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Extinção da cultura do Sistema S: arte é a inimiga do novo governo

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22/11/2018 06h35

Marcelo Moreira

Muita gente ainda está em choque com as declarações do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes. a respeito do Sistema S e de suas "novas velhas atribuições".

A brincadeira do "eu te disse" a respeito das intenções depredadoras do governo Jair Bolsonaro (PSL), tão presente nos primeiros três dias após o segundo turno das eleições – milhares de eleitores do capitão se mostraram arrependidos de ter votado nele – atingiu em cheio a comunidade artística.

Não foram poucas as mensagens que recebi de roqueiros irados que votaram em Bolsonaro ou anularam o voto por conta da intenção de Guedes de reduzir o dinheiro para atividades culturais do Sesi, do Sesc e do Senac.

"São serviços sociais que contam com verba pública. Precisam ter suas atividades focadas somente nas atividades de formação do trabalhador. Todo o resto é secundário", disse o guru da economia bolsonarista.

Curiosamente, dias antes, o diretor do Sesc-SP Danilo Santos de Miranda – um dos principais dirigentes da entidade também em nível nacional – divulgou nas redes sociais um vídeo de oito minutos antecipando essa provável medida que o novo governo tomará.

Com voz grave, mas em tom de resignação, Miranda contou um pouco da história do Sesc em São Paulo e de sua importância no fomento de atividades culturais no Estado e em todo o Brasil.

Mano Sinistra ao vivo no Sesc Belenzinho (FOTO: MARCELO MOREIRA)

Aproveitou e deu exemplos de como eventos impulsionados pelo Sesc tiveram impacto gigantesco na história das artes e da cultura do Brasil. Por enquanto, apenas o meio cultural se deu conta do que está para acontecer.

O vídeo de Miranda é importante, mas lhe faltou contundência. Se o que o desinformado e desatento Paulo Guedes efetivar mesmo a sua ideia de destruir a parte cultural do Sistema S, o Brasil provavelmente viverá a sua maior tragédia nas áreas de educação, entretenimento, cultura e artes.

O Sesc hoje, até mais que seus irmãos de Sistema S, é o porto seguro da cultura e das artes em tempos de crise brava. Com suas curadorias geralmente competentes, realiza um serviço inestimável ao povo brasileiro. Busca a excelência da cultura fora dos circuitos comerciais tradicionais.

Quem não se lembra da vinda de Lou Reed, anos atrás, no Sesc Pinheiros, para tocar uma de suas peças mais experimentais? Ou este ano, quando várias unidades pelo Estado de São Paulo receberam shows de artistas de jazz em agosto, dentro do fantástico festival Jazz na Fábrica?

Que o digam os grandes blueseiros brasileiros, que frequentam os palcos do Sesc em turnês de vários dias com suas bandas ou acompanhando astros norte-americanos do gênero, como James Cotton, Tia Carrol, Rod Piazza e muitos outros…

O Sesc, já há muitos anos, é a entidade que melhor remunera os artistas, o que gera, inevitavelmente, competição acirrada, ressentimentos e acusações de privilégios e "panelinhas". Mais do que o porto seguro das artes brasileiras, o Sistema S é um ponto de excelência e de educação e disseminação de vida inteligente.

Marcel Naves (centro) e Danilo Simi (dir.) em ação no Sesc Rio Preto, em julho de 2014, acompanhados por Nicolas Simi (esq.) (FOTO: MARCELO MOREIRA)

Não foi por falta de aviso, durante a campanha eleitoral, que o conhecimento e a cultura seriam drasticamente depredados. Muita gente não acreditou nisso e em outras supostas bravatas e medidas lesivas aos trabalhadores e às minorias. Eu sempre acreditei nestas maldades e sempre tive a convicção de que seriam implantadas em seu governo caso ganhasse o pleito.

O fim do dinheiro para a cultura e às artes por parte do Sistema S será uma tragédia imensa para a sociedade. É até difícil medir de alguma maneira o impacto. Não seria possível substituir, mesmo que minimamente, por nada parecido.

Infelizmente, não dá para engolir o "arrependimento" de quem votou na excrescência de extrema-direita – muito menos de músicos e artistas que demonizaram o PT e toda a esquerda acreditando que as hostes bolsonaristas acabariam com "tudo o que está aí".

"O cara é louco, vai acabar com o Sesc. Será que ele tem noção do que significa isso", escreveu em um e-mail para mim um dos melhores saxofonistas do Brasil.

Por meio do Facebook, um guitarrista de rock que perdeu a conta de quantos shows fez em Sescs do Brasil nos últimos 30 anos gritou palavrões contra o "seu" candidato e afirmou, em tom de lamento, que pensa ou em sair do Brasil, procurar um emprego "normal" ou estudar uma nova profissão.

Para outro músico, a questão é preocupante, pois poderá provocar uma cascata de desemprego formal e de fim de trabalho para muita gente que atua no circuito ou em torno do próprio Sesc. "Se a visão é puramente de planilha, de cegueira administrativa, mostra claramente que a inexperiência vai afundar esse governo; se a questão é puramente ideológica, demonstra um altíssimo grau de burrice, pois mostra claramente que a motivação é retaliar a classe artística, que supostamente teria votado, em sua maioria, em Fernando Haddad. Seja qual for a motivação, perdemos todos."

Sérgio Duarte e sua banda em ótimo show no Sesc Belenzinho, (foto: JAVALLIM BLUES)

As identidades estão sendo preservadas por motivos óbvios, em tempos de ódios e perseguições por motivações políticas.

Para algumas pessoas que ligadas ao meio artístico e que desdenharam das bravatas de Bolsonaro e asseclas, a decepção e a frustração com as primeiras medidas anunciadas passaram rápido.

Em seus lugares apareceram o arrependimento do voto e a raiva por conta do possível desaparecimento do Sistema S como disseminador de cultura.

O ódio cego à esquerda e a "tudo o que está aí" se transformaram em bumerangue destroçador, como bem definiu um colunista político. Quem votou pelo ódio e sem pensar – especialmente as pessoas do meio artístico – está colhendo o fogo devastador da extinção da cultura e de programas que a estimulam.

Cultura, arte e entretenimento vão virar artigo de luxo ou coisa de gueto? É difícil saber. O que está claro é que as três coisas, junto com o conhecimento, está se tornando alvo preferencial do ataque das forças obscurantistas, medievais e fascistas, que por enquanto estão personificadas em Bolsonaro e nos seres retrógrados que se apoiam nas seitas evangélicas.

O fim da cultura do Sistema S pregado pelo governo eleito será somente o primeiro dos muitos ataques à cultura e ao conhecimento.

Para quem duvidava do avanço do pensamento fascista na sociedade brasileira, as palavras de Paulo Guedes contra o Sistema S têm o impacto de uma bomba atômica. Estejamos preparados: outras bombas do mesmo calibre virão.

Ira! Folk no palco do Sesc Vila Mariana, em São Paulo (FOTO: RICARDO ALFREDO FLÁVIO)

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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