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Acomodado e seletivo, público roqueiro aposta somente no certo e garantido

Combate Rock

31/07/2015 06h33

Marcelo Moreira

Uma rápida pergunta para 20 garotos que estavam na plateia do último domingo, no Centro Cultural São Paulo, onde Krozus e Capadocia tocaram a preços populares. "Você pagaria R$ 20 para ver uma banda nova em um lugar legal como esse, no Centro Cultural?" Apenas dois responderam que sim.

A enquete foi rápida e tem pouco valor estatístico, mas demonstra a pouca disposição verificada há tempos no Brasil a respeito da música como um todo: o público roqueiro se acomodou, só aposta no certo e garantido, lota so shows das bandas naiconais e conhecidas, e faz questão de ignorar artistas autorais novos, ainda que a preços baixos nos shows.

Isso significa que muita gente não pagaria para ver o bom Capadocia, que abriu para o Korzus. Dos 20 rapidamente consultados, nenhum compra CDs ou paga por downloads – muito menos assina qualquer serviço de streaming.

O fim de semana repleto de metal, com Krisiun, Korzus e Capadocia no Centro Cultural e o minisfestival "SP Metal 30 Anos", no Sesc Belenzinho, teve lotação quase esgotada em todos os eventos. Em comum, muita gente adorando os ídolos, louvando a nostalgia e desprezando o novo.

A pergunta do início do texto foi feita também no segundo dia do SP Metal, já misturando um público bem mais velho. Das 40 pessoas ouvidas pelo Combate Rock, 7 demonstraram algum interesse em ouvir alguma banda nova, seja rock ou metal; 10 até fariam um "supremo esforço" para comprar alguma coisa nova das bandas veteranas que estavam se apresentando no festival – Centúrias, Salário Mínimo, Abutre, Vírus, Santuário e Korzus.

A variação é muito pequena entre os dois lugares: de 10% a 15%, apenas, pagariam para ver um shows de uma banda nova, mas promissora. Pouquíssimos se disporiam a comprar material autoral novo de bandas novas.

No Centro Cultural, sobraram CDs dos Korzus e do Krisiun, assim como camisetas. No Sesc, Dick Siebert, baixista do Korzus, deixou apenas três cópias do DVD da banda.

"É pouco, eu sei, mas ninguém mais compra DVD hoje em dia", justificou ao ser questionado pela vendedora da banquinha de merchandising. As três peças foram vendidas na segunda noite do SP Metal, e foi a medida, já que ninguém mais procurou, apesar da propaganda.

Com uma margem de equívoco um pouco maior do que usual, podemos interpretar algumas coisas a respeito. O público sumiu dos shows de rock? Sim e não. Bandas grandes e estrangeiras ainda atraem público, mesmo em tempos de crise – as bandas nacionais, em locais pequenos e a preços quase populares; os gringos, dependendo da banda, o fã pagará caro.

Já as bandas menores suam demais para conseguir um evento legal, mas mesmo assim veem poucas pessoas na plateia. O Noturnall, que já nasceu grande (com membros do Shaman e Aquiles Priester na bateria), tem conseguido um público raozável em alguns shows pelo Estado de São Paulo, mas não foram muitos os que se dispuseram a ir ao Blackmore, na capital, dias atrás.

Alguns festivais gratuitos no ABC, nos dois últimos anos, só conseguiram atrair pouco mais de um terço da capacidade total dos locais onde foram realizados. Portanto, são poucos os apreciadores que se dispõem a pagar, e pouco, para ver bandas nacionais.

"É uma mistura de desprezo e comodismo. Essa geração do download e do smartphone é preguiçosa e tem pouca iniciativa, quer a coisa muito fácil, muitpo perto e sem custo algum. Quem batalhou bastante e em uma época boa, como Krisiu, Korzus, Angra, Almah, André Matos e até mesmo o ressurgido Viper ainda conseguem alguma atenção, mas com menos público do anteriormente. As bandas sem o mesmo cartaz se dão bem uma ou outra vez, em lugares menores e fora dos grandes centros. A música, hoje, está totalmente desvalorizada", desabafou no SP Metal um músico experiente de uma ótima banda paulista, que pediu para nao ter seu nome revelado.

Público ainda tem, mas este está cada vez mais seletivo e nada disposto a arriscar, muito menos a gastar com CDs, downloads legais ou merchandising. Com a predominância do sertanejo universitário, do funk carioca e das bandas covers, a quantidade de locais para tocar diminuiu nas grandes cidades, aumentando a concorrência. Existe saída?

"Trabalho e trabalho e ralação. Não tem outra saída", diz Beto Bruno, vocalista da banda Cachorro Grande, que sobrevive de forma independente, e vai muito bem.

"Dedicação total e disposição para enfrentar dificuldades e nunca deixar de tocar", reforça Gabriel Thomaz, guitarrista e vocalista dos Autoramas.

"Formar público leva tempo. Além de tocar muito, é preciso estar em constante contato com todo tipo de empresário do meio e divulgar seu trabalho de todas as formas. Nós temos conseguido tocar com bastante regularidade no sul e no exterior, e sempre com público bom. Quem tiver competência e capacidade – e isso tem de sobra no rock brasileiro – terá recompensas mesmo em tempos de crise", arremata o vocalista Iuri Sanson, do Hibria.

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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