador da alma e do cérebro de cada beatle.

Se a colagem sonora "Revolution 9", de John Lennon, é a metáfora do que realmente se tornou o "Álbum Branco", então podemos dizer que os Beatles eram geniais até mesmo na hora de juntar retalhos e lançar em formato de álbum às vésperas do fim do sonho.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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