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Combate Rock

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Roger Waters, aquele que tem coragem, toca hoje em São Paulo

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09/10/2018 07h00

Marcelo Moreira

Roger Waters (FOTO: DIUVLGAÇÃO/FACEBOOK)

Coragem é tudo, diriam os mais intrépidos estrategistas militares. Mais do que ousadia  e audácia, é preciso ter coragem para ser ousado, audacioso e valente. Entre outras características, essa é uma das mais marcantes de Roger Waters, um dos fundadores do Pink Floyd, que faz dois shows em São Paulo, nestes dias 9 e 10 de outubro, non Allianz Parque.

Ok, tudo fica mais fácil quando se chega aos 74 anos de idade milionário e com suportes dos mais variados. A coragem é bem mais evidente nestas condições, seja para xingar o presidente Donald Trump na cidade dele em pleno palco ou inventar de criar uma ópera-rock cara e pomposa sobre a Revolução Francesa.

Ainda assim, é preciso ter coragem e desprendimento para assumir posições políticas radicais e complicadas em um momento em que o mundo está adernando à direita, cada vez menos tolerante com as diferenças e celebrando a xenofobia e fundamentalismos diversos.

É simbólico que um músico inglês de esquerda, mas defensor ardoroso da democracia, toque no Brasil apenas dois dias depois de parte do país assistir, estarrecida, um apoio maciço a um candidato a presidente que não tem apreço pela própria democracia, além de ser um notório disseminador de ódio e preconceito.

Seu espetáculo atual multimídia, com uma grande parafernália audiovisual, faz duras críticas à política de Trump e sua consequências, provocando a ira de políticos locais, que estão tentando cancelar a maioria dos shows da turnê.

O espetáculo sofreu algumas alterações ao longo de 12 meses, e não está descartada alguma surpresa política no palco com críticas à ameaça que a democracia está sofrendo no Brasil.

As posições políticas do artista inglês esbarraram na oposição de patrocinadores da turnê, insatisfeitos com as críticas de Waters e/ou assustados com a pressão de consumidores e fornecedores.

O resultado é que já houve perdas de US$ 4 milhões antes mesmo de a turnê começar. "Não foi a primeira e e não será a última. Sempre seguirei em frente, mas é uma situação que aponta para algo problemático no futuro", disse em uma entrevista.

Roger Waters é o roqueiro engajado mais efetivo e radical, e justamente por isso consegue atrair certa simpatia até mesmo de adversários de vários matizes.

Se Bono Vox, do U2, ou Sting, do Police, se distinguem pelo ativismo social e ambiental (e de vez em quando abusando da ambiguidade e sempre dispostos a procurar um muro), e Zack de la Rocha e seus colegas de Rage Against the Machine apostam na militância política alternativa, o ex-Pink Floyd prefere ir direto ao ponto, explicitando e especificando causas e escolhendo bem os seus adversários e inimigos.

Sim, ele é chato, é ranzinza, é rancoroso e radical, mas é corajoso o suficiente para encarar uma campanha internacional da favor dos palestinos e contra o governo de Israel – qualquer governo israelense, diga-se de passagem.

Por conta disso, é óbvio que não tem a simpatia de grandes conglomerados mundiais que pertencem a judeus ou têm grande participação acionária destes. Não é à toa que muitos patrocinadores fogem de um encrenqueiro como esse. Só que, como ele mesmo frisa, são encrencas que valem a pena encarar.

Esquerdista e militante anticonservador na Inglaterra, nunca escondeu que suas posições incomodavam, de certa forma, seus companheiros de Pink Floyd, em especial o guitarrista David Gilmour.

Pacifista, concebeu dois grande libelos contra a guerra, o magistral "The Wall" e o incompreendido "The Final Cut", as duas últimas obras do Pink Floyd com a presença de Waters. O segundo, na verdade, não passa de uma obra solo com a participação do Pink Floyd, já que todas as composições são suas.

Gilmour nunca morreu de amores por essa "mania política" de Waters, embora se beneficie até hoje do megassucesso de "The Wall". A disposição de Waters de enfrentar as tormentas por conta da política nunca foi a sua, e esse era apenas um dos pontos de atrito.

Não se trata de um mero comprador de brigas, ou um encrenqueiro entediado com sua vida de milionário. Waters tem convicção e tem bagagem intelectual e cultural para sustentar suas posições.

Mesmo quando é impertinente por conta da sua insistência, ele se faz ouvir. Sua cruzada pelo boicote cultural a Israel lhe valeu diversos desafetos que, no entanto, normalmente têm dificuldades de rebater os argumentos do Floyd setentão.

Politizados e considerados intelectualizados, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram educadamente abordados em mensagem pública de Waters por conta de shows que fariam em Israel anos atrás.

Ignorado, Waters foi mais incisivo e fez cobranças contundentes aos dois brasileiros, considerados ativistas políticos nos anos 70, fato que os obrigou a partir para o exílio na Inglaterra.

Incomodados pela insistência do inglês, tiveram de apelar para o clichê de que "estavam zelando pela sua arte e colocando a cultura em primeiro plano00", fugindo estrategicamente do debate.

A mais recente vítima do ex-Pink Floyd foi a banda Radiohead, bombardeada por críticas e mensagens de Waters por conta de um concerto marcado para Tel Aviv, em Israel. Neste show, Thom Yorke, líder da banda, fez algumas ironias por conta da campanha do veterano lutador do rock.

Se coragem é quase tudo, então temos em Roger Waters o grande gladiador do rock, aquele que compra todas as brigas e não foge de nenhuma luta e que pouco se incomoda com a fama de chato, insolente e impertinente. Ele pode ser dar ao luxo, justificando os versos daquela música banca do Barão Vermelho, "Pense e Dance": "Saudações Para Quem Tem Coragem!!!!"

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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