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Rush 50 anos: não é um simples show, é um estado de espírito

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27/09/2018 07h07

Marcelo Moreira

Da esq. para a dir;: Neil Peart, Geddy Lee e Alex Lifeson, o Rush em foto promocional de 2008 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

A imagem relembrada pelo músico remete a um outro século, a uma outra era ou a um outro planeta: gente envolta de um aparelho jurássico de rádio, daqueles grandões, que quase eram um móvel de sala, esperando para tocar a música – segundo a promessa do apresentador, outra disc jockey (DJ).

Na hora estimada, lá estava a versão de "Not Fade Away", um clássico do rock norte-americano eternizado por Buddy Holly, na voz do baixista magrelo, cabeludo e feioso.

Deveria ser um momento de comemoração, como o de um gol, mas o que o guitarrista se lembra é de que todo mundo ficou congelado, em uma grande reverência aquele feito – conseguir empacar um single no rádio.

Era começo de inverno, lembra o guitarrista Alex Zivoijnovic, que virou Lifeson para então liderar o trio canadense Rush. Naquele começo de tarde de inverno, há 45 anos, a banda lançava e emplacava o seu primeiro single.

"A família ficou orgulhosa, todos comemoravam, mas não teve aquele clima do filme 'The Wonders' (em português, o 'O Sonho Não Acabou', onde todos saem comemorando e pulando quando a música toca no rádio, como era costume na época, nos anos 60", comentou de forma jocosa o guitarrista em documentário sobre o Rush.

Cinco anos antes, em setembro de 1968, o mesmo guitarrista dava início ao grupo, na sala de sua casa, em Toronto no Canadá. Foi quando reuniu pela primeira vez o baixista e vocalista Jeff Jones e o baterista John Rutsey para montar uma banda de rock.

Antes do final do ano Jones seria substituído pelo baixista e vocalista Gary Lee Weinrib, que virou Geddy Lee.

Já Rutsey, um baterista de mão pesada, mas apenas correto, pediria para sair em 1974, quando a banda já estava mais nos Estados Unidos do que em casa – diabético, odiava ficar muito tempo longe do lar e já demonstrava extremo cansaço ao final dos shows.

Para o seu lugar chegaria Neil Peart, um ex-garoto prodígio nerd que se tornaria uma lenda na bateria e na elaboração de letras bem feitas fundamentadas na ficção científica e na filosofia.

No documentário "Rush: Beyond the Lighted Stage", Lee ri meio sem jeito quando classificam o trio canadense como um gigante do classic rock e da história do rock. "Somos um trio de Toronto que conseguiu tocar para muita gente a música que compusemos e quisemos tocar. Mais do que isso é com vocês."

Sim, Geddy, o rush é muito maia do que isso. Virou sinônimo de música de qualidade, de rock bem feito e de banda que merece cada segundo de veneração dos fãs.

Há muito está superada a fase do "ou você ama ou odeia" o Rush, algo que era comum nos anos 80. O hard rock setentista foi gradativamente dando lugar ao rock progressivo a partir de "2112", de 1976, e ao hard rock movido a sintetizadores a partir de "Signals", de 1982, retornando para um rock mais simples a partir de "Counterparts", de 1994.

Em todas as fases, com mais ou menos inspiração, o que sempre se viu foram composições fortes e de qualidade, com letras desconcertantes e, muitas vezes surpreendentes.

"Não curto muito o Rush, mas curto demais os instrumentistas. Vim ao show somente para me postar na frente do Peart e aprender um pouquinho. O que mais me espanta é a concentração dele para executar cada uma das partes intrincadas das músicas absurdas da banda", disse o baterista Marcos Vinny, ex-Kavla, quando da primeira visita do trio ao Brasil, em 2003 – viria novamente somente em 2011.

É uma das raras bandas que consegue agregar um público que não somente ia aos shows para curtir a música. Para parte expressiva da plateia, nenhum detalhe passava despercebido.

Da mesma forma que o trio era um desbunde de virtuosismo e precisão, também se destacava por interpretações viscerais e diferentes em algumas músicas, o que sempre era motivo de estupefação – especialmente em canções pouco usuais do repertório, como em "Natural Science" e "The Trees", executadas algumas vezes nos anos 90.

Os súditos da seita Rush, infelizmente, não têm muito a comemorar neste cinquentenário de fundação e de 45 anos do lançamento do primeiro single. A banda acabou oficialmente com uma declaração de Lifeson em janeiro passado, ratificando o que se sabia desde 2015: Peart queria se aposentar definitivamente..

Resta agora saber se Lee e Lifeson seguirão em frente com o projeto LeeLifeson, que tem a intenção de fazer um rock mais pesado e abordar temas mais ligados ao "cotidiano", como tentou o baixista e vocalista em seu álbum solo de 2001.

O Rush é muito mais do que um trio canadense tocando músicas boas para seus fãs. É uma instituição da música ocidental e um dos pilares do rock. Superou todas as máximas que lhe quiseram imputar e subiu para panteão das lendas musicais.

Durante uma transmissão de um show do trio nos Estados Unidos, nos anos 90, o repórter de rádio da emissora, em um intervalo no meio da apresentação – sim, em algumas turnês o show durava três horas e havia um intervalo – perguntou a um fã em transe o que estava achando do espetáculo. A resposta foi profética: "Não estou em um show, estou em um sonho. Curtir Rush é um estado de espírito".

 

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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