Combate Rock

Apropriação cultural: desfrute muito e sem nenhuma moderação

Combate Rock

10/03/2017 06h26

Marcelo Moreira

Do menosprezo ao ressentimento. A história é conhecida, mas vem a calhar por conta do tema. Entre 1963 e 1964, o bluesman norte-americano Sonny Boy Williamson II fez turnês pela Inglaterra e pela Escócia. Ainda era um dos poucos nomes do blues que conseguiam excursionar antes do renascimento do gênero, a partir de 1966 – graças, em muito, ao empurrão das bandas de rock inglesas que veneravam o estilo.

Ele viajou sozinho, e a ele foi designada como banda de apoio os Yardbirds, ainda com Eric Clapton na guitarra solo. Depois dos Rolling Stones, eram, considerados os melhores jovens do blues na Inglaterra.

Clapton conta em sua autobiografia e em várias entrevistas que Williamson era um dos ídolos dos garotos apreciadores de blues no Reino Unido, e era venerado pelo quinteto de moleques ingleses que o acompanhariam pela ilha.

Os garotos, no entanto, ficaram decepcionados com o tratamento que o ídolo lhes deu. Arredio, distante e de mau humor constante, o bluesman mal lhes dirigia a palavra e os considerava músicos medíocres, um bando de moleques que mal conseguiam imitar os americanos. Menosprezo total.

Seis anos depois, já astro mundial do rock, com passagens por Yardbirds, Cream e Blind Faith, Eric Clapton fez parte de um time de músicos que ajudou outro bluesman fantástico, Howlin’ Wolf, em sua passagem por Londres.

O norte-americano entrou em estúdio para gravar um álbum. Sua banda de apoio na capital inglesa contava “apenas” com Clapton na guitarra, Steve Winwood nos teclados e nas guitarras e os rolling stones Bill Wyman (baixo) e Charlie Watts (bateria). O resultado ficou bom, foi lançado em 1971 nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas não fez sucesso.

“Parecia ser uma característica daqueles monstros sagrados: o mau humor e o desprezo por nós, brancos”, disse Clapton.

 

Anos mais tarde, em conversas com o mago da guitarra Buddy Guy (muito boa gente) e Muddy Waters, o guitarrista inglês compreendeu que, se Williamson menosprezava os garotos ingleses, Wolf, por outro lado, nutria muito ressentimento, como muitos outros mestres americanos, pelo fato de os ingleses branquelos – ainda garotos por volta de 1970 – fazerem sucesso e ganharem muito dinheiro com o blues ou a partir do blues. Ou seja, Howlin’ Wolf já bradava contra a apropriação cultural  anos antes de esse termo começar a fazer algum sentido.

Em um momento bastante complicado da vida brasileira, com uma persistente e crônica crise econômica e uma criose política de dimensões colossais, é inacreditável que percamos tempo com assuntos inúteis como posturas “politicamente corretas” em relação a letras ou “apropriação cultural” porque alguém usou  turbante ou um acessório/penduricalho qualquer que supostamente pertence  a uma outra “cultura”.

Alguém reclamou que uma mulher branca usou um turbante em Curitiba? Então vamos patrulhar os negros que usam bonés e calças jeans, que seriam  o suprassumo da cultura branca norte-americana desde o fim do século XIX? Vamos perseguir os índios e nativos aculturados de qualquer países por usarem roupas, tênis, telefones celulares ou dirigir automóveis?

Não duvido de que logo logo aparecerão alguns que nada têm a fazer criticando desde sempre os brancos por apropriação cultural da música dos negros e da aspectos das culturas indígenas, no caso brasileiro.

O termo “apropriação cultural” não faz sentido algum em nenhum tempo, nenhuma época. Entretanto, ainda que se possa dar alguma credibilidade a uma discussão envolvendo o tema, tratá-lo como se fosse um crime e algo condenável, em pleno século XXI, soa como piada sem graça e de mau gosto.

Uma coisa é discutir a discriminação racial e econômica histórica de foram e são vítimas as populações negra e indígena nas Américas – e muçulmanas na Europa. é um tema que precisa ser discutido o tempo todo, e cuja restrição e eliminação devem ser perseguidos sempre, por mais utópico que isso seja.

Apropriação cultural, seja lá o que boa parte das pessoas entenda por isso, não cabe neste contexto, e muito menos ainda na arte.

Se Howlin’ Wolf e Sonny Boy Williamson II não suportaram ver músicos brancos e ingleses transformarem o blues negro norte-americano em música pop e rock de qualidade, o que dizer então de astros como Michael Jackson e Prince, que empurraram a música negra a patamares altíssimos?

O que será que o maestro Quincy Jones tem a dizer sobre o tema? O que diria então os falecidos Marvin Gaye, Sam Cooke, Otis Redding, nomes gigantescos da música pop – e da música negra?

Será que daria para dizer quer a banda Bad Brains se apropriou do punk branquelo britânico para fazer a ótima música que fizeram? E o Living Colour, se apropriou do hard rock branquelo da Califórnia para a sua mistura contagiante de rock pesado, funk e blues?

Living Colour (FOTO: DIVULGAÇÃO)

A apropriação cultural, seja lá o que isso seja, está chegando timidamente a discussões na internet el alguns grupos de discussões em redes sociais envolvendo samba, axé, sertanejo e um pouco de rock e de blues.

É uma conversa de loucos, recheada de supostas citações acadêmicas descontextualizadas e que não fazem sentido algum, numa tentativa tosca de politizar algo que, por natureza, passa muito longe desse tipo de conversinha vazia e inútil.

O sempre lúcido Buddy Guy costuma encerrar a questão da “apropriação” por parte dos brancos com uma frase definitiva: “Todos os meus bons amigos ainda insistem em falar o quanto eu fui importante para a carreira deles, o quanto sou inovador e o quanto ou genial e espelho para eles. Isso vai de Clapton a Jeff Beck, de Jimmy Page a Billy Gibbons (ZZ Top). Se são eles que dizem isso, quem sou eu para discordar? Que assim seja e que desfrutem à vontade.”

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

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