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Plebe Rude ressurge forte e dando aula de história em 'Evolução Vol. 1'

Combate Rock

04/01/2020 06h32

Ricardo 'Cachorrão' Flávio – publicado originalmente no site Rock on Board

Em janeiro deste ano, adiantamos que a Plebe Rude estaria finalizando a turnê do álbum "Primórdios" para entrar em estúdio e gravar um novo disco, de conteúdo conceitual, onde a ideia era contar a história do homem, no formato de uma ópera rock, desde seu surgimento até os dias atuais.

"Evolução Vol. 1" tem 14 faixas muito bem trabalhadas e é a primeira parte desta rica saga. Em tempos em que o Brasil está tão burro e analfabeto, renegando a própria história, uma banda como a Plebe Rude, com tanto valor, dando "aula de história", é algo fantástico, e nunca se fez tão necessário.

O disco abre com "Evolução", que foi o primeiro single apresentado pela banda, há dois meses, com um lyric vídeo bem bacana no YouTube e trás Philippe Seabra, André X, Clemente Nascimento e Marcelo Capucci numa bela faixa, com letra caprichada, e música carregada de órgão Hammond.

Tem uma sonoridade única e diferente do que a Plebe Rude costuma apresentar, mostrando aqui também uma evolução, deixando para trás toda aquela conversa de Brasília, Turma da Colina, Renato Russo e Primórdios para se dedicar a algo novo e diferente.

A faixa conta com a participação especial de Walter Casagrande Júnior, ex-jogador de futebol de Corinthians, São Paulo e Flamengo, comentarista de TV e roqueiro assumido.

Casagrande narra fatos que vão do início da caminhada, literal, do homem, à invenção da roda, das armas, das fronteiras, até chegarmos na corrida espacial, dos conflitos e da guerra, lembrando ao final do pensamento de Albert Einstein – III Guerra Mundial não se sabe como vai ser, mas IV será feita com paus e pedras.

"O Início", um rápido instrumental com toque militar de alguns segundos precede a continuação da história evolutiva, que chega com "A Nova Espécie", quando Philippe Seabra canta a transição do homem, das cavernas ao mundo exterior, numa faixa que começa com violão e cresce. Interessante notar como teclas fazem parte deste trabalho de maneira bem marcante.

A sequência vem com outra letra e música do Seabra, a bela balada "O Fogo Que Ilumina o Caminho", que mostra as criações do bicho homem, da descoberta do fogo, novamente à criação da roda e das engrenagens que fazem o trabalho pesado para o homem. Tudo já havia sido citado em "Evolução". Aqui há um flerte com o futuro, quando menciona o fim da caça e o preparo da terra e a plantação. Será que o futuro e o ponto final evolutivo, é ser vegano?

"A Janela pro Céu" tem um ar sonoro oitentista, cheio de sintetizadores que remetem diretamente ao pós-punk, e a letra fala, dentre vários assuntos ligados à Idade Média, do início dos conflitos religiosos, tão presentes na história da humanidade, desde sempre.

"A Queda de Roma", com música e letra do baixista André X, vem em seguida e tem título autoexplicativo, com sonoridade que também remete aos anos 80, mas, ao invés dos sintetizadores da faixa anterior, o destaque vai para as guitarras pesadas, lentas e sombrias.

"Bring Out Your Dead" chega pesada e resume assuntos já tratados nas faixas anteriores. "Traga-me Seus Mortos" mencion a peste bubônica, as cruzadas e a inquisição!

"Nova Fronteira" foi o terceiro single lançado do disco e traz a sonoridade já velha conhecida da Plebe Rude e é uma faixa sensacional, onde Philippe Seabra conta desta vez a expansão do Império Europeu através da exploração das colônias, nas Américas e África – "Nova fronteira, finco a bandeira / Agora é meu, e não mais seu / Queira ou não".

Esta faixa tem participação especial de Ana Carolina Floriano, atriz e cantora mirim da Escola Estúdio Brodway, que recita versos contundentes:

"Imagina se a África
Ninguém fosse lá escravizar
Como seria?
E se os Astecas, Incas e os Maias
Tivessem mais dias?
Imagina todos os índios ainda nos latifúndios que antes eram suas terras?
E as civilizações não tivessem as aspirações derrubadas pela guerra?"

Plebe Rude (FOTO: DIVULGAÇÃO)

"Descobrimento da América" é a nona faixa do álbum e acredito ser a música mais longa de toda a carreira da Plebe Rude, com pouco mais de 10 minutos, e que conta em detalhes as navegações de espanhóis e portugueses a fim de "descobrir" e explorar a América.

Uma opinião bem pessoal: enquanto o rock nacional mainstream está a cada dia que passa mais manso e bunda mole é saudável que, após 38 anos de sua criação, ainda tenhamos a Plebe Rude contestatória e metendo o dedo na ferida.

Uma pequena lembrança nesta faixa é que o verso final "Não haverá mais submissão ao Rei", lembra, e muito, na forma de cantar, o Camisa de Vênus em "O Adventista", de 1983, onde Marcelo Nova bradava: "Não vai haver amor neste mundo nunca mais", ambas baseadas nos Buzzcocks, autores da original "I Believe", como homenagem a Pete Shelley, falecido no final do ano passado.

Seguindo em frente, "Um Belo Dia em Florença", de André X e Philippe Seabra, é a minha preferida no disco e fala da época do Renascimento, no Século XIV, e o homem com foco na arte e ciência, onde são citados Da Vinci, Michelangelo, Rafael. Bom lembrar que esta época marca a transição do feudalismo ao capitalismo e isso tem impacto marcante em toda a sociedade.

Caminhando para o final do disco, "Luz no Fim das Trevas, Pt. 1" é a primeira participação de Clemente Nascimento como compositor no disco, onde o tema é o Iluminismo e a saída do homem das trevas da Idade Média, e entrando na Era da Razão.

Resumindo, foi quando os pensadores da época – cientistas, escritores e filósofos, defendiam o uso da razão em oposição a tradição e ao pensamento religioso. A música tem uma continuação em seguida, "Luz no Fim das Trevas, Pt. 2", uma parceria dos outros plebeus, Seabra, X e o baterista Marcelo Capucci.

"A História Deja Vu", parceria de Clemente e Philippe, fala de como o homem é estúpido e de toda a evolução das armas, desde o princípio dos tempos, até os dias de hoje, quando a história se repete – ou nos dá a impressão de que já vimos aquilo tudo antes, pois, sempre termina em batalha.

E "Evolução, Vol. 1" termina com a contundente "A Mesma Mensagem",que  Philippe Seabra escreveu para falar das religiões e os conflitos nascidos a partir das diferenças entre elas, nos deixando como mensagem estes versos do refrão, que vale a pena reproduzir:

"Buda, Jesus, Maomé
Tentaram te Dizer
Que os deuses Hindus
E do Candomblé
Vieram te Trazer
A mesma mensagem que é:
Não Importa a Fé
As crenças se sobrepõe
A Convivência Cabe a Você"

 

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Marcelo Moreira, jornalista, com mais de 25 anos de profissão, acredita que a salvação do Rock está no Metal Melódico e no Rock Progressivo. Maurício Gaia, jornalista e especialista em mídias digitais, crê que o rock morreu na década de 60 e hoje é um cadáver insepulto e fétido. Gosta de baião-de-dois.

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