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Combate Rock

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Uma análise sobre a banda de rock Queen e a política brasileira da ditadura

Combate Rock

08/11/2018 06h52

Carlos Lopes * – especial para o Combate Rock

Novembro de 2018.

Uma época trágica e de reflexão.

Fui ao cinema para espairecer… Como se fosse possível…

Escolhi o filme Bohemian Rhapsody sobre a banda Queen, os Beatles da minha geração, tecelões de grandes canções. Tendo sido mais uma sessão espírita, do que um filme, não tardaram a emaranhar-se a banda e a história política do Brasil, ainda mais neste momento.

1985 – 2018.

Estive no Rock In Rio em 1985 com os pés cheios de lama e urina pelos joelhos.

O rock rolava na semana da eleição, mesmo indireta, do civil Tancredo Neves, um conciliador algodão entre diamantes. Mas ocorreu o pior… ou o combinado… E assim como teme-se até hoje, o jogo foi decidido entre quatro paredes e patentes. Neves faleceu de forma misteriosa nos legando uma inebriante sensação de nunca termos sido. Filhos de um Sebastianismo teimoso.

E aos primeiros minutos do filme me perguntei: "Teria o Queen marcado o início e o fim da democracia no Brasil?"

Há 30 anos, o Brasil tem uma Constituição que muitos já consideram morta. Exemplos não faltam. O candidato eleito jura defender a Constituição, a mesma que ele insulta há décadas.

Uma cena do filme "Bohemian Rhapsody" me chamou – muito – a atenção.

Freddie Mercury em uma de suas últimas apresentações com Queen, em 1986 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Em 1975, a banda tenta convencer o diretor da gravadora EMI a aceitar a faixa operística "Bohemian Rhapsody" como carro-chefe de um compacto, mas o gerente alega que a banda precisa de um sucesso, de uma faixa fácil de ser entendida pelos adolescentes. Essa é uma discussão de Sísifo: criar arte que se desenvolva e que ajude a desenvolver o ouvinte ou prosseguir em uma arte que mantenha o ouvinte no mesmo lugar, como um agente passivo. Nesse momento da película, o advogado da banda, apelidado de Miami, aponta um disco na parede do escritório, um LP campeão em vendas: Dark Side of the Moon da banda Pink Floyd.

Essa cena ocorreu em 1975 e, mesmo distante no tempo, se liga ao Brasil de novembro de 2018, a mesma data do lançamento do filme no país. Acabamos de receber o ex-baixista do Pink Floyd, Roger Waters que posicionou-se frontalmente contra o candidato de extrema direita à presidência do Brasil. E foi vaiado por isso…

A apresentação do Queen no primeiro Rock In Rio festival em 1985 ocorreu na mesma semana em que o primeiro presidente civil do Brasil foi eleito após 21 anos de ditadura militar. O festival teve início em 11 de janeiro e a eleição ocorreu no dia 15. Em tese, o festival deveria ter sido um local de celebração da liberdade, da democracia, mas não foi bem assim.

A Democracia e o Republicanismo necessitam de quem entenda e apoie a liberdade, a justiça e a igualdade social, mas após 21 anos de ditadura, a maior parte daqueles milhares de jovens que foram ao festival não tinham capacidade de entender a importância daquele momento. E um exemplo dessa incompreensão e desrespeito ocorreu no primeiro Rock In Rio no show do Queen quando parte da platéia de 300 mil pessoas vaiou Freddie Mercury por ter-se vestido de mulher para cantar "I Want To Break Free".

Esse fato ocorreu em 1985, mas houve uma reação semelhante 33 anos depois quando parte da platéia de Roger Waters o vaiou por discordância política.

Em tese, quem vai a um show de rock espera contestação, reflexão, raciocínio e não vai ao show apenas para dançar ou bater cabeças. Apesar disso, boa parte da audiência brasileira vaiou o músico porque essa platéia ainda não entende que rock não é uma música conformista. Rock também é uma plataforma para mudanças culturais, sociais e políticas.

