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Combate Rock

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Após a tragédia, o conhecimento se torna o primeiro alvo do fascismo

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30/10/2018 07h04

Marcelo Moreira

Conhecimento e informação são tudo na vida, diriam alguns especialistas em semiótica. E isso assusta os burros, os incapazes e os desinformados. Estes, geralmente, são fascistas, ainda que, por burrice, não saibam que o são.

O conhecimento e a inteligência se tornaram alvos daqueles que defendem as trevas e que estão alinhados com o presidente eleito do Brasil, o nefasto Jair Bolsonaro (PSL).

Não basta ele querer colocar no ministério da Educação um general chucro e sem o menor estofo cultural. Sua gente ameaça e intimida professores, artistas e políticos adversários, principalmente nas universidades.

Atacar e intimidar o conhecimento é a primeira coisa que fascistas e gente autoritária fazem quando chegam ao poder.

Horas após o anúncio da vitória, recheado de tiroteios em comemoração, os ataques à liberdade do ensino nas universidades começou.

Uma deputada estadual eleita em Santa Catarina decidiu "criar" um serviço de delação onde alunos poderiam, sob anonimato, denunciar professores que estivessem em "desacordo" com a "isenção ideológica" na sala de aula. Ou seja, quer implantar na marra a Escola Sem Partido, uma das maiores bobagens da história da humanidade.

Na Universidade de Brasília (UnB), 15 idiotas que se diziam apoiadores de Bolsonaro resolveram fazer uma manifestação de comemoração e atraíram a ira de mais de 500 alunos.

Seriam apenas 15 idiotas comemorando e falando algumas bobagens, cantando musiquinhas, se não fossem as provocações ofensivas às minorias (como sempre) e as costumeiras intimidações e ameaças contra os opositores. Tiveram de sair escoltados por policiais militares e acabaram por fomentar uma manifestação antifascista.

O comportamento fascista no dia seguinte à vitória do nefasto candidato teve o ápice na divulgação de uma lista de celebridades/artistas que devem ser boicotados.

Boicotes fazem parte da vida em qualquer sociedade democrática – a esquerda mesmo recorreu a esse expediente há 30 anos, quando Regina Duarte decidiu apoiar Fernando Collor de Mello.

O que não faz parte é o boicote político aliado à incitação à intimidação, ameaça – só faltou a questão da incitação à violência contra cantores e atores, mas essa situação ficou implícita, é claro.

Não que Caetano Veloso esteja muito preocupado com om boicote de meia dúzia de imbecis, assim com os atores da TV Globo que se engajaram na campanha antifascista e anti-Bolsonaro.

A questão é mais complicada porque é assim que começam os surtos de violência nos regimes autoritários contra quem pensa diferente. Primeiro são as listas de artistas e celebridades que são "contra nós".

Depois surgem as listas dos comerciantes que são "contra nós". Em seguida, a dos comerciantes que vendem coisas das quais "nós não gostamos".

Na sequência, a lista de professores, intelectuais, cientistas e qualquer outro especialista que fala contra "nós". E na fila aparecem os torcedores dos times aos quais "detestamos", os moradores dos bairros "que odiamos e que votaram contra nós", as pessoas de etnias às quais "desprezamos"…

O alvo no momento é quem produz conhecimento, conteúdo e informação 0 – por consequência, professores e jornalistas.

O assessor de imprensa de Bolsonaro, um estúpido que não merece ter o nome citado, afirmou, após a vitória, que jornalistas são lixo. Paulo Guedes, o economista que será o verdadeiro administrador do país, foi extremamente grosseiro com jornalistas estrangeiros nos dia seguinte à eleição.

O conhecimento assusta os ignorantes. Quem detém o conhecimento tem argumento e tem mais facilidade para assumir o controle ou para desconstruir as farsas e mentiras.

Fascistas são mentirosos e mitômanos, sem conteúdo e quase sempre sem inteligência. Não se sustentam na frente de quem tem conhecimento, por isso morrem de medo de professores, cientistas e intelectuais de esquerda. São constantemente desmascarados, o que aumenta a dose de fúria dessa gentalha, formada por uma imensa maioria de indigentes intelectuais.

Artistas são disseminadores de conteúdo e de conhecimento, e também produzem conhecimento. Músicos produzem muito conhecimento – o ex-Pink Floyd Roger Waters que o diga. Esse tipo de gente assusta fascistas.

E como os fascistas são covardes, têm pavor das liberdades individuais. Têm pavor da liberdade de expressão, de opinião e de imprensa. Morrem de medo da livre circulação de ideias.

Alguns tentam se agarrar a teorias pífias de cunho religioso ou moral como base para disseminar o ódio, mas somente o que conseguem é passar vergonha, o que só aumenta a fúria desses porcos, ma melhor acepção do termo proposto por George Orwell, autor de "A Revolução dos Bichos", e tão bem musicada pelo Pink Floyd no álbum "Animals", de 1977.

Outros até tentam se refugiar na retórica nacionalista/patriota, passando ainda mais vergonha. Quando o que sobra de boia de salvação é o patriotismo e o lixo religioso, é difícil não conter o riso diante do fracasso dessa gente indigente intelectualmente.

É sempre bom lembrar a frase do escritor e pensador inglês Samuel Johnson (1709-1984): "O patriotismo é o último refúgio do canalha". Ele fazia referência ao partido que apoiava na época, os Patriotas, e que, na sua visão, começava a ser minado pela presença cada vez maior de oportunistas em suas fileiras (os tais canalhas).

Professores, artistas e produtores de conteúdos terão uma longa batalha nos próximos anos contra a patrulha moral-autoritária-religiosa-fascista, grupo que reúne o que de pior a sociedade produziu, gente que acha que tem o direito e o dever de interferir na vida privada das pessoas e de dizer o que podemos e devemos ouvir/ler/consumir/falar/pensar. Essa gente é nefasta e espalha retrocesso em todos os níveis.

O conhecimento é o primeiro alvo, mas também é a primeira e mais importante trincheira na luta contra as trevas.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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