Combate Rock

O verdadeiro fim do sonho ocorreu há 45 anos, em Altamont, com os Stones

Combate Rock

04/12/2014 06h30

Marcelo Moreira

Mick Jagger sentiu no ar o clima carregado quando sobrevoou o autódromo sem so de Altamont, na Califórnia, em 5 de dezembro de 1969, e percebeu que o concerto gratuito que os Rolling Stones tinham inventado para “rivalizar” com o Festival de Woodstock tinha sido má ideia.

Teve certeza quando desembarcou e viu a zona que era o palco e os bastidores do evento que tinha atraído 400 mil pessoas (alguns falam em 600 mil): brigas entre músicos das bandas de aberturas, excesso de consumo de drogas e álcool e “seguranças” (membros da gangue de motociclistas Hell’s Angels, violentos e perigosos, com um extenso currículo de crimes e contravenções) batendo em instrumentistas, empresários de bandas e no público que ousava se aproximar do palco.

Para evitar o pior, os Stones, a banda principal, sobem ao palco e interrompem a apresentação algumas vezes por conta de tumultos e da atmosfera pesadíssima. Quando tocam “Under My Thumb”, um “Angel” persegue um rapaz negro, empurra-o, esfaqueia-o e o pisoteia-o em frente ao palco, às vistas de Jagger (que vê o tumulto, mas não percebe de imediato o que ocorre).

Meredith Hunter, o rapaz negro, sangra até morrer com o tórax afundado. Os Angels impedem qualquer um de prestar socorro, e o garoto morre logo depois, e teve o corpo jogado pelos “seguranças” atrás do palco.

Os Stones não souberam do que aconteceu, mas alguém da produção conseguiu driblar os bêbados “Angels” que rodeavam o palco e chegou ao vocalista no meio de uma música, e o aconselhou a encerrar rapidamente.

O cantor não pensou duas vezes. Cantou mais três músicas, mal se despediu e sumiu do palco escuro. Instintivamente, o resto da banda deu os últimos acordes e “saiu fora”. O helicóptero já estava com os motores ligados e menos de dois minutos a banda inglesa desapareceu do inferno.

Mais tarde, um documentário sobre o evento foi realizado (“Gimme Shelter”) e as imagens serviram de base para que advogados dos acusados de assassinato revelassem que Hunter portava uma arma calibre .32 no momento da briga – o que foi confirmado depois por diversas testemunhas. Ninguém foi condenado ou preso.

Visão do palco de Altamont: Mick Jagger veste uma capa de cetim preta e vermelha, pá direita, enquanto que um apreensivo Keith Richards tenta tocar, á esquerda. Note a proximidade perigosa do público em relação ao palco (FOTO: REPRODUÇÃO DE DVD)

Visão do palco de Altamont: Mick Jagger veste uma capa de cetim preta e vermelha, à direita, enquanto que os  apreensivos Keith Richards e Mick Taylor tentam tocar, à esquerda. Note a proximidade perigosa do público em relação ao palco (FOTO: REPRODUÇÃO DE DVD)

Altamont teve menos mortes do que a tragédia de Cincinnati em 1978 – quando 11 fãs do Who morreram pisoteados em um tumulto antes do show, supostamente porque alguns acharam que a passagem de som era o início do show, só que quase quatro horas antes do horário marcado.

Também teve menos mortes do que na tragédia de Roskilde, na Dinamarca, em 2000, no festival de verão daquela cidade. Na abertura de parte do local à frente do palco, muita gente correu pra ficar na grade, mas a “manada” se descontrolou e nove adolescentes morreram pisoteados.

Ainda assim, Altamont é considerada a maior tragédia por conta de seu simbolismo. A geração do paz e amor, do movimento hippie e de toda a psicodelia, sentia que a realidade estapeava a todos na cara com a confusão e o fim de todas as ilusões apenas seis meses de depois de Woodstock. Os anos 60 terminavam antes do previsto, de forma amarga e angustiante.

Quarenta e cinco anos atrás, a contracultura achava que ia vencer. Infelizmente, perdeu feio, com a realidade atropelando tudo, com a Guerra do Vietnã ficando cada vez mais violenta e pesada, com a repressão aos direitos civis nos auge (prisão de ativistas negros e assassinato por policiais de quatro estudantes em um protesto na Universidade de Ohio, ambos em em 1970)

Isso sem falar no cinismo político norte-americano, que teminou com a renúncia do presidente Richard Nixon em 1974 por conta do infame escândalo de espionagem de um diretório político dos democratas, adversários políticos, e as patéticas tentativas de negar o ocorrido.

Do ponto de vista cultural, Altamont matou os anos 60 e o movimento hippie, e mostrou que o mundo era um pouco pior do que as boas intenções de um grupo gigante de pessoas intencionadas no mundo inteiro.

Altamont fez um favor, por outro lado, a todo mundo na área musical. Mostrou que rock’n’roll era coisa séria e que não poderia mais ficar a cargo de amadores bem intencionados, como os organizadores de Woodstock e do próprio evento de Altamont.

Música era um negócio sério, importante e movimentava na época muito, mas muito dinheiro. Mais do que isso, era um poderosíssimo indutor cultural, estabelecendo tendências, e se tornando um importante instrumento de marketing.

rollingst-altamont-free-concert

A ingenuidade, ainda que forçada e um pouco estimulada, dava lugar ao business e ao estabelecimento de uma indústria forte e bilionária, capaz de rivalizar com vários segmentos da economia que produziam produtos de alto valor agregado.

Faz 45 anos que a utopia dos festivais e que a ideia de que a música e a cultura poderiam mudar o mundo perdeu relevância e foi soterrada pela realidade implacável da economia do dia a dia e da política cínica e inescrupulosa do governo – qualquer governo.

Os ideais não morreram. Continuaram nas letras pesadas e contundentes de gente como Bob Dylan, Neil Young, Joni Mitchell, Patti Smith, Pete Townshend e muitos outros no blues, no rock, no folk e até mesmo na country music.

Só que a roda precisava girar e os negócios tinham precedência – até para que pudessem viabilizar as condições para que os artistas pudessem dar vazão a suas posições políticas, em uma contradição que assombrou muitos artistas dos anos 70 e 80 por muito tempo.

Altamont pode ter destruído muitos sonhos mais até do que o fim dos Beatles, em abril de 1970 – embora poucos tenham tido consciência na época -, mas ao menos recolocou a história nos trilhos (do ponto de vista mais realista e pragmático).

Os festivais ficaram bem mais profissionais, tornaram-se negócios lucrativos e progressivamente mais seguros até desembocar em eventos extremamente bem-sucedidos e gigantescos, como o Rock in Rio (em suas várias versões e locais), Lollapalooza, Wacken Open Air, Gods of Metal, Download Festival, Roskilde, Grasspop, Hellfest, Monsters of Rock, Planeta Terra e muitos outros. Talvez esse seja o maior legado do trágico Altamont Festival.

Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

Sobre o Blog

O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
Contato: contato@combaterock.com.br

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