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Combate Rock

Ed Motta erra o alvo, mas não está de todo errado

Maurício Gaia

10/04/2015 10h30

Mauricio Gaia

Ed Motta se envolveu em (mais uma) polêmica em sua conta no Facebook ontem. Ao postar datas de uma turnê pela Europa, ele avisou que não haverá músicas em português no repertório, assim como toda a comunicação dele com o público será feita em inglês, portanto "não venha com um grupo de brasuca berrando 'Manuel', porque não tem e muito menos gritar 'Fala português, Ed', completa.

Dali pra frente, ele descamba, ao atacar um perfil de brasileiros no exterior, segundo ele, "que nunca me acompanhou no Brasil, fã de sertanejo, axé, pagode, que vem beber cerveja barata [..] e que vem gritar nome de time. Não gaste seu dinheiro, e nem a paciência alheia atrapalhando um trabalho que é realizado com seriedade cirúrgica, esse não é um show para matar a saudade do Brasil, esse é um show internacional."

Ed, tu mandou mal, mas te entendo (Foto: DIVULGAÇÃO)

Ed, tu mandou mal, mas te entendo (Foto: DIVULGAÇÃO)

Não é primeira vez que o sobrinho de Tim Maia derrapa feio em redes sociais, destilando preconceitos – tempos atrás, ele escreveu: "Em Curitiba, lugar civilizado graças a Deus. O Sul do Brasil, como é bom, tem dignidade isso aqui. Frutas vermelhas, clima frio, gente bonita. Sim, porque ooo povo feio o brasileiro [risos]. Em avião dá vontade de chorar [risos]. Mas chega no Sul ou SP, gente bonita compondo o 'ambiance' [risos]"

Mas tirando o aspecto asqueroso das postagens, Ed Motta toca na questão: o que o público de um show deve ou não esperar. E ele, de forma alguma, está errado em avisar, de antemão, que não irá tocar "Manuel" e que este show não é voltado a quem queira "matar saudades" do país.

Em algum ponto dos anos 90, fui a um show de Itamar Assumpção (meu artista brasileiro preferido, gênio da raça, mas aí já é outro assunto) em São Caetano do Sul. Era um show em lugar pequeno e Itamar estava acompanhado por mais dois músicos. Lá pelas tantas, pessoas da platéia começaram a pedir "Nego Dito".

Itamar, que não era conhecido por ter um temperamento afável, parou e quase discursou: ele havia perdido tempo compondo novas músicas; ele e os músicos que o acompanhavam, perdido tempo em ensaiar as músicas, montar repertório e se preparar para o show. Quem quisesse ouvir "Nego Dito", faria um grande favor a Itamar, inclusive, comprando o álbum, pois ali, ele não tocaria (e não tocou) "Nego Dito".

Também me recordo da última passagem de Lou Reed no Brasil, em 2010. O repertório era baseado nas experimentações feitas em Metal Music Machine (75), que é um álbum  sem canções, apenas ruídos e distorções. Quem buscou se informar, sabia do que se tratava, mas não foi o que aconteceu com boa parte do público presente, que esperava que ele tocasse, sei lá, "Walk on The Wild Side". Após vinte minutos de show, muitos já haviam deixado a sala de espetáculo. Lamento por eles.

Ontem, durante toda a repercussão das declarações de Ed Motta (que repito, 80% delas extremamente infelizes), me peguei em uma discussão com um amigo no Twitter. Lá pelas tantas, este amigo lançou o argumento "do consumidor": "Eu paguei! Se eu quiser gritar 'Toca Raul' eu posso!". Não, amigo, você não pode. Até porque ninguém grita "Toca Brahms" em concerto na Sala São Paulo.  No caso do show de Itamar, uma amiga que estava comigo saiu esbravejando pela postura do cantor, pois ele havia "frustrado os fãs". Itamar estava certo. Lou Reed estava certo (ok, aos sobreviventes do show, ele deu de lambuja uma "I´ll Be Your Mirror" no bis). Ed Motta está certo, também. Mesmo tendo escrito bobagem.

Um show de música é entretenimento, mas também arte. Fazer um show de greatest hits, ou versões para que o público cante junto, apenas atende à necessidade adolescente de um pessoal que resiste a conhecer novas coisas, em absorver novas informações. O artista que se pretende como tal tem todo direito de querer apresentar seu trabalho com o conteúdo e da maneira que achar mais apropriada. Ao público, cabe avaliar e gostar ou não. E vida que segue.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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