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Lobão paz e amor em 2018: em busca de redenção?

Combate Rock

08/01/2018 06h44

Marcelo Moreira

Lobão (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Em um ano de acirramento político e de elevação da intolerância a altos níveis de ódio, o cantor Lobão parece estar a caminho da paz consigo mesmo.

Em mensagens surpreendente nas redes sociais, celebrou um 2017 recheado de trabalho, a edição de mais um livro, o trabalho intenso na gravação de um CD duplo com releituras de clássicos do rock nacional e o aprofundamento da "prolífica parceria com Roger Rocha Moreira", o líder do Ultraje a Rigor.

A celebração de Lobão e o aparente bom momento que vive podem ser considerados o início de um resgate de uma reputação abalada por recentes entreveros político-ideológicos com a esquerda, principalmente após a reeleição de Dila Rousseff como presidente.

O ponto baixo da trajetória foi registrado pelo UOL quando o cantor, em uma apresentação acústica em São Paulo, xingou a presidente e estimulou a plateia a fazer o mesmo, em um flagrante desrespeito à autoridade máxima do país.

Um artista de sua magnitude mandar a presidente tomar no c… é algo extremamente desagradável, já que isso é atitude de bandas punk underground, fazendo sentido para os Garotos Podres, por exemplo, mas não para Lobão.

A recuperação, digamos assim, da reputação do cantor só poderia vir da música, e chegou de forma tímida, com o surpreendente álbum "O Rigor e a Misericórdia", lançado em 2016.

O álbum traz Lobão revigorado e voltando a ter boas sacadas nas letras, bem acima da média do que temos observado no rock nacional, além de buscar uma sonoridade diferente.

De volta ao rock'n'roll, fez um som maduro e menos cáustico, e bastante calcado em guitarras. Lobão chega a esbarrar no hard rock em alguns momentos bastante inspirados.

A fase mais recente da vida do artista de 60 anos, já há um bom temo morando em São Paulo, é o motor criativo para as 14 faixas do trabalho. os temas são mais reflexivos e exalam certa melancolia, mas com serenidade.

E é de se lamentar que esse bom CD de Lobão tenha sido ofuscado pelo clima de arquibancada instalado no país desde as manifestações de junho e julho de 2013 – pela irrefreável vontade do cantor de buscar uma treta onde pudesse, especialmente via imprensa e redes sociais.

Por isso, é provável que pouca gente tenha notado a bela construção da triste balada "Uma Ilha na Lua", ou na densa e reflexiva "Ação Fantasmagórica a Distância".

Se o trabalho tem outra pegada e deixa de ser tão incisivo como em outros momentos, ainda é possível identificar em sua peculiar prosa as estocadas corrosivas de sempre, além de observações argutas sobre o momento atual da sociedade brasileira.

O álbum foi o pontapé inicial para que a arte voltasse a predominar na vida do artista, ainda que as rusgas de sempre aparecessem aqui e ali, sempre variando os alvos.

No "Guia Politicamente Incorreto pelo Rock", seu mais novo livro, Lobão tenta voltar à arena batendo nos desafetos de sempre, mas parece que a contundência de outrora sumiu – o que, curiosamente, fez bem ao cantor.

A obra tem o mérito de repassar os anos 80 por outro olhar, mais crítico (ainda que com ranço e rancor) e menos condescendente.

No entanto, serviu para que Lobão expiasse suas culpas e acertasse as contas com alguns demônios, identificando seus próprios erros e aliviando (até certo ponto) algumas questões com antigos ex-amigos.

Claro que sobram várias patadas e estocadas, e em todas as direções, mas ninguém sai destroçado ou ferido de morte. Maturidade? Reavaliação?

Nem um nem outro, a julgar pelo descompromisso com que detona, de forma irracional, chico Buarque e sua obra, assim como Caetano Veloso e Gilberto Gil. Afinal de contas, é um livro de Lobão, que não se contentaria apenas em ficar na reflexão – ele sempre foi bom e ferino ao destilar veneno.

A parceria com Roger, do Ultraje a Rigor, é ressaltada como uma das grandes realizações ao longo de 2017. Pessoalmente, deve ter sido um alento reativar um a colaboração com um amigo de longa data, embora o resultado não tenha ficado bom.

"O Bobo", a música resultante, é uma pálida tentativa de resgatar o clima de excursão ginasial que dominou as gravações do álbum "Nós Vamos Invadir a Sua Praia", do Ultraje, de 1985.

A ideia era criticar a esquerda brasileira e os esquerdistas – ou quem pensa diferente -, mas o resultado soou forçado e sem graça.

Entretanto, a colaboração, ocorrida enquanto Lobão escrevia o livro, foi o estopim para que finalmente entrasse de cabeça no projeto de releituras de músicas dos anos 80.

São 24 músicas que vão de Guilherme Arantes a Ira!, de Cazuza a Rita Lee, de Kiko Zambianchi a Plebe Rude, em um espectro grande de revisitas e reverências.

Curiosamente, parece que Lobão não previu alguns percalços, como a aparente recusa de alguns artistas – muitos deles desafetos – em autorizar a gravação de suas faixas, ou mesmo a falta de resposta às consultas, por parte de outros.

De certa forma, era até esperado que alguns que tiveram as canelas chutadas reagissem ou estivessem esperando um momento adequado para se vingar. Seria o caso de Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, que retardou ao máximo a autorização para "Lanterna dos Afogados"? E o que dizer da banda gaúcha Replicantes, que não quis saber da "atualização" da letra de "Surfista Calhorda"?

Para alguns dos desafetos e nem tão desafetos assim, a questão ideológica pegou na avaliação se deveriam autorizar as versões de suas canções. São recentes as imagens e as tretas em que Lobão não economizou chutes e pontapés nas discussões por todo o espectro político, muitas vezes descambando para a falta de educação e desrespeito.

Bom, fazia parte do jogo e já era esperado. Ainda assim o projeto de Lobão, descontado-se certa dose de escárnio e oportunismo, é um alento para uma carreira que estava na berlinda por situações extramusicais.

Pelo tamanho e profundidade da inciativa, é interessante saber que o músico volta a mergulhar e deixa, ao menos por hora, a desgastante batalha política "politicamente incorreta" para revisitar parte do que melhor se fez no rock nacional dos anos 80.

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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