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'Shadow Work', CD póstumo brasileiro a Warrel Dane, é mais que um tributo

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29/10/2018 06h44

Marcelo Moreira

Warrel Dane (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Era improvável que um chefe de cozinha renomado no oeste dos Estados Unidos e empresário, dono de um restaurante concorrido, largasse o trabalho por alguns dias para percorrer um país imenso tocando com músicos locais e cantando sucessos de suas ex-bandas.

Não estamos falando de Henrique Fogaça, o carrasco do programa Master Chef, da TV Bandeirantes, e que canta no Oitão, uma paulada hardcore.

Mais improvável ainda era ver Warrel Dane, ex-Nevermore e Sacntuary, sentado em um canto de um bar de Santo André, no ABC Paulista, conversando animadamente com fãs e músicos sobre qualquer coisa e qualquer assunto. O cara adorava conversar.

É essa lembrança no bar A Gruta, no ABC, que muitos dos metaleiros paulistas terão do cantor de voz potente e rouca, que adorava vir ao Brasil para tocar em todos os lugares possíveis com uma banda formada por brasileiros ávidos por aprender um pouco com o mestre norte-americano.

"Na verdade, eu é que aprendo com todos vocês. É bom me sentir parte de orgânico de novo, de vez em quando nem lembro que tenho minha vida na gastronomia e me sinto parte deste 'recomeço', com todo mundo ralando e se divertindo", afirmou o músico tomando sua água com gás.

Por isso é que dá um nó na garganta quando escutamos "Shadow Work", o CD que ele gravava em São Paulo com seus amigos brasileiros no final de 2017.

Dane morreu aos 56 anos em 13 de dezembro do ano passado em meio às gravações do segundo álbum solo. Ele foi vítima de um ataque cardíaco fulminante, um quadro que pode ter sido agravado por conta de diabetes.

"Shadow Work" é uma das amostras dos motivos de ele adorar São Paulo e os amigos brasileiros que o ajudaram nas gravações. É um metal moderno, contagiante, com excelência técnica na execução das músicas e cheio de entusiasmo.

É uma obra bacana e interessante, mas é inevitável a percepção de que é um conjunto de músicas urgente – e também passa a impressão de que é um trabalho inconclusivo.

A produção é boa e tentou corrigir alguns desníveis naturais em um trabalho que foi interrompido de sua metade. Quando morreu, Dane estava no processo de iniciar as gravações definitivas dos vocais.

Como o trabalho estava bem cru, segundo pessoas próximas ao cantor norte-americano, os músicos da banda brasileira que o acompanhava tiveram que se desdobrar para concluir a missão sem o mestre.

Thiago Oliveira (guitarra), Johnny Moraes (guitarra), Fabio Carito (baixo) e Marcus Dotta (bateria) superaram em parte o luto e partiram para terminar o CD, sendo que muitos dos vocais, gravados em vários estúdios, foram resgatados das sessões de pré-produção.

Warrel Dane não precisou fazer grandes modificações em seus vocais poderosos, embora tenha variado mais entre os urros, o canto rasgado e algumas passagens mais limpas.

O instrumental é que pode ser considerado o diferencial, já que foge do metal arrastado e denso do Nevermore. os brasileiros trataram de deixar o som mais encorpado, com nítida influência do metal tradicional com pitadas de power metal.

Claro que há remissões à antiga banda de Dane, mas o furacão sonoro das duas guitarras dá o tom nas oito músicas, com um resultado muito bom.

"Ethereal Blessing" é uma abertura poderosa, com guitarras na cara e um baixo trovejante. O quinteto começou com o pé no acelerador, deixando claro que a faixa é a melhor do álbum. É também, de longe, a melhor performance vocal de Dane no álbum.

"Madame Satan" mantém o pique, embora um pouco mais cadenciada e com solos de guitarra de ótima qualidade, mas a pancadaria é retomada com a ótima "Disconnection System", a mais pesada do álbum.

"Shadow Work" e "Rain" também são destaques, com suas variações melódicas e versatilidade, deixando claro que Warrel Dane era um cantor diferenciado em todos os sentidos – tinha pleno domínio de seu "instrumento" e conseguia passar de um estágio a outro com uma facilidade desconcertante.

