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Gigante e respeitado, Rush chega ao fim calando os que amavam odiá-los

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22/01/2018 06h39

Marcelo Moreira

Da esq. para a dir;: Neil Peart, Geddy Lee e Alex Lifeson (FOTO: DIVULGAÇÃO)

O trio fez parte de um seleto grupo de bandas de rock que quase todo mundo amava odiar, seja pela voz fina e esquista do vocalista, seja pela megalomania progressiva e pesada que acometeu a obra por mais de 40 anos.

Alguns artistas costumam se incomodar com este estado de coisas. Outros se aproveitam e fazem marketing. E o Rush simplesmente ignorava e seguia em frente, lotando estádios pelo mundo desde 1978, época em que alguns medalhões do classic rock começavam a descer a ladeira.

O trio canadense não fazia concessões, como alguns artistas contemporâneos, que hora embarcavam na onda disco ou amenizavam o som para ficar mais acessível ao mercado norte-americano. A ideia era ter total controle sobre a obra e o direcionamento criativo, o que sempre aconteceu.

Como já se esperava, o Rush não existe mais, e de forma oficial, conforme o anúncio feito pelo guitarrista Alex Lifeson na semana passada em uma entrevista a um jornal norte-americano. Com todas as letras, ele disse que o trio estava acabado.

Depois 47 anos de sua fundação, com apenas uma troca de integrantes, o grupo sai de cena por cima como um dos gigantes da história da música popular.

Se a mídia insistentemente se recusava a colocar os canadenses no mesmo patamar de glória de um Queen ou um Metallica, os fãs se encarregaram disso com inúmeras demonstrações de veneração, como nas duas vezes em que fizeram turnê pelo Brasil.

Ao contrário de Deep Purple, Black Sabbath, Saxon e mesmo o Metallica, o Rush nunca experimentou o sabor da decadência e do questionamento antes de voltarem aos patamares mais altos.

Com uma regularidade e clareza insólitas dentro do mundo do rock, o trio enveredou por um caminho preciso e reto, superando as críticas com uma coesão e uma ética de trabalho impressionantes, que foram muito responsáveis pelo fato de a banda nunca ter cometido um disco considerado ruim ou péssimo.

Amigos de longa data na estrada, os integrantes do Kiss sempre se admiraram com o bom humor e o espírito leve de Lifeson, do baixista e vocalista Geddy Lee e do baterista Neil Peart. "Nunca vi e nunca soube de um show ruim do Rush. Acho que são incapazes disso", declarou certa vez o guitarrista e vocalista Paul Stanley sobre uma turnê das duas bandas.

Para muitos é uma autossuficiência irritante; para outros, um mero disfarce para disfarçar os momentos de suposta falta de criatividade. O fato é o Rush nunca se preocupou as críticas negativas ao lançamento de cada trabalho, que vendiam cada vez mais.

No começo eles eram clones do Led Zeppelin, atacavam os críticos canadenses. Depois se tornaram pastiches progressivos, sempre na cola do Yes e do Emerson, Lake & Palmer, marretavam os norte-americanos. Desconfiados, os europeus reclamaram quando os teclados soterraram o som do trio nos anos 80. E a resposta vinha certeira: vendas cada vez mais altas, álbuns cada vez melhores e shows cada vez mais concorridos e lotados.

Com uma carreira atípica em termos de performance, o Rush se despede de forma totalmente digna e por cima, respeitadíssimo em todos os meios musicais e admirado músicos dos mais variados gêneros e subgêneros.

Parou na hora certa? Quem somos nós para decretar tal coisa? Parou quando tinha de parar – aliás, assim como o Black Sabbath, queríamos que o Rush nunca parasse, por mais que as reclamações, ameaças e birras de Peart fossem cada vez mais eloquentes.

Ainda que contra a vontade de Lee e Lifeson, o grupo deixa a condição de lenda em atividade após quase meio século de música das melhores já feitas no rock.

Nada mal para três moleques feiosos de Toronto que tinham certeza de que venceriam no concorrido mercado norte-americano. Nada mal para quem se acostumou a atropelar aqueles que amavam odiá-los.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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