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Há 50 anos o Pink Floyd perdia a genialidade de Syd Barrett

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28/03/2018 07h00

Marcelo Moreira

Syd Barrett nos anos 60 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Syd Barrett nos anos 60 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Syd Barrett não está em entre nós. Era assim que o guitarrista Pete Townshend, do Who, se referia ao líder e fundador do Pink Floyd quando a banda tocava no clube londrino UFO, no final de 1967.

A banda já era sucesso, com três singles e um álbum ótimo nas paradas, mas estava à beira de se esvair em fumaça por conta do comportamento errático de seu guitarrista, cantor e principal compositor.

Townshend ficou fascinado quando viu Barrett tocar no mesmo lugar um ano antes e correu para levar seu amigo desconfiado, Eric Clapton, para ver a novidade.

No entanto, às portas de 1968, aquela visão do líder do Who foi provavelmente o último resquício de genialidade o guitarrista e líder do Floyd.

Pouco tempo, em um movimento que completa 50 anos neste começo de 2018, ocorreria a derrocada do músico, que seria simplesmente "esquecido" pelos companheiros de banda, selando o fim da trajetória de Barrett no grupo.

O afastamento do músico do Pink Floyd, que foi um quinteto por quase três meses, é considerado um dos fatos mais importantes da história do rock.

Muita gente adora projetar e delirar ainda hoje: como teria sido o rock se Syd Barrett não tivesse naufragado nas drogas e em seus problemas mentais?

Quais os limites que poderiam ter sido extrapolados se o esquisito guitarrista continuasse a compor suas singulares músicas misturando elementos psicodélicos e futuristas?

Comportamento errático foi a principal característica pessoal de Syd Barrett a partir do momento em que seus problemas emocionais e lisérgicos – e posteriormente psiquiátricos – foram agravados.

Quase sempre Barrett não estava "no ambiente" e com ninguém , por mais que seu corpo mulambo, despenteado e às vezes malcheiroso estivesse por ali, jogado em algum canto do local.

A trajetória deste músico inglês importante e influência de muita gente boa na música foi efêmera, mas marcou toda uma geração de roqueiros norte-americanos e ingleses.

Legado importante

O grande legado de Barrett é o primeiro álbum da banda, "The Piper at the Gates of Dawn", a estreia do Floyd nas gravações em LP, até hoje frequentador das listas de melhores de todos os tempos. Dez das 11 músicas do álbum são de sua autoria.

Gênio? Talvez seja um exagero e uma supervalorização de quem teve uma carreira curtíssima, de apenas dois anos, com um álbum gravado e 13 músicas de muito bom nível – seus dois álbuns solo, lançados em 1970 e 1971, são menos relevantes em termos qualitativos.

No entanto, não há como não considerá-lo um dos maiores nomes do gênero, tanto como compositor como guitarrista, mesmo com uma parca obra, façanha de pouquíssimos. Dá para enumerar em uma só mão quem conseguiu ser tão original quanto ele.

Capa do álbum 'The Piper at the Gates of Dawn'

Capa do álbum 'The Piper at the Gates of Dawn'

Barrett tinha um fã clube considerável entre os músicos – Townshend, David Bowie, Kevin Ayers e toda uma leva de discípulos, dos Sex Pistols Clash e The Jam a Jesus and Mary Chain – , mas nunca foi unanimidade.

Gary Brooker, tecladista e cantor do Procol Harum, não gostava do Pink Floyd e considerava algumas letras de Syd Barrett um pouco infantis (o que tinha bastante fundamento). Joe Boyd, o primeiro produtor do Floyd, que sofreu horrores para tentar disciplinar o guitarrista, também tinha a suas reservas quanto a obra composta por ele.

Só que é incontestável que a partida precoce de Barrett para outro planeta foi uma perda importante para o rock. Mesmo o reticente Roger Waters, que sempre se irritou com o que chamou de "suposta influência gigante de sempre" na carreira da banda, admite que o guitarrista era um "músico e compositor incrível, e que poderia ter se tornado um dos gênios do rock, caso não tivesse pirado".

Bom humor e instabilidade

Alegre e bem humorado quando criança, começou mostrar alguns sinais de instabilidade no final da adolescência, que muitos atribuem à morte do pai, um famoso médico, em 1961.

