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Com exageros e desequilíbrio, livro sobre Guns N' Roses cumpre seu papel

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06/12/2017 06h48

Marcelo Moreira

Antiprofissional, caprichoso, inconsequente, irresponsável. Mas também talentoso e, talvez, genial. Não sobra muito da imagem de Axl Rose naquele que é, possivelmente, o melhor livro já escrito sobre a carreira do Guns N' Roses.

O inglês Mick Wall, que divide as honras com também inglês Joel McIver e os americanos Marc Spitz e Philip Norman como os principais escritores dedicados à música e ao rock, é conhecido pelo estilo de jornalismo "interpretativo" – ou seja, interfere na narrativa às vezes de forma opinativa, às vezes como participante da trama e, principalmente, como elemento que tenta decifrar e "traduzir" o que se passa.

"Guns N' Roses – O Último dos Gigantes", recém-lançado no Brasil pela Globolivros, é uma obra que em nenhum momento ameniza o fato de o autor ter imensa admiração pela banda, o que não o impede de revelar todos os podres e de pesar a mão a respeito de Axl Rose, que se tornou dono definitivamente do grupo em 1993 e, como consequência, destruiu a reputação da banda com seu comportamento errático e narcisista.

Com farta documentação e tonelada de entrevistas, Wall elaborou a obra, no trecho mais importante (até a dissolução da formação original), com base nas entrevistas que fez com todos os membros quando era jornalista de revistas inglesas.

Praticamente acompanhou o nascimento do grupo e a explosão do sucesso e não economiza nos adjetivos positivos para qualificar a banda como a grande coisa do rock dos anos 80, um fenômeno que claramente se igualaria em termos de importância a gigantes como Rolling Stones, Aerosmith, Black Sabbath e AC/DC.

E essa veneração é um dos pontos falhos da narrativa. Wall superestima demais o Guns N' Roses, colocando muito acima do que ele realmente foi – um a boa banda de hard rock, que fez imenso sucesso, mas que tem uma produção musical diminuta, esquálida – cinco álbuns de estúdio em 32 anos de carreira, sendo um de versões de outros artistas.

Ainda que o Guns tenha sido um fenômeno localizado de vendas e tenha tido um forte impacto com o excelente álbum "Appetite for Destruction", de 1987, alçar a banda como um dos "gigantes" é forçar demais a barra, por mais que ele valorize a qualidade das músicas feitas nos anos 80 e a "atitude rock" que o quinteto tinha, com seus excessos em todos os quesitos – sexo, drogas, bebidas, prisões, babaquices, comportamentos infantis e todo o pacote completo de bizarrices roqueiras.

Wall derrapa também quando deixa o texto deliberadamente desequilibrado, sendo mais favoravelmente a Slash e Duff do que a Axl – mas pelo menos ele não disfarça isso, relatando que teve problemas com o cantor em determinado fato narrado no livro que envolve também integrantes do Motley Crue.

Na parte principal e mais importante do livro, as principais fontes são as entrevistas feitas com Slash entre 1987 e 1993 e entrevistas da época e recentes com membros da parte administrativa da banda, como os ex-empresários Alan Niven e Doug Goldstein, que viraram desafetos de Axl, apesar de o último ainda nutrir bons sentimentos em relação ao cantor.

E tome então uma profusão de fatos em que Axl é o protagonista de vexames como atrasos monumentais para subir ao palco, quando não cancelava o show na iminência de começar por puro capricho.

Também realça o comportamento bipolar no relacionamento com os músicos e com a equipe até mostrar Axl como um ditador mimado e maníaco por controle de tudo até o ponto de exasperar todo mundo.

Apesar de ser mais condescendente com o resto da banda – Wall deixa claro que o vocalista foi o responsável principal pela derrocada da banda -, sobra bastante sujeira para Slash, Duff McKagan e Izzy Stradlin, além de Steven Adler.

Em resumo, fica claro que o mergulho profundo de todos nas drogas e na bebida em níveis assustadores foi o pretexto para que Axl tomasse conta de tudo e se tornasse o verdadeiro chefe, a ponto de ameaçar não fazer um show em Barcelona, em 5 de julho de 1993, caso Slash e Duff não assinassem um documento lhe transferindo o controle total da banda e os direitos do nome Guns N' Roses. Em decisão absurda que seria lamentada anos depois, os dois cederam e assinaram.

O livro de Wall é um bom retrato do que foi o Guns (mesmo com seus incompreensíveis exageros) e a cena do hard rock dos anos 80 e 90.

Ele também consegue fazer um painel de época satisfatório em relação à música pop, contextualizando os fatos e mostrando como a indústria do entretenimento era dominante e poderosa, tendo grande responsabilidade no estouro do grupo, por mais que seus dois ex-empresários valorizem demais suas próprias atuações.

"Guns N' Roses – O Último dos Gigantes" cumpre a sua função e consegue dar conta de retratar com competência a carreira fulminante e imensamente decadente de uma das grandes bandas dos anos 80.

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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