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Combate Rock

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Com ironia e sarcasmo, Roger Waters atropela e faz ótimo segundo show em SP

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14/10/2018 07h16

Flavia Alemi* – publicado originalmente no site Roque Reverso

Depois dos ânimos exaltados após o primeiro show de Roger Waters em São Paulo, inaugurando a temporada latino-americana da turnê Us & Them, a expectativa era de mais tensão no show desta quarta-feira, 10 de outubro.

Os fãs desavisados que foram ao Allianz Parque na véspera e se depararam com um telão que elencava o candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro (PSL) numa lista de líderes neofascistas fizeram protestos virtuais, inundando as redes sociais do ex-Pink Floyd com xingamentos e pedindo seu dinheiro de volta.

Em resposta, opositores ironizaram as reclamações, argumentando que bolsonaristas não entenderam do que se tratam as músicas. Com o acréscimo de um ódio generalizado e crescente na sociedade brasileira nos últimos dias, evidenciado com casos de violência real, era esperado que o clima do segundo show fosse de, no mínimo, apreensão.

Uma coisa é fato: Roger Waters sempre foi um ativista. As perdas na família provocadas pelas guerras o tornaram crítico de sistemas de governo autoritários e defensor dos direitos humanos, levando esse tom para toda a sua obra.

Em entrevista à "Folha de  S. Paulo" em 2015, Waters disse que "The Wall", disco duplo do Pink Floyd lançado em 1979, é a sua vida. "Não é algo construído, inventado. Sou eu escrevendo sobre meus sentimentos e pensamentos", disse ao jornal à época. Por esse motivo, é de se estranhar que parte do público tenha reagido tão mal à crítica do músico.

Buscando, aparentemente, abrandar o viés crítico, a organização do show não mostrou, na quarta-feira, o #ELENÃO projetado no dia anterior. Ao se dirigir aos milhares de fãs presentes, Waters criticou o fato de algumas pessoas terem entrado em brigas dentro e fora do estádio na terça-feira.

"Vamos ter de encontrar uma maneira de descobrir como usar nossas proezas de combate para lutar contra os ~fucking pigs~, não entre nós!", exclamou. A frase, recebida com ovações, logo foi seguida por gritos de "ele não" e "ele sim" do público, em referência ao candidato do PSL.

Antes do discurso, no entanto, entre as frases e imagens projetadas, a listinha de líderes neofascistas, que inclui Donald Trump, Marine Le Pen e Nigel Farage, abriu espaço para ironias.

O nome de Bolsonaro, último da lista no show da terça-feira, deu lugar a uma tarja vermelha com a inscrição "ponto de vista político censurado". O público urrou – resta saber se o sarcasmo foi compreendido.

No mesmo momento, alguns fãs da arquibancada levantaram uma faixa com os dizeres em inglês "Vá se foder, Roger. Toque a música". Ora, vá entender.

FOTOS: FLAVIA ALEMI

O show

A dobradinha "Speak to Me" (introdução gravada) e "Breathe", que abrem o álbum "The Dark Side of The Moon", também abriram o espetáculo, dando ao público o primeiro gostinho do que seria o show: carregado de aparatos tecnológicos, efeitos de luzes e um sistema de som impecável, pelo menos na Pista Premium. Em "Time", o barulho dos relógios foi ensurdecedor e agitou a plateia para uma das músicas mais conhecidas do Pink Floyd.

Mas foi em "The Great Gig in The Sky" que outro traço da turnê Us & Them se evidenciou: a qualidade técnica dos músicos que acompanham Roger Waters. As backing vocals Jess Wolfe e Holly Laessig mostraram toda sua potência para fazer jus ao vocal gravado por Clare Torry na versão original do álbum em 1973.

Ao longo do show, as canções eram complementadas com imagens no gigantesco telão de LED em alta definição. O clipe de "The Last Refugee", com cenas que pretendem mostrar o antes e depois de uma mulher refugiada, cumpriu seu papel de conscientização e verteu lágrimas de parte da plateia, inclusive desta jornalista que vos escreve.

A música faz parte do "Is this the life we really want?", álbum lançado por Waters no ano passado, e que faz alusões à crise dos refugiados sírios. (Confira o clipe aqui: https://youtu.be/_XdLNqWYgGI).

Em "Wish You Were Here", a redenção para os que não conhecem tão a fundo o trabalho solo do ex-baixista do Pink Floyd. Tida como música romântica e nostálgica para muitos, a letra foi escrita por Waters e David Gilmour em homenagem a um ex-parceiro de banda, Syd Barrett, expulso em 1968 pelo abuso de drogas psicodélicas. Para os casais juntos e separados no Allianz Parque, no entanto, o que importou foi a mensagem de como o amado faz falta: "como eu queria que você estivesse aqui".

O clima meio intimista logo foi suplantado pelo ar de protesto provocado pelos primeiros acordes de "Another Brick In The Wall", a segunda parte. No palco, 12 crianças e adolescentes brasileiros usando macacões laranjas marcham em seus lugares até o início da terceira parte da música. Por baixo dos macacões, vestes pretas com a palavra "resist" completam a manifestação e é a deixa para o intervalo com mensagens ativistas.

Na segunda parte do show, destaque maior para os recursos imersivos, como em "Dogs", com os sons de latidos ecoando pelo sistema de som em todo o Allianz Parque. Em "Pigs", o palco foi transformado numa usina, com direito a quatro enormes colunas imitando chaminés.

Ambas as músicas estão no álbum Animals, que faz referência ao livro "A Revolução dos Bichos", de George Orwell. A história, uma fábula, utiliza animais para representar personas humanas. Os cães seriam os policiais e os porcos seriam os políticos. Não existe Roger Waters sem ativismo, meus caros.

Em "Money", crítica forte à classe política mundial e, em especial, a Donald Trump. Entre as frases famosas do presidente americano escolhidas para ilustrar o telão, destaque para "a minha beleza é que eu sou rico" e "quando você é uma estrela, você pode fazer tudo. Pegá-las pela vagina". Fotos da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, do presidente turco Recep Tayyip Erdogan e do ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi, também foram exploradas pela organização.

A carga política do espetáculo é reforçada em "Mother", a penúltima do setlist. Em resposta à pergunta do verso "mãe, eu devo confiar no governo?", duas palavras ocupam o telão de 70 metros de largura de ponta a ponta: nem fodendo. Por fim, "Comfortably Numb" colocou o ponto final de um show marcado por manifestações polêmicas.

Roger Waters inflamou uma ferida aberta dos eleitores que se preparam para decidir no dia 28 deste mês quem será o presidente do Brasil pelos próximos quatro anos. No fundo, não importa se é Jair Bolsonaro ou Fernando Haddad quem vencerá.

O cenário é tão desolador, com ambos os candidatos competindo para ver quem é mais rejeitado, que restou ao eleitor avaliar quem oferece menor risco à sua liberdade. Waters deu a dica: precisamos lutar contra os porcos, não entre nós.

Fodam-se os porcos!

 

*Flavia Alemi é jornalista da Agência Estado 

Set list

Breathe
One of These Days
Time
Breathe (Reprise)
The Great Gig in the Sky
Welcome to the Machine
Déjà Vu
The Last Refugee
Picture That
Wish You Were Here
The Happiest Days of Our Lives
Another Brick in the Wall Part 2
Another Brick in the Wall Part 3

Dogs
Pigs (Three Different Ones)
Money
Us and Them
Smell the Roses
Brain Damage
Eclipse

Mother
Comfortably Numb

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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