Dividido entre as artes plásticas e a música, tinha rompantes violentos e desde cedo caiu de cabeça no LSD, droga alucinógena que pode ter sido o catalisador que desencadeou parte de seus problemas emocionais e psiquiátricos, de acordo com especialistas entrevistados por revistas inglesas nos anos 70 – opinião compartilhada por Rick Wright, tecladista do Pink Floyd.

Todos são unânimes em contar o consumo industrial e compulsivo de uma das drogas mais pesadas e perigosas. A coisa chegou a um ponto de muitas namoradas, ex-namoradas, amigos de infância e mesmo a irmã Rosemay não o reconhecerem depois de algum tempo sem vê-lo, já no final de 1966 e no ano de 1967 – quando teria sido o auge do consumo, ao menos enquanto era músico profissional atuante.

Comportamento errático, insano, violento (batia nas namoradas) era comuns em Barrett a partir de 1965, mas quando passou a ficar catatônico a coisa complicou.

No palco, quando tocava, ficava apenas em uma nota o show todo, obrigando o baixista Waters a cantar as músicas e o tecladista Wright a cobrir suas partes.

Em alguns shows parava de tocar no meio e ia embora, assim como em entrevistas e gravações de programas de rádio e TV. Waters e Wright evitam dizer diretamente, mas creditam a Barrett o fracasso da turnê norte-americana de 1967, a primeira do grupo, que durou só uma semana.

Depois dos três singles e do ótimo álbum "A Piper At The Gates of Dawn", veio a pressão natural por mais músicas e mais álbuns, e Barrett era o gênio compositor.

Rara foto, com tratamento artístico, do Pink Floyd como um quinteto, no começo de 1968: Barrett está no alto, e seu substituto, David Gilmour, está sentado (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Rara foto, com tratamento artístico, do Pink Floyd como um quinteto, no começo de 1968: Barrett está no alto, e seu substituto, David Gilmour, está sentado (FOTO: DIVULGAÇÃO)

 

Foi demais para o instável e frágil guitarrista, que simplesmente se desconectou dos outros integrantes em dezembro de 1967. Barrett não compunha mais, atrapalhava a banda no palco e se rebelava no estúdio por qualquer coisa.

Nem mesmo o paliativo de chamar o guitarrista amigo de infância David Gilmour para ajudar nas composições e no palco deu certo. O Pink Floyd foi um quinteto por quase três meses e não deu certo.

'Não vamos pegar Syd'

Como última tentativa para aliviar a pressão sobre Barrett, ventilou-se a possibilidade de ele não mais tocar. Seria como Brian Wilson nos Beach Boys pós-1967: ficaria apenas compondo e participando ocasionalmente das gravações. Poderia ter dado certo, se ainda houvesse qualquer resquício de comunicação com Syd.

O resultado é que, em abril de 1968, a van da banda pegou todo mundo para um show na região metropolitana de Londres. Alguém da equipe técnica lembrou e perguntou: "Não vamos pegar Syd?" Ningupem respondeu. E nunca mais a van passou na casa dele para pegá-lo.

Os empresários do Pink Floyd ainda tentaram manter Barrett na música, ajudando-o a produzir e lançar dois álbuns solo de pouca repercussão – ambos com auxílio precioso de Gilmour e Waters.

Irascível, intratável e incompreensível, deixava produtores e engenheiros de som malucos, que começaram a recusar a trabalhar com o "maluco do Pink Floyd".

Um terceiro álbum nem sequer começou a ser iniciado e a carreira musical enfim terminou em 1973, aos 27 anos, quando fracassou o seu trio, Stars, com dois amigos da Cambridge natal.

Recluso e cada vez mais insano, afastou-se de todos os amigos, gastou muito dinheiro de royalties que ainda recebia, e teve deixar um luxuoso apartamento em Londres para voltar a Cambridge, para morar com a mãe em uma casa modesta, ora no sótão, ora no porão.

Outrora magrelo, tornou-se uma figura gorda e desleixada, vítima de diversos problemas de saúde. Morreu aos 60 anos, em julho de 2006, em razão de um câncer no pâncreas, agravado por complicações cardíacas em decorrência do diabetes, provavelmente ainda em busca de um planeta que acomodasse sua inquietude e sua insanidade.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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