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'Icone fashion', a marca Ramones está sendo vilipendiada

Combate Rock

22/04/2018 06h43

Marcelo Moreira

Todo mundo ficou horrorizado e depois ridicularizou a tal participante do BBB 18 que achava que Ramones era uma marca de roupa, e não uma banda de rock das mais importante da história.

Infelizmente a menina desinformada e pouco interessada em cultura não está sozinha nesta tristeza que se transformou a vida neste planeta.

Há três anos escrevi o texto abaixo falando do vilipêndio do nome Ramones em camisetas diversas e muitas bugigangas, com o tal "mercado", formal e informal, se apropriando de uma marca poderosíssima e que, certamente, faria Joey Ramone, o vocalista morto em 2000, vomitar incessantemente.

De forma lamentável, o texto é atual.

O que Che Guevara, o mundialmente conhecido símbolo "Smile" e os Ramones têm em comum? Uma rápida olhada em lojas de roupas jovens e bugigangas diversas em alguns países explicita a resposta: são três das imagens mais concorridas do mundo fashion, estampando produtos diversos – e geralmente sem o devido pagamento de royalties.

Joey Ramone (vocal) e Dee Dee Ramone (baixo) provalmente não se importaria com isso, mas Johnny Ramone (guitarrista), com sua seriedade e característico mau humor, esbravejaria contra a mercantilização banal da icônica marca da banda.

Assim como quem veste camisetas com o rosto de Che geralmente desconhece a importância e a história do personagem – isso quando sabe quem é -, a proliferação de roupas com o logo dos Ramones (e, em menor escala, do Motorhead) não significa quase nada.

Na recente prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), em São Paulo, chamou a atenção a quantidade de adolescentes em uma escola da zona oeste da cidade vestindo camisetas pretas, vermelhas e amarelas com o símbolo redondo com so nomes dos integrantes dos pioneiros do punk rock norte-americano.

Uma rápida abordagem a oito deles, cinco garotos e três meninas, reforça a suspeita: só dois sabiam quem eram os Ramones, embora apenas um soubesse o nome de ao menos três músicas da banda.

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Outros três tinham conhecimento do que se tratava (sabiam que eram uma banda de rock, e mais nada); os demais três jovens simplesmente ignorava o significado do logo e, obviamente, quem eram os Ramones.

"A imagem é legal, pareceu interessante", disse uma menina loira que não desgrudava do celular. "Tá na moda, uns amigos me falaram que era legal usar e acabei comprando", disse Miguel, de 18 anos, morador de Osasco (Grande São Paulo), apreciador de pagode e sertanejo e que nunca tinha ouvido falar que Ramones era uma banda de rock – tinha acabado de saber naquele instante, ao ser perguntado do porquê de usar a camiseta.

No centro de São Paulo, algo parecido ocorreu na tarde de um sábado chuvoso do mês de outubro. No espaço de 40 minutos, sete jovens passaram pela praça da República usando adereços que lembravam os Ramones – camisetas, calças e mochilas.

Somente dois sabiam do que se tratava – um conseguiu lembrar de uma música, o outro não. Dos outros cinco, dois ao menos tinham ideia de que se tratava de uma banda de rock, enquanto outros três ignoravam – "ganhei de presente e achei legal a camiseta. Não faz diferença o que significa", disse uma garota morena de pouco mais de 20 anos de idade. Destes cinco, todos abominavam rock e amavam funk e pagode.

Aparentemente, é inexplicável a atração que a estampa dos Ramones exerce nos jovens e nos nem tão jovens em vários locais do mundo quase 20 anos depois do fim do grupo.

Nas principais lojas de roupas de moda "rock" da Galeria do Rock, no centro de São Paulo, as vendedoras são unânimes: Ramones são os campeões de venda, em especial a camisa preta com o logo redondo, com a águia e os nomes dos integrantes da formação clássica circundando o desenho.

"É um clássico, até as crianças pedem, embora a gente perceba que são poucos os que realmente conhecem a banda e sabem de seu significado para a música", comentou uma vendedora que se identificou apenas como Amanda e que trabalha em uma das maiores lojas do centro comercial.

Os mais conservadores, radicais e puristas dirão que essa "glamourização" de uma banda punk emblemática é um sintoma da perda de relevância do gênero musical ao, mais uma vez, sucumbir ao capitalismo e ao mercado – e principalmente com a "absorção" de um símbolo importante do rock de caráter revolucionário e contestador.

Deixando o saudosismo e o romantismo de lado, além dos choraminos dos puristas, a absorção da marca Ramones pela dita sociedade capitalista é um fato que tem relevância relativa dos pontos de vista musical, sociológica e cultural. Não passa de uma curiosa constatação da mutação que atingiu a sociedade de consumo desde que a banda surgiu, em 1974.

Primeiro álbum dos Ramones, lançado em 1976, com a formação original

Primeiro álbum dos Ramones, lançado em 1976, com a formação original

Johnny Ramone provavelmente não gostaria de ver no que a poderosa marca se transformou ao longo de 40 anos, mas pouco poderia fazer para impedir o que poderia considerar a "banalização". Possivelmente nem comemoraria o fato de a disseminação dos logos dos Ramones consolidar, de forma categórica, a eternidade da banda.

Assim como a icônica fotografia de Che Guevara se transformou em souvenir barato, estampando camisetas, canecas chaveiros e muitas outras coisas,  os símbolos ramônicos serem apropriados por um mercado pouco afeito a reverências não deve ser encarado como um sacrilégio – embora muitos encarem assim.

Infelizmente, talvez seja um reflexo da contínua e progressiva perda de valor que a música vem sofrendo desde o final do século passado – algo que pode ser observado também em outras áreas do entretenimento.

O que era motivo de orgulho décadas atrás, até como meio de expressão e exposição de uma posição ideológica não passa hoje de mero adorno para rolezinhos em shoppings e em festas diversas – sem cerimônia ou vergonha, teve gente ostentando a camiseta dos Ramones em festas sertanejas no interior de São paulo, como Barretos e Fernandópolis.

Ramones para consumo rápido, acrítico e desprovido de qualquer conteúdo. Não é surpreendente, mas não deveria ser assim.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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