Combate Rock

Letras e conteúdos: boicote sim; censura e autocensura, jamais

Combate Rock

06/03/2017 06h15

Marcelo Moreira

O escândalo foi geral. Por mais que artistas de rap e hip hop fossem fundo no tema, sendo mais agressivos ao atacar policiais e o sistema em geral nos Estados Unidos, foi uma banda de metal formada por negros egressos do rap que provocou a ira de uma nação.

Ice-T era um rapper talentoso e um produtor carismático e conceituado – e mais tarde seria um requisitado ator de cinema e TV.

Usando sua fama e influência, esse amante do heavy metal resolveu pegar pesado: indo mais além do que os quarteto extraordinário Living Colour, formado por negros, o rapper criou o pesadíssimo e profano Body Count, reunindo o que de melhor a cena rap tinha de instrumentistas.

Revoltado e louco para criar confusão, Ice-T lançou o primeiro single da banda: “Cop Killer”, sobre um matador de policiais. Era uma reação a uma série de barbaridades e crimes cometidos por policiais brancos norte-americanos contra a população negra.

Body Count (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Ele conseguiu todas as atenções do nundo e a raiva de todos os policiais do país, de todos os governos e de toda a mídia. Não se falou em outra coisa naquele ano de 1992. A música foi banida de rádios e emissoras de TV. a pressão foi tanta que o Body Count a retirou do álbum de estreia, auto-intitulado.

Anos depois, Ice-T declarou que jamais se arrependeu de ter escrito e lançado a música, e que só a toca de vez em quando nos shows do Body Count. “Só não a tocamos mais desde sempre para evitar certos ‘problemas’ com  a lei.”

“Cop Killer” é, talvez, o maior exemplo de música banida por conta de sua letra violenta e agressiva. Entretanto, é um marco na luta pelos direitos civis e um protesto eloquente contra a discriminação racial e arbitrariedades cometidos contra as minorias e populações em situação de vulnerabilidade. Sua letra deve ser repensada?

Jamais, assim como nenhuma letra dos Racionais MC’s, do Pavilhão 9, dos Mamonas Assassinas, dos Raimundos ou de qualquer banda de black metal deva ser censurada ou “repensada”.

Todo artista que decide retirar uma canção de seu repertório por qualquer motivo, mas principalmente por conta de motivos politicamente corretos, tem de ser respeitado. Da mesma forma, qualquer artista que opta por manter no show músicas agressivas ou polêmicas não só tem de ser respeitado, como defendido.

Músicas e letras são retratos importantes de uma época ou de uma sociedade. É o caso dos músicos sul-africanos que combateram o apartheid com letras politizadas e conteúdos fortíssimos, assim como os metaleiros noruegueses que cansaram de berrar “Burn the Churches” ou “Churches Is Burning” (Queimem as Igrejas e Igrejas Estão Queimando).

Belphegor,. banda de black metal (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Ainda que vários crimes tenham sido cometidos no país escandinavo por conta de radicais antirreligiosos que ouviam metal, em nenhum momento o governo democrático norueguês pensou em censura, e muito menos incentivou campanhas politicamente corretas com o objetivo de influir na liberdade de expressão.

É bastante provável que muitos artistas se arrependam de algumas bobagens que tenham escrito na juventude, ou mesmo durante um surto de raiva contra qualquer coisa. E é bastante compreensível que queira se afastar de tal conteúdo.

No entanto, por mais que seja repulsivo e repugnante, é perfeitamente legítimo que outros não só ignorem os protestos contra letras agressivas, misóginas, racistas e discriminatórias como as defendam, inclusive executando-as até hoje. Neste caso, só resta o protesto e o boicote contra tal artista – e nada além disso. (Exceto, é óbvio, quando o conteúdo viola claramente as leis e incentiva o crime; não é caso de censura, mas de um bom processo que envolva, em último caso, a prisão)

Quem se encaixa no exemplo é Ted Nugent, que nunca se preocupou com o politicamente correto ou com as suscetibilidades de quem quer que seja.

Ótimo guitarrista e popular com seu hard rock intenso, Nugent é um poço de ignorância e discriminação. Radical defensor da venda de armas nos Estados Unidos, frequentemente critica os imigrantes e as políticas sociais dos governos democratas, além de fazer piadas ofensivas contra minorais e de ser um conhecido misógino. É alvo constante de protestos, mas também tem uma base fiel de fãs. Tudo isso se reflete nas letras de suas músicas.

Se a tese de que artistas devem repensar suas letras por conta de noções mais modernas de politicamente correto, então mais da metade das obras do Kiss e do Motley Crue precisam ser proibidas, tal a quantidade de conteúdo machista, sexista e ofensivo a diversas categorias, principalmente às mulheres. E o que dizer do Guns N’Roses, por exemplo, com “I Used to Love Her”?

Não se trata de ignorar a evolução no Brasil e no mundo das políticas de direitos humanos e civis, uma das grandes conquistas das sociedades modernas ocidentais dos últimos 50 anos. Trata-se apenas de evitar a ditadura do politicamente correto e de analisar o contexto de criação e publicação de obras artísticas – no caso, as letras.

Muitas delas são execráveis, e existem exemplos aos montes. “Cop Killer” é um, onde há a incitação à violência, que é crime em vários países e Estados norte-americanos. Eu gosto da música, mas execro a letra, só que eu consigo compreender o contexto em que ela foi composta – e o tema faz todo o sentido do mundo, sendo que jamais defendi o seu banimento ou sua censura.

O que dizer de várias letras de músicas de bandas de rap? “Se Deus Vier, Que Venha Armado”, do Pavilhão 9, é um dos trabalhos mais intensos, pesados e violentos já lançados no mundo da música, e se encaixa em um contexto de protesto de uma população de periferia marginalizado desde sempre. Há muitas mensagens ali que me incomodam, mas que fazem total sentido dentro do ambiente em que foi composto.

Como será que os rappers do Pavilhão 9 e dos Racionais MC’s reagiriam às sugestões de repensar as suas letras ou a “conveniência” de não incluírem algumas nas apresentações ao vivo?

Em um mundo onde trumps e dorias ganham eleições com certa folga. onde conquistas sociais são retiradas e liberdade de expressão e opinião são bombardeadas, a democracia e o direito de debater ainda são questões fundamentais a serem preservadas – são algo pelo qual vale muito a pena lutar.

Por mais sombrios que sejam os tempos atuais, como bem disse o escritor brasileiro Raduan Nassar, ainda assim existe capacidade de discernimento e inteligência em parte expressiva da população.

Não se trata de aplaudir ou defender letras que estimulem, pedofilia, agressão, homofobia, racismo e discriminações variadas. Trata-se de lutar contra os excessos e evitar a abertura de precedentes.

Neste caso, protestos variados e boicote são as armas mais indicadas e eficientes contra a estupidez de certos artistas. Censura e autocensura, jamais. Permitir que a censura se estabeleça é perigoso e costuma ser um caminho sem volta.

 

 

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

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