Combate Rock

Lenda no palco, Marcelo Nova vira usina de informação em livro

Combate Rock

14/02/2018 07h00

Marcelo Moreira

Antissocial, mas generoso. Mordaz e sarcástico, mas também sensível e cordial. Radical e extremista, mas também culto, inteligente e sensato. Poderia muito bem ilustrar o termo “metamorfose ambulante”, do amigo Raul Seixas, ou personificar os extremos de uma fugira peculiar.

Marcelo Nova é um personagem interessante do rock nacional que ressurge de forma inesperada – e, de certa forma, fascinante – naquilo que ele pretendia ser uma autobiografia (ou quase).

O cantor de rock que lidera o Camisa de Vênus até hoje resolveu falar e contar a sua versão da história em “Marcelo Nova – O Galope do Tempo – Conversas com André Barcinski”, que demorou um pouco para chegar às lojas, mas que já pode ser encontrado com facilidade.

O rapaz intolerante, sempre pronto uma dar uma resposta atravessa quando escutava besteira e com pouca paciência para os joguinhos midiáticos e sociais que permeiam o nosso dia a dia, mostra-se um excelente contador de histórias, com memória privilegiada e informação de sobra.

O livro que virou o registro de uma série de conversas é uma das boas surpresas do mundo do rock neste começo de ano.

Se as recentes obras que tratavam das trajetórias de João Gordo e Clemente, dos Inocentes, tinham cunho biográfico, Nova e Barcinski trataram de dar um ar mais “jornalístico” e informativo ao produto que custou três anos de bate-papo.

“Ao final das conversas, eu me sentia exausto, como se tivesse vomitado tudo o que podia, totalmente exaurido. Precisava de isolamento total para me recuperar dessa odisseia, e o entrevistador simplesmente me dizia: ‘tchau, eu volto amanhã e continuamos'”, relata o músico com bom humor quase ao final do livro.

O formato de perguntas e respostas, que na maioria dos casos pode soar como uma coisa preguiçosa, revelou-se um acerto em se tratando de Marcelo Nova.

Apesar de se reconhecer como um “chato” e até mesmo um “bicho do mato”, adora falar, especialmente de música. Aliás, é de se imaginar o trabalho que o coautor teve para editar três anos de falatório desenfreado, mas cheio de referências, do músico baiano.

Desta forma, o texto ficou mais leve, mais aberto e permitindo a possibilidade de manter os muitos desvios de assunto sem que houvesse perda de nexo e sem que houvesse confusão. É uma conversa linear, com alguns desvios, mas plenamente satisfatória do ponto de vista da informação e da coerência.

E o que temos no texto é um artista culto e que valoriza o trabalho e a pesquisa, um obcecado pelo texto e pelo aprendizado contínuo como pessoa e como músico.

Por mais que suas obras sejam bem diversas entre si e com motivações distintas, Nova consegue se mostrar um analista inteligente do próprio trabalho, exigente na questão da qualidade e realista quanto ao seu conhecimento e suas performances.

É surpreendentemente franco e direto quando comenta sobre os álbuns do Camisa de Vênus, é preciso ao identificar os erros e acertos e cirúrgico ao identificar as características marcantes das letras, das melodias e dos discos em si.

Em meio às anedotas biográficas e “causos” saborosos que conta da estrada, o livro é permeado por muita, mas muita informação, que montam um quebra-cabeças que expõem a personalidade inquieta, rebelde e ansiosa por fazer algo diferente e marcante.

Enquanto discorre sobre a história e a qualidade de vários artistas – indo de dados técnicos de discos a descrições detalhadas da carreira e da maneira como músicas foram gravadas -, o cantor do Camisa de Vênus demonstra muito conhecimento geral e uma pouco conhecida do público capacidade de análise crítica do cotidiano – uma de suas fontes de inspiração.

Se ele reconhece que é antissocial e que gosta de ficar recluso – quase não interagia com os companheiros de grupo após os shows e faz questão de dizer que não era amigo de nhum outro artista do rock nacional -, contraditoriamente faz questão de demonstrar amizade e lealdade àqueles que o acompanham na jornada musical ou que compreendem o seu estilo de vida e de trabalho.

Neste aspecto, são ótimas as histórias de suas relações de amizade e de trabalho com Raul Seixas e o inglês Eric Burdon, o ex-vocalista dos Animals, que conheceu Nova quando lhe concedeu uma entrevista em ocasião de um show no Brasil.

Para quem gosta de saber como se formou o rock nacional, “O Galope do Tempo” é uma leitura muito recomendável, assim como “Dias de Luta”, do jornalista Ricardo Alexandre, e as biografias de Nasi (Ira!), João Gordo e Clemente Nascimento.

O ponto decepcionante do texto, no entanto, é a economia de informações sobre os motivos das duas separações do Camisa de Vênus, em 1987 e em 1996 – a versão atual do grupo, a terceira, surgiu em 2014.

Pela importância e pela qualidade do Camisa, esperava-se mais detalhes, em sua descrição, das interrupções não muito agradáveis dos trabalhos da banda.

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

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