O público que vaiou Roger Waters votaria em nazistas ouvindo The Wall? A resposta é assustadora…!

Patologia, doença mental, da alma, tanto faz! São pessoas que sofrem de dissociação cognitiva, dificuldade em entender as mensagens, as letras.

Rami Malek como Freddie Mercury (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Três meses antes de tocar no Brasil em 1985, o Queen havia se apresentado na África do Sul em outubro de 1984 furando um bloqueio internacional contra aquele país que praticava o Apartheid, um sistema político que discriminava a população negra. E quando o Queen cá se apresentou pela primeira vez em 1981, tampouco se incomodou com militares que torturavam e matavam inocentes.

Havia um prisioneiro político sul-africano naquele momento. O seu nome?  Nelson Mandela. Comparem com o que ocorre no Brasil hoje em relação ao Presidente Lula, também um preso político condenado para que não levasse a eleição presidencial no primeiro turno.

A conexão entre a banda Queen e o Brasil não cessam.

Em 1964, houve um golpe militar de extrema direita no Brasil e curiosamente no mesmo ano, houve um golpe em Zanzibar, terra natal de Freddie Mercury, o vocalista do Queen. Zanzibar é um arquipélago na costa leste da África que hoje, faz parte de um país chamado Tanzânia. O golpe neste arquipélago em 1964 levou a família do vocalista a se exilar na Inglaterra, o país dos colonizadores.

Tenho lido na imprensa brasileira que alguns espectadores têm abandonado as sessões do filme, chocados com o fato de Mercury ser gay! Como se isso fosse novidade! E como se isso interferisse na qualidade de sua música! Lembra-se, sem querer comparar deuses, da reação de parte do público ao filme A Paixão de Cristo de Mel Gibson.

Macartismo sul-americano, lavagem cerebral e Cambridge Analytica.

Outro detalhe importante nessa história é que Rami Malek, o ator que interpretou Mercury, tem ascendência egípcia e nesse momento, ao saber que o novo governo brasileiro pretende transferir a embaixada de Tel Aviv  para Jerusalém, o governo egípcio desmarcou a visita do chanceler brasileiro ao país, em cima da hora. Uma retaliação diplomática.

Freddie Mercury faleceu em 24 de Novembro de 1991, curiosamente o mesmo dia, mês e ano da morte de Eric Carr, baterista da banda Kiss que havia tocado em um show histórico no estádio do Maracanã no Rio de Janeiro em 1983 para 250 mil pessoas, o mesmo público do Queen no Rock In Rio.

Bandas como o Queen e o Kiss abriram portas em um novo mercado, apesar da falta de estrutura do país, mas mesmo que não soubessem ou quisessem, se conectaram à história política do país. Ambas cá se apresentaram em um período de transição política e social.

Em 1985, o Queen participou da mudança de regime, da ditadura para a democracia e hoje, em 2018, misteriosamente participa da mudança da democracia para o regime "Ame-o ou deixe-o!"

God save the Queen!

"Ensinam pessoas a odiar. E, se aprendem a odiar, as pessoas também podem aprender a amar."

Nelson Mandela.

* Carlos Lopes é jornalista, escritor, ilustrador e músico. Filho de operários, nascido em agosto de 1962, sua geração foi profundamente marcada pelo golpe militar em março de 1964. Fundador da Dorsal Atlântica em 1981, uma das primeiras e mais populares bandas de heavy metal brasileiro, Lopes foi entrevistado para o documentário canadense Global Metal de Sam Dunn e Scot McFadyen, lançado em 2008. A carreira literária teve início nos anos 90, como jornalista de rock, e com os livros Guerrilha (1999), Os Argonautas (2002), O Segredo J (2009) e Mágica Vida Mágica (2011). Como quadrinista ilustrou e escreveu a História em Quadrinhos sobre a banda Dorsal Atlântica (2017) e a revista Tupinambah (2018).

http://www.tupinambah.com.br/

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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