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Protesto e resistência nas obras de Subalternos, Uganga e Stereo Resistor

Combate Rock

04/03/2020 06h49

Marcelo Moreira 

Tempos difíceis requerem tenacidade e muito estômago para resistir ao autoritarismo e às frequentes ameaças à democracia.

Diante dos avanços antidemocráticos praticados pelo governo Jair Bolsonaro e do aparelhamento ultraconservador da área cultural e educacional do governo federal, resta apenas, neste momento resistir e reagir para tentar elaborar algum tipo de plano pra conter os desmandos.

Blocos e escolas de samba deram a dica naquele que foi o carnaval mais político e crítico dos últimos e os roqueiros, ao menos parte deles, parecem ter acordado depois de dois fatos lamentáveis e muito preocupantes – a perseguição da Polícia Federal e do Ministério da Justiça ao festiva Facada Fest, de Belém (PA), por conta de um cartaz satirizando a figura de Bolsonaro, e a "proibição" de bandas de tocar músicas de Chico Science em, Recife.

Três artistas do underground retomaram a carga de protestos diante dos fatos ignominiosos que temos assistido nos últimos tempos, entre eles os ataques e intimidações sofridas por jornalistas, como Patrícia Campos Mello (Folha de S. Paulo) e Vera Magalhães (Estado de S. Paulo e TV Cultura), e endosso inacreditável do presidente da República a manifestações que pedem o fechamento do Congresso Nacional e do STF (Supremo Tribunal Federal).

A banda Subalternos, de São Paulo, acaba de lançar o seu primeiro álbum ao vivo, "Subalternos Ao Vivo", assim mesmo, sem nenhuma criatividade. Quer coisa mais punk do isso?

Nome forte do underground paulistano, robustecido por uma excelente participação no festival punk mais importante do mundo no passado, em Blackpool, na Inglaterra, os Subalternos estão com a faca nos dentes e recuperam um pouco dos saudosos pontos punks oitentistas em canções diretas e mensagens claras e contundentes.

O grande hit é "Nunca Pare de Lutar", um petardo na cara dos fascistas e um hino que conclama à luta e à resistência. "Mentiras" e "Injustiça" mantêm o clima guarda levantada, mas com um groove bacana e uma certa dose de ironia e humor, coisas fartas em "Cerveja" e "Nós Queremos Ska", lembrando sempre também que punk rock é diversão e descontração.

Simples e bem balanceado, o disco ao vivo dos Subalternos é um bálsamo em tempos tão pesados onde o rock ainda mantém a sua timidez nos protestos e na resistência contra os ataques fascistas e autoritários.

A ironia e a sátira também são as armas de outra banda punk paulistana. O Stereo Resistor é recente, ainda não completou dois anos de existência, mas quer marcar terreno no underground com uma postura firme de contestação diante das tentações autoritárias.

"Golden Shower" é o novo single/clipe que o grupo está lançando, em uma crítica satirizada à pataquada promovida pelo nefasto presidente da R nepública no ano passado quando difundiu um vídeo pornográfico na tentativa de desqualificar os movimentos LGBT, em clara manifestação homofóbica.

O videoclipe de "Golden Shower" pode ser visto no site do grupo (www.stereoresistor.wordpress.com), clicando aqui ou no final deste texto.

Para relembrar: no dia 5 de março de 2019 o presidente Jair Bolsonaro publicou nas redes sociais um vídeo contendo imagens de um bloco de carnaval em São Paulo, no qual, em determinado momento, dois homens que dançavam sobre um ponto de táxi protagonizaram uma cena sexual – um deles se abaixa para que o outro urine sobre ele. No dia seguinte, o presidente voltou às redes sociais para perguntar "o que é Golden Shower?". O termo em inglês é utilizado para definir práticas sexuais que envolvem atos de urinar sobre o parceiro.

"A gente se inspira nas polêmicas da política bolsonarista para compor um retrato falado dos valores e costumes que o governo atual tenta imprimir na sociedade", como resume o guitarrista Rogério Salatini.

"A política do atual governo e a relação do presidente com as redes sociais é de uma iconografia horrenda, manifestando fortes tendências autocráticas, a começar pela presença das forças armadas na composição do governo", continua o músico. "A quantidade de declarações impróprias proferidas pelo presidente nos envergonham. Ele parece um homem extremamente complexado, que têm dificuldades em respeitar os direitos e os desejos das pessoas. Parece um ditador atrapalhado, um personagem de uma comédia trágica."

O vídeo,criado e dirigido, por integrantes da própria banda, utiliza imagens do filme "O segredo de Brokeback Mountain"  de Ang Lee, e imagens retiradas da internet, de danças de caubóis.

Já os mineiros do Uganga continuam dando sequência à divulgação do ótimo álbum "Servus", lançado no ano passado, e aproveita para dar uma turbinada em outro petardo, "Eurocaos ao Vivo", gravado durante uma turnê europeia da banda.

Legítimo representante do punk e do hardcore brasileiro de primeira linha, o hoje sexteto comemora mais de 20 anos de pancadaria e de protesto, mas evitando ligações com alas e facções políticas, e muito menos com partidos. Entretanto, o viés de crítica social é muito forte, relembrando os bons tempos do Cólera nos anos 80.

"Direitos humanos e políticas em pro do social andam juntos e deveriam nortear os princípios de todas as administrações públicas, enquanto o respeito deveria ser a base da convivência social. Enquanto houver desequilíbrio e desigualdades imensas, haveria atrito, haverá contestação, haverá caos. Não temo como ser diferente, isso é um combustível poderoso", afirma Manu "Joker" Henriques, vocalista do Uganga.

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Sobre os Autores

Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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O Combate Rock é um espaço destinado a pancadarias diversas, com muita informação, opinião e prestação de serviços na área musical, sempre privilegiando um bom confronto, como o nome sugere. Comandado por Marcelo Moreira e Mauricio Gaia, os assuntos preferencialmente vão girar em torno do lema “vamos falar das bandas que nós gostamos e detonar as bandas que vocês gostam..” Sejam bem-vindos ao nosso ringue musical.
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