Não é uma tarefa fácil ouvir "Shadow Work" sem dissociar o contexto em que foi concebido, gravado e lançado. Há conteúdo emocional que extrapola a simples composição/divulgação de um álbum como esse.

Não é genial (e nem poderia ser por conta das circunstâncias) e possivelmente não estará na maioria das listas de melhores do ano, só que sua qualidade extrapola a simples análise técnica.

Resultado de um esforço coletivo extraordinário, deve ser considerado como um melhor tributo possível a um dos ,mais interessantes artistas de heavy metal dos últimos 20 anos.

Conexão brasileira

"Minha música é muito apreciada, eu sei disso, mas parece que no Brasil as coisas saem fora do controle, aqui a galera realmente reverencia o Nevermore e o Sanctuary. Eu me sinto revigorado quando venho ao Brasil", disse o músico em Santo André enquanto gastava a caneta assinando capas de CDs e camisetas em sua primeira visita ao país,

Foram pelo menos três vindas ao Brasil para tocar em várias partes do país, sempre com o suporte do amigo e produtor Tiago Claro, da TC7 Produções e guitarrista do Seventh Seal, que fazia questão de levar o cantor aos bares que frequentava.

"Dá para dizer que o cara é gente como a gente, Tiago?", perguntei certa vez a ele no bar A Gruta, em outra oportunidade. "É gente boa demais. Tem, orgulho da carreira, mas não é deslumbrado e trata a gente como pessoas normais. Ele é como nós."

O cantor esteve no Brasil novamente em maio deste ano, onde fez uma miniturnê com as bandas Nervosa, Abiosi e Seventh Seal. Um dos shows mais concorridos ocorreu em Ribeirão Preto, no Casarão.

Cartaz do show em Ribeirão Preto, em maio deste ano

Com o Nevermore, Warrel Dane sentiu  gostinho do sucesso quando a banda se tornou uma das principais do metal norte-americano fora do new metal, ao juntar o peso do heavy tradicional com timbres mais modernos e cadenciados do guitarrista Jeff Loomis, hoje no Arch Enemy.

O grupo foi formado em 1991 em Seattle e passou longe da febre artificial do grunge, com suas bandas limitadas e estética pobre. Enquanto a cena mudava por causa do sucesso de Nirvana e Pearl Jam, o Nevermore apostava tudo no metal, e a paciência deu certo.

"Dreaming Neon Black" de 1999, e "Dead Heart in a Dead World", de 2001, foram os álbuns que catapultaram o Nevermore para o topo do metal americano, fazendo com que o quinteto saboreasse a convivência com superbandas em festivais e fosse paparicada, até certo ponto, pela MTV.

No entanto, parece que a guinada do mercado musical em tempos de downloads legais e ilegais pegou a banda em cheio, e a fonte começou a secar. Os lançamentos rarearam, assim como a criatividade, e os músicos começaram a ter outros interesses musicais e fora da música.

Tiago Claro (esq.) e Dane durante um show no Brasil neste ano (FOTO: ARQUIVO PESSOAL/FACEBOOK)

Não foi surpresa ver o Nevermore morrer de inanição a partir de suas últimas apresentações no Brasil em 2006. O último álbum, de 2010, foi "The Obsidian Conspiracy", e logo em seguida Loomis e o baterista Van Williams anunciaram que estavam fora.

Dane investiu então cada vez mais tempo na gastronomia e dedicava algum tempo à música, especialmente ao Brasil, onde tinha suporte e admiração.

"Gosto de encarar minhas vindas ao Brasil como se fossem uma 'férias', mas até certo ponto. Levo muito a sério a música que faço por aqui, mas não é como se fosse uma obrigação de ter de subir e cantar como se fosse uma turnê gigante. É gostoso, estou entre amigos e me pergunto às vezes se mereço toda a essa reverência. Quase não consigo descrever o quanto é bom estar no Brasil", disse o cantor antes de pedir licença e continuar a autografar CDs e camisetas e fazer selfies com os muitos fãs que lotaram o bar A Gruta em uma noite chuvosa de 2014